Os bancos brasileiros devem enfrentar uma desaceleração nas concessões de crédito por meio de programas governamentais no quarto trimestre do ano, após o fim de medidas que ampliaram os limites de financiamento para micro, pequenas e médias empresas. Apesar da redução esperada no ritmo de desembolsos, o Bradesco BBI avalia que os riscos para a qualidade dos ativos permanecem limitados, principalmente devido às garantias oferecidas pelo governo.
O banco mantém recomendação de Compra para Itaú (ITUB4) e Banco ABC (ABCB4) e recomendação Neutra para Banco do Brasil (BBAS3) e Santander (SANB11).
Segundo o relatório, fundos públicos de garantia de crédito se consolidaram como uma importante fonte de financiamento para empresas de menor porte no Brasil. Desde 2020, mais de R$ 650 bilhões em empréstimos foram originados com garantias do Fundo Garantidor de Investimentos (FGI), administrado pelo BNDES, e do Fundo Garantidor de Operações (FGO), administrado pelo Banco do Brasil.
O movimento ganhou força a partir de maio de 2026, quando a Medida Provisória 1.355 ampliou os limites de crédito do Pronampe e do ProCred 360. O teto passou de 30% para 50% da receita anual anterior, além da possibilidade de utilização dos recursos para refinanciamento de dívidas existentes.
Com as mudanças, a média mensal de desembolsos do Pronampe saltou de R$ 3 bilhões nos quatro primeiros meses do ano para R$ 9,4 bilhões. No ProCred 360, os desembolsos médios avançaram de R$ 270 milhões para aproximadamente R$ 580 milhões.
Os programas passaram a responder por entre 2% e 3% do crédito corporativo, ante cerca de 1,4% anteriormente. Entre micro, pequenas e médias empresas, a participação das carteiras vinculadas aos programas chegou a aproximadamente 12% dos empréstimos, contra cerca de 10% antes das mudanças.
Fim da MP deve reduzir concessões
A Medida Provisória 1.355, porém, perdeu a validade em 31 de agosto sem ter sido votada. Com isso, as regras anteriores voltaram a vigorar, o que deve provocar uma desaceleração relevante nas concessões ao longo do quarto trimestre.
Para o Bradesco BBI, entretanto, a redução no ritmo de novos empréstimos não representa, por si só, uma preocupação significativa para os bancos. As garantias públicas diminuem a exposição das instituições às perdas e reduzem a necessidade de provisões e o consumo de capital.
O relatório destaca que Pronampe e ProCred 360 possuem fator de ponderação de risco de 12%. Nos programas do FGI, como o PEAC, o percentual é de 40%. Para comparação, produtos tradicionais de varejo e capital de giro apresentam fator próximo de 75%.
Essa estrutura torna os programas particularmente atrativos para os bancos, na avaliação do BBI, ao combinar expansão da carteira de crédito com menor exigência de capital e proteção parcial contra eventuais perdas.
Inadimplência pode subir
O banco também espera uma alta da inadimplência à medida que as carteiras de crédito mais recentes amadureçam. A preocupação é maior com a safra de 2025, que apresenta desempenho inferior ao observado na carteira originada em 2024.
Ainda assim, o Bradesco BBI considera que as perdas devem permanecer dentro dos limites de stop-loss previstos nos programas de garantia. Na prática, isso significa que parte relevante do risco de crédito continua sendo absorvida pelas estruturas de proteção oferecidas pelos fundos públicos.
O banco ressalta, contudo, que os indicadores de qualidade dos ativos podem apresentar alguma volatilidade temporária. Isso ocorre porque o acionamento das garantias não é imediato após a inadimplência. No Pronampe, por exemplo, os bancos precisam aguardar 180 dias de atraso para solicitar a cobertura. No PEAC e no ProCred 360, o prazo é de 90 dias, além do período necessário para o processamento e pagamento das compensações.
O que o BBI espera dos bancos
Diante desse cenário, o Bradesco BBI mantém uma avaliação favorável sobre a combinação de crescimento, baixo consumo de capital e proteção contra perdas proporcionada pelos programas de crédito garantido pelo governo.
Porém, para o quarto trimestre, o principal ponto de atenção deve ser a desaceleração das novas concessões após o fim das regras temporárias de ampliação do Pronampe e do ProCred 360. Ao mesmo tempo, segundo o BBI, a estrutura de garantias públicas deve limitar o impacto de uma eventual deterioração da inadimplência sobre os balanços dos bancos.
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