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Marcopolo: BTG vê ação barata, mas quer sinais de melhora no lucro

Marcopolo: BTG vê ação barata, mas quer sinais de melhora no lucro

Banco mantém preço-alvo para a fabricante de ônibus e aponta mercado doméstico mais fraco que o esperado pela companhia

O BTG Pactual manteve a recomendação neutra para a Marcopolo (POMO4) depois de participar do Marcopolo Day 2026, encontro com a alta direção da fabricante de ônibus realizado na quarta-feira (9), em Caxias do Sul (RS).

O preço-alvo de R$ 8,00 em 12 meses indica potencial de valorização de 74,3% sobre o fechamento de R$ 4,59 daquele dia. Somados os dividendos projetados, o retorno total estimado chega a 83%.

A conta, contudo, não tira a ação do campo neutro. Pela metodologia do banco, a recomendação compara o retorno esperado com a média do setor, e os analistas querem ver outro sinal antes de mudar de posição.

“Preferimos ficar de fora e reiteramos a recomendação neutra até termos mais visibilidade sobre uma melhora no ritmo dos lucros”, escreveram os analistas Lucas Marquiori, Fernanda Recchia e Samuel Alkmim, do BTG Pactual.

As projeções ajudam a entender a cautela. O banco estima lucro líquido de R$ 1,136 bilhão em 2026, queda de 8% sobre 2025, mesmo com a receita subindo 4,1%, para R$ 9,432 bilhões. A retomada fica para 2027, com lucro de R$ 1,228 bilhão.

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Produção doméstica encolhe no semestre

Os números apresentados pelo diretor comercial e de marketing, Ricardo Portolan, mostram o tamanho do freio. Sem contar os micro-ônibus, a produção de rodoviários caiu cerca de 20% no primeiro semestre de 2026, e a de urbanos, 18%.

Até os micro-ônibus vendidos fora dos programas públicos recuaram 8%. Nas exportações, 2025 foi muito forte por causa da Argentina; neste semestre, os destaques foram Peru e Bolívia. A idade média da frota segue alta.

Para o presidente, André Armaganijan, o mercado teve dois ciclos de alta, de 2015 a 2019 e de 2021/22 a 2024/25, e agora entra em uma fase mais plana. A renovação, no entanto, sempre acaba vindo, porque os operadores precisam de eficiência.

Goiânia foi o exemplo citado. A cidade reestruturou o sistema, recuperou o número de passageiros de antes da pandemia e renova a frota com ônibus a gás e elétricos. Mesmo nesses casos, a troca anda mais devagar e com custos em alta.

“Saímos do evento com a visão de que a administração é franca sobre um mercado doméstico de crescimento mais fraco, com a demanda abaixo das expectativas iniciais da companhia, principalmente no segmento urbano”, relataram Lucas Marquiori, Fernanda Recchia e Samuel Alkmim, do BTG Pactual.

O diretor financeiro, Pablo Motta, somou outros pesos ao período. A inflação pressionou o primeiro semestre, e a reforma tributária deve atrapalhar o setor no fim do ano.

No rodoviário, juros altos e endividamento das famílias seguram a renovação das frotas e o apetite pelo turismo. No urbano, a empresa vê o marco legal do transporte público como positivo por dar garantias aos contratos, mas a fonte de recursos do sistema continua em aberto.

A direção também avalia como positivo o Move Brasil, que oferece juros abaixo do mercado. A segunda fase incluiu ônibus, mas com limite de recursos e de prazo. A Volare ganhou com o ciclo de financiamento mais curto; nos modelos maiores, houve mais antecipação do que vendas novas.

Governo sustenta micro-ônibus, mas prende capital

Os micro-ônibus ganharam espaço no faturamento. Segundo Pablo Motta, a fatia do segmento passou de 8% a 9% para 18% a 19% da receita, com concentração no primeiro semestre, o que pesa um pouco sobre as margens.

Para Lucas Marquiori, Fernanda Recchia e Samuel Alkmim, do BTG Pactual, esse é o lado mais positivo do evento: “A venda de micro e miniônibus segue apoiada em sólidos volumes contratados no programa do Ministério da Saúde para este ano e em novos passos rumo à homologação do Caminho da Escola”.

Na fase 13 do Caminho da Escola, a Marcopolo venceu 12 dos 13 lotes, com 7.210 unidades das marcas Neobus e Volare. Os registros de compra começaram em agosto, e a produção ganha força a partir do 3º trimestre, mas se concentra em 2027.

As entregas começam perto do fim do ano. No Caminho da Saúde, que transporta pacientes entre cidades e hospitais de referência, a empresa ganhou 3.005 unidades e entregou 1.500 no primeiro semestre. O programa segue aberto a adesões, sem visibilidade sobre nova licitação.

A conta aparece no balanço. No 2º trimestre de 2026, o ROIC (retorno sobre o capital investido) foi prejudicado por um aumento de R$ 489 milhões no capital de giro, reflexo dos prazos mais longos de pagamento dos programas públicos.

Em ano eleitoral, a espera cresce, porque as emendas parlamentares só são pagas depois do pleito. As eleições também podem frear a produção da nova fase do Caminho da Escola.

Cerca de 80% do programa anterior foi bancado por emendas; portanto, o Congresso eleito vai definir se esse volume se repete. A empresa afirma que o grosso do investimento em capital de giro já foi feito.

Austrália compensa Argentina e México

A área internacional saiu de prejuízos entre 2020 e 2023 para lucro líquido de R$ 216 milhões em 2024 e R$ 338,1 milhões em 2025. No primeiro semestre de 2026, entretanto, os países andaram em direções opostas.

A Austrália, com três fábricas, elevou o lucro de R$ 55,3 milhões para R$ 100,6 milhões, alta de 81,9%. A carteira de pedidos vai até 2027, com Queensland ainda por renovar a frota e a licitação de Nova Gales do Sul pela frente.

Na Argentina, o resultado passou de lucro de R$ 54,1 milhões para prejuízo de R$ 1,9 milhão. O país não tem grande renovação de frota desde 2018, e o crédito é o principal entrave. A direção vê estabilização e espaço para a troca do diesel pelo gás nos urbanos.

O México foi de lucro de R$ 11,6 milhões a prejuízo de R$ 10,3 milhões. A discussão sobre o USMCA, acordo comercial entre Estados Unidos, México e Canadá, atrasou os negócios. A demanda por rodoviários está concentrada em cinco clientes, com compras represadas.

África do Sul e China também recuaram, para lucros de R$ 9,6 milhões e R$ 1,7 milhão. Na outra ponta, a equivalência patrimonial das participações na Colômbia e no Canadá subiu de R$ 10,3 milhões para R$ 81,3 milhões.

A canadense NFI, da qual a Marcopolo é a segunda maior acionista, ganha com as regras do Buy America, que favorecem a produção nos Estados Unidos, e com preços positivos.

Na Colômbia, a operação local, que não é consolidada no balanço, venceu licitações do TransMilenio para os próximos 6 a 12 meses. A receita deve aparecer no ano que vem, em linha com os ciclos históricos.

Volta à Europa começa pela Espanha

Em algumas semanas, a Marcopolo retoma a presença no mercado europeu pela Espanha, contou João Paulo Ledur, diretor de estratégia e transformação digital. São 21 unidades vendidas e mais de 30 em negociação, com produção em novembro e entregas em janeiro de 2027.

O mercado europeu cresceu 10% no primeiro semestre de 2026 na comparação anual. Depois da Espanha, vêm Itália e França; Portugal e parcerias com montadoras como Volvo e Scania também estão nos planos.

A oportunidade nasceu de uma mudança na concorrência. O setor era pulverizado entre pequenos encarroçadores e montadoras com soluções completas. Os menores sofreram com a crise pós-pandemia e com a concorrência chinesa, e faltou oferta de carrocerias.

A apresentação comercial passa por três feiras: FIAA, em setembro, IBE, em novembro, e Coach Expo, em dezembro.

Dentro de casa, a meta é ganhar competitividade industrial. As horas automatizadas devem chegar a cerca de 15,8% em 2026, ante 9,4% em 2020, e a inteligência artificial já traz ganhos de eficiência.

Entre os lançamentos, o G8 TEC promete economia de até 3,5% de combustível com lâminas aerodinâmicas desenvolvidas com o ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica). O Torino 2027 aposta em eficiência operacional, confiabilidade e conforto.

Ação barata, lucro sem fôlego

A Marcopolo vale R$ 5,696 bilhões na bolsa e mantém a distribuição de resultados. O payout, fatia do lucro paga aos acionistas, foi de 50% no primeiro semestre de 2026, no teto da política de 40% a 50%, e a recompra de ações continua.

Lucas Marquiori, Fernanda Recchia e Samuel Alkmim, do BTG Pactual, colocam os dois lados na balança: “Continuamos a ver a companhia operando em um ambiente difícil para crescer, mas negociando a um valuation barato, de 5 vezes o preço sobre lucro (P/L) de 2027, enquanto entrega retornos sólidos aos acionistas, com dividend yield de 9% em 2026”.

Nas contas do banco, o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) sobe de R$ 1,509 bilhão em 2025 para R$ 1,668 bilhão em 2026 e R$ 1,954 bilhão em 2027. O dividendo por ação, porém, cai de R$ 1,18 para R$ 0,40 neste ano.

Os investimentos de 2026 devem somar de R$ 300 milhões a R$ 350 milhões, patamar semelhante ao de 2024 e 2025. A prioridade, segundo a empresa, é ter o parque industrial mais moderno possível, mesmo com volumes mais fracos.

Entre os riscos de baixa, o BTG lista PIB abaixo do esperado, menos crédito para o setor automotivo, concorrência de importados, execução de aquisições e a liquidez limitada da ação. Do lado positivo, contam incentivos do governo ao setor e a expansão internacional.