O Ibovespa sobe perto de 3% nesta quarta-feira (2), com investidores comprando ações descontadas depois da divulgação das mensagens trocadas entre o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master.
“O noticiário político segue no radar, enquanto a demanda por opções de compra de ações brasileiras, vista nos contratos em aberto de calls do EWZ, mantém a atenção dos investidores”, apontou o Bradesco BBI em um relatório divulgado hoje.
No exterior, o movimento é bem mais modesto: o Dow Jones avança 0,4% e o petróleo Brent sobe 1,1%. No Polymarket, mercado de predições em que investidores apostam em resultados de eventos, Flávio Bolsonaro (PL) vem ganhando força nas últimas semanas sobre o presidente Lula (PT).
A pesquisa Quaest divulgada na manhã desta quarta-feira caminha na mesma direção. No primeiro turno, Lula tem 37% das intenções de voto, ante 38% na rodada anterior, e Flávio Bolsonaro aparece com 29%, vindo de 31%. Augusto Cury saltou de 2% para 10% e ficou em terceiro, com Renan Santos marcando 3%.
No segundo turno entre os dois primeiros, Lula oscilou para 42% e Flávio subiu para 41%, o que reduziu a vantagem numérica do presidente de três para um ponto percentual. Com margem de erro de dois pontos, a disputa está tecnicamente empatada.
O levantamento ouviu 2.004 eleitores entre 30 de agosto e 1º de setembro, com nível de confiança de 95% e registro BR-07065/2026 no Tribunal Superior Eleitoral.
Incerteza institucional vira gatilho de compra
O que tem movido a Bolsa não é a certeza, e sim a ausência dela. Não se sabe quais serão os próximos passos da Corte após a divulgação das mensagens, e essa indefinição vem sendo lida pelo mercado como aumento da chance de mudança política em 2027.
“Talvez seja a situação mais séria desde a Constituição de 1988. Para a institucionalidade do Brasil é bem ruim, mas pode destravar movimentações positivas. Enquanto isso, o mercado vai precificando antecipadamente a saída do governo do PT, com queda dos juros futuros e alta no preço das ações“, afirma um gestor da Faria Lima que pediu para não ser identificado.
O mesmo profissional resume a lógica de quem está comprando: a volatilidade cria oportunidade e ninguém acerta o momento exato da virada. Na avaliação dele, as empresas brasileiras estão valendo muito pouco, e uma eventual troca de governo faria os preços dispararem.
“Um dano relevante à imagem do ministro eleva naturalmente o ex-presidente e todo o seu entorno, que sempre fez acusações a ele. É natural esperar que Flávio Bolsonaro ganhe momentum com a divulgação e que Lula perca, uma vez que sempre defendeu o Judiciário“, avalia Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa Investimentos.
Há outros vetores em operação. Os juros locais vêm cedendo com força, o mercado passou a atribuir probabilidade maior a novos cortes e o capital estrangeiro voltou a entrar na Bolsa nos últimos dias. As pesquisas apontando eleição mais apertada já vinham desde a semana passada, antes das mensagens virem a público.
“É difícil cravar um motivo único para a alta de hoje, talvez seja o conjunto. Não sei se as notícias do Supremo vão respingar tão diretamente na eleição, porque também roubam a atenção das investigações sobre o Lulinha, o que, a meu ver, teria um impacto potencial até maior”, pondera João Neves, analista de ações da EQI Research.
À tribuna, em discurso, senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) (Foto: Carlos Moura/ Agência Senado)
Citi divide a carteira por cenário eleitoral
O Citi avalia que a eleição deve orientar a rotação de portfólios na B3 ($B3SA3), mas ressalta que a credibilidade do ajuste fiscal e a governabilidade em um Congresso fragmentado é que vão determinar o desempenho dos ativos em 2027.
Para o banco, o ajuste é inevitável nos dois desfechos, mudando apenas a forma de condução.
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante cerimônia de lançamento da Fragata “Cunha Moreira” (Foto: Ricardo Stuckert / PR)
Em caso de reeleição de Lula, a preferência recai sobre papéis resilientes a qualquer cenário, com balanços desalavancados, poder de repasse de preços e exposição a programas federais como o Minha Casa Minha Vida.
Numa vitória de Flávio Bolsonaro, a estratégia muda de eixo. O banco passa a favorecer ações de maior duration, mais sensíveis à queda dos juros longos, além de modelos cíclicos e companhias seletivamente alavancadas.
JPMorgan vê desconto em saúde, indústria e telecomunicações
O JPMorgan diz que a Bolsa brasileira parece barata em várias métricas, mas alerta que os juros elevados e os lucros excepcionalmente fortes de commodities distorcem a leitura. Pela média de cinco anos, que o banco considera mais adequada, o mercado negocia a 8,3 vezes o lucro projetado, contra média histórica de 7,7 vezes.
Saúde, telecomunicações, indústria e consumo discricionário negociam com desconto ante as próprias médias de cinco anos.
Somando as perspectivas de lucro para 2027, o banco enxerga as oportunidades mais atrativas em financeiras, telecomunicações, saúde e indústria.
Entre as maiores ações do Ibovespa, os destaques de valuation são Embraer (EMBJ3), Axia Energia (AXIA3), Eneva (ENEV3), WEG (WEGE3) e Localiza (RENT3). O banco também vê desconto relevante em BTG Pactual (BPAC11), B3 ($B3SA3), Suzano (SUZB3), RD Saúde (RADL3) e Rede D’Or (RDOR3).