A inteligência artificial (IA) está avançando em uma área pouco conhecida pelo público, mas essencial para o funcionamento do mercado financeiro: a supervisão de mercado de capitais. Com o aumento do volume de operações e a maior complexidade das negociações, ferramentas de análise de dados e machine learning começam a ajudar especialistas a identificar comportamentos atípicos e tornar o monitoramento mais eficiente.
Um estudo da BSM, autorreguladora dos mercados organizados administrados pela B3 ($B3SA3), mostra como a tecnologia vem sendo incorporada a essa atividade. Atualmente, a instituição conta com 41 processos de alertas e rankings para identificar atipicidades, 60 algoritmos voltados à validação e automação de processos e 63 consultas padronizadas para geração de insights. Desse conjunto, 11 utilizam modelos de machine learning e inteligência artificial.
Um dos resultados mais expressivos foi obtido com um modelo supervisionado de machine learning aplicado ao monitoramento de transações. A ferramenta reduziu em 50% os chamados falsos positivos — alertas que apontam uma possível irregularidade, mas que depois não se confirmam.
Na prática, a redução desses alertas permite que os especialistas concentrem seus esforços nos casos que realmente precisam de investigação.
A tecnologia também trouxe ganho de velocidade. Uma sala de dados conversacional apoiada por IA reduziu de quatro horas para uma hora o tempo necessário para a análise humana de indicadores relacionados ao comportamento de investidores em operações de curto prazo.
“O crescimento dos mercados exige capacidade analítica cada vez maior. A inteligência artificial não substitui o julgamento técnico humano de nossos especialistas, mas amplia significativamente nossa capacidade de processar informações, identificar padrões e direcionar análises”, afirma André Demarco, diretor de autorregulação da BSM.
Mais dados, maior capacidade de análise
O avanço da IA no mercado de capitais acompanha o crescimento da quantidade de informações monitoradas. Segundo o estudo, o volume processado na principal base de ofertas do mercado listado aumentou 36% nos últimos dois anos.
A BSM também opera o MC²D (Monitoramento Conjunto Contínuo de Dados), que reúne 851 campos de informação distribuídos em 93 layouts padronizados. O volume de dados recebidos por essa estrutura cresceu mais de 370% nos últimos anos, abrangendo cerca de 15 mil arquivos processados.
Diante desse cenário, a supervisão começa a migrar de modelos predominantemente reativos para uma atuação mais contínua e preditiva.
A tecnologia, porém, não elimina a necessidade de especialistas. A proposta é combinar algoritmos, automação e análise de dados com conhecimento técnico e governança.
“Estamos migrando de modelos predominantemente reativos para uma supervisão preditiva cada vez mais contínua, baseada em dados, automação e inteligência analítica”, afirma Demarco.
Com isso, a IA no mercado de capitais passa a ocupar um papel estratégico não apenas nas operações e investimentos, mas também nos bastidores, ajudando a fortalecer a integridade e a eficiência do mercado.
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