A Cyrela (CYRE3) abriu 2026 com um desempenho financeiro sólido, ainda que em ritmo mais contido de lançamentos. A incorporadora registrou lucro líquido de R$ 297 milhões no primeiro trimestre, recuo de 9% frente aos R$ 328 milhões do mesmo período do ano anterior, mas com avanços relevantes em geração de caixa, margem bruta e controle do endividamento.
A receita líquida totalizou R$ 2,025 bilhões entre janeiro e março, crescimento de 4% sobre o primeiro trimestre de 2025, quando a companhia havia faturado R$ 1,953 bilhão. A margem bruta subiu 0,4 ponto percentual na mesma base de comparação, passando de 32,5% para 32,9%. Já a margem bruta ajustada — que exclui juros capitalizados no custo — avançou 1,8 p.p., chegando a 36,1%.
Geração de caixa quase dobra
O indicador que mais chamou atenção no período foi a geração de caixa, que saltou de R$ 71 milhões no 1T25 para R$ 134 milhões no primeiro trimestre de 2026, alta de 88%. O resultado contrasta ainda com o consumo de caixa de R$ 38 milhões registrado no quarto trimestre de 2025, quando a companhia distribuiu R$ 1,392 bilhão em dividendos. A melhora foi sustentada pelo desempenho positivo das vendas de estoque pronto e pela disciplina na gestão financeira.
A dívida líquida ajustada recuou de R$ 2,316 bilhões no encerramento de 2025 para R$ 2,181 bilhões em março de 2026. O índice de alavancagem medido pela relação entre dívida líquida ajustada e patrimônio líquido ajustado ficou em 19,6%, queda de 1,9 ponto percentual frente ao trimestre anterior e ainda bem abaixo dos 9,3% do 1T25, que refletia um nível historicamente baixo antes da aceleração de investimentos e da distribuição de proventos.
Lançamentos recuam
A companhia optou por seletividade nos lançamentos no período. Foram lançados 12 empreendimentos com VGV total de R$ 2,428 bilhões — queda de 50% em relação ao mesmo período do ano passado, quando foram lançados R$ 4,862 bilhões em projetos. Na visão proporcional à participação da Cyrela e excluindo permutas, o volume lançado atingiu R$ 1,747 bilhão, recuo de 48% na mesma comparação.
O desempenho comercial, no entanto, foi mais resiliente. As vendas contratadas somaram R$ 2,942 bilhões no conceito 100% e R$ 2,164 bilhões na visão proporcional sem permutas, crescimento de 2% sobre o 1T25.
A velocidade de vendas (VSO) dos lançamentos do trimestre atingiu 45% logo no período de estreia dos empreendimentos, percentual considerado positivo pela administração. Em 12 meses, o indicador ficou em 45,8%, abaixo dos 52,6% de um ano antes, mas ligeiramente acima dos 45,2% do 4T25.
A distribuição geográfica das vendas manteve São Paulo como principal mercado, respondendo por 67% do total na visão proporcional, seguida pelo Rio de Janeiro com 27%. Por segmento, o alto padrão representou 43% das vendas, enquanto o programa Minha Casa Minha Vida 2 e 3 respondeu por 41%, refletindo a estratégia diversificada da companhia.
Backlog robusto
O estoque de receitas a apropriar — indicador que sinaliza os resultados futuros da companhia à medida que as obras avançam — encerrou março em R$ 11,662 bilhões, alta de 24% em relação ao mesmo período de 2025 e de 4% frente ao fechamento do ano passado. A margem a apropriar ficou em 36%, em linha com o trimestre anterior, indicando que a rentabilidade dos projetos vendidos e em execução permanece estável.
O retorno sobre o patrimônio líquido ajustado, calculado com base nos últimos doze meses, ficou em 21,2%, leve alta de 0,3 p.p. sobre o primeiro trimestre de 2025 e abaixo do pico de 22,3% registrado no último trimestre do ano passado. O resultado por ação foi de R$ 0,68 no trimestre, comparado a R$ 0,89 no mesmo período de 2025, diferença explicada principalmente pela queda no lucro absoluto e pelo crescimento do patrimônio líquido da companhia.
Em carta aos acionistas, a administração reconheceu o cenário desafiador, com juros em patamar elevado no Brasil e incertezas geopolíticas que podem pressionar cadeias de suprimentos e custos de construção. A estratégia, segundo o documento, será manter postura criteriosa na escolha de novos projetos e conservadora na gestão de capital, sem abrir mão do desenvolvimento de empreendimentos diferenciados e da excelência na jornada do cliente.






