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BTG mantém compra de PicPay e vê potencial de alta de 96%

BTG mantém compra de PicPay e vê potencial de alta de 96%

Direção do PicPay diz ao BTG que a empresa deve superar o consenso de lucro de R$ 1 bilhão em 2026, com impulso do consignado privado

A diretoria do PicPay (PICS) acredita que o lucro líquido de 2026 vai superar a estimativa média do mercado, de cerca de R$ 1 bilhão. A sinalização veio em café da manhã com o BTG Pactual, que reiterou a recomendação de compra e o preço-alvo de US$ 19 para meados de 2027.

O alvo indica potencial de valorização de cerca de 96% sobre a cotação de US$ 9,71 na Nasdaq. O BTG projeta lucro de R$ 1,066 bilhão neste ano e de R$ 1,774 bilhão em 2027, o que deixaria a ação negociada a 3,6 vezes o lucro do próximo ano.

Participaram do encontro o presidente-executivo, Eduardo Chedid, o diretor financeiro, Andre Cazotto, o chefe de crédito, Denis Labre, e Pedro Lippi, de relações com investidores e estratégia. O consignado privado dominou a conversa.

“Acreditamos que o PicPay tem os elementos para dobrar o lucro líquido em 2026 e, o que impressiona mais, potencialmente quase dobrá-lo de novo em 2027”, escrevem os analistas Eduardo Rosman, Ricardo Buchpiguel e Antonio Pascale, do BTG Pactual.

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Consignado privado abriu um mercado novo

O consignado privado, ou crédito do trabalhador, é o empréstimo com desconto em folha para empregados com carteira assinada. A carteira do PicPay chegou a R$ 7,2 bilhões no segundo trimestre de 2026, e a empresa concede hoje cerca de R$ 700 milhões por mês nessa linha.

O ritmo equivale a 10% do saldo a cada mês. A gestão estima que o produto gera ROE (retorno sobre o patrimônio líquido) marginal acima de 80%.

Pelos números oficiais, o mercado saltou de R$ 40 bilhões em abril de 2025 para R$ 140 bilhões. A direção, no entanto, calcula que o ponto de partida real era de cerca de R$ 80 bilhões, porque bancos que processavam folhas de empresas já ofereciam crédito com desconto em salário.

Para o PicPay, que não fazia a folha dessas empresas, a nova regra liberou um mercado antes inacessível. O risco de canibalizar o crédito pessoal comum também é baixo, já que muitos desses tomadores não passavam na análise mais conservadora da empresa.

Inadimplência sobe, mas dentro do previsto

A abertura do produto a um público mais amplo trouxe um mix de clientes mais arriscado e, com ele, mais atrasos. O envelhecimento natural da carteira também empurra os indicadores de inadimplência para cima.

As primeiras safras tiveram muito calote logo na primeira parcela, em boa parte por falhas operacionais. Desde outubro de 2025, contudo, esse indicador está estável em torno de 8,5%.

Os gargalos, entretanto, persistem. Há empregadores que descontam a parcela do salário e não repassam o valor, além de limitações no processo automático de transferência do empréstimo quando o trabalhador troca de emprego.

Mais cautela antes de 2027

A direção diz avaliar cada produto pelo retorno ajustado ao risco, e não pelo nível bruto de inadimplência. As linhas são precificadas para absorver perdas de 40% a 60% e exigir ROE marginal mínimo de 30%, e a equipe de crédito se reúne toda semana para acompanhar as safras novas.

A empresa não vê piora generalizada, nem no microcrédito. Mesmo assim, já concede crédito com mais cuidado diante de um 2027 que pode ser mais difícil. A aposta é de pouso suave, e a gestão considera que até um desemprego de 7% daria margem de segurança.

No Desenrola, programa federal de renegociação de dívidas, a inadimplência segue alta, mas a exposição já está provisionada. O efeito positivo no resultado deve ser menor que os cerca de R$ 60 milhões do segundo trimestre, que equivaleram a 20% do lucro antes dos impostos.

Seguradora KEV reforça o lucro

A seguradora Kovr, comprada por cerca de R$ 750 milhões, passou a se chamar KEV e seguirá operando de forma independente, com seus próprios canais de venda. A direção espera ganho adicional de R$ 80 milhões a R$ 100 milhões no lucro até o fim do ano.

A KEV tem ROE acima de 50% e experiência na venda de seguros de valor baixo. Para os analistas, a aquisição traz uma fonte de lucro mais defensiva e menos dependente de capital que o crédito. A situação delicada do Banco Master, antigo dono, pode ter favorecido o preço pago.

As sinergias virão da internalização de uma parceria de seguros que já existia e da migração gradual de produtos do PicPay para a KEV. A contribuição da seguradora deve ganhar peso em 2027.

Inteligência artificial segura contratações

Cartões, consignado privado e seguros serão os motores de crescimento em 2027. As pequenas e médias empresas devem ganhar relevância a partir do segundo semestre do próximo ano: o PicPay abre mais de 85 mil contas desse público por mês, o triplo do ritmo de 2025, mas o negócio ainda dá prejuízo.

Hoje, 35% dos clientes ativos já tratam o PicPay como banco principal. O índice de eficiência chegou a 45%, e a gestão espera levá-lo para perto de 40% ou menos em 2027.

A inteligência artificial ajudou nessa conta. A empresa estima ter evitado a contratação de cerca de 4.500 pessoas em três anos, número maior que o quadro atual, de 4.400 funcionários. A produtividade dos desenvolvedores subiu cerca de 60%, e as entregas de tecnologia mais que dobraram.

Ação barata, mas sensível à eleição

O BTG sustenta a recomendação no preço. Se o lucro de fato quase dobrar em 2027, a ação estará negociada abaixo de quatro vezes o lucro projetado, o que abre espaço para reprecificação.

O temor de desaceleração da economia e de uma crise de crédito em 2027, porém, vem crescendo. O crescimento acelerado e o histórico curto de crédito do PicPay ajudam a explicar o desconto.

“Os investidores costumam hesitar em comprar ações de bancos enquanto a inadimplência sobe, mesmo quando o aumento é intencional”, afirmam os analistas Eduardo Rosman, Ricardo Buchpiguel e Antonio Pascale, do BTG Pactual.

A eleição de outubro também pesa, pelos efeitos possíveis sobre a economia e o crédito. Se a trajetória do segundo trimestre se repetir nos próximos resultados, o banco espera uma redução natural do risco percebido e, portanto, uma reavaliação da ação.

Entre os riscos, o BTG lista a governança sob controle da J&F, a incerteza regulatória sobre o consignado privado e o parcelamento de Pix no cartão, além da baixa liquidez após a abertura de capital no exterior. O preço-alvo sai de um modelo de desconto de dividendos, com custo de capital próprio de 16,5%.