O Bradesco (BBDC4) surpreendeu o mercado ao anunciar, após o fechamento do pregão desta quarta-feira (30), um aumento de capital de até R$ 10 bilhões por meio de subscrição privada de novas ações.
A operação foi proposta pelos acionistas controladores — Cidade de Deus, NCF, Nova Cidade de Deus e Fundação Bradesco —, que detêm 72% das ações com direito a voto e 37% do capital total, e que se comprometeram a subscrever até R$ 8 bilhões, garantindo o valor mínimo necessário para a homologação parcial da operação.
“O anúncio nos surpreendeu, assim como a todos. Acreditamos que as reações iniciais podem ser mistas, já que o fato de o banco estar captando capital sugere que ele provavelmente precisava disso — algo que estava longe do consenso“, afirmam Eduardo Rosman, Ricardo Buchpiguel e Antonio Pascale, analistas do BTG Pactual.
Estrutura da operação e direitos dos acionistas
O aumento de capital pode chegar a R$ 10 bilhões com a emissão de até 604,9 milhões de novas ações — sendo até 302,9 milhões ordinárias e 302 milhões preferenciais.
O preço de subscrição foi fixado em R$ 15,43 por ação ordinária e R$ 17,64 por ação preferencial, representando desconto de 6% em relação aos preços de fechamento de 28 de julho, com o objetivo de estimular a participação dos acionistas.
Os acionistas com posição registrada em 4 de agosto de 2026 terão direito de preferência para subscrever novas ações na proporção de aproximadamente 5,7% das ações da mesma classe que já possuem, entre 6 de agosto e 4 de setembro.
Os papéis passarão a ser negociados sem os direitos de subscrição a partir de 5 de agosto. Acionistas que exercerem integralmente seus direitos não serão diluídos, enquanto os que não participarem podem sofrer diluição máxima de aproximadamente 3,4%.
Para facilitar a participação, o Bradesco aprovou antecipadamente o pagamento de R$ 6,5 bilhões em juros sobre capital próprio, originalmente previstos para outubro de 2026 e janeiro de 2027, que poderão ser usados total ou parcialmente para custear a subscrição das novas ações.
Capital tangível no centro da estratégia
Assumindo subscrição integral, a operação deve adicionar cerca de 90 pontos-base ao índice CET1 do banco, que já estava em torno de 12,7% após os resultados do primeiro trimestre de 2026.
Na visão do BTG, contudo, o impacto mais relevante não é sobre a adequação de capital regulatório, mas sobre o capital tangível — um conceito que exclui despesas antecipadas, créditos tributários líquidos de passivos diferidos e intangíveis.
“O capital tangível, ou ‘caixa’, atualmente representa apenas 16% do patrimônio líquido contábil de R$ 173,5 bilhões — e esse número deve aumentar de forma significativa após a injeção de capital”, destacam Rosman, Buchpiguel e Pascale.
Para os analistas, esse tem sido o principal entrave estrutural do banco e a razão pela qual melhorar o ROE (Return on Equity) de forma sustentável tem sido tão desafiador.
Mais certeza de execução do que em 2015
O BTG ressalta que a estrutura desta operação oferece muito mais segurança do que o aumento de capital anunciado pelo Bradesco no final de 2015 — que acabou sendo cancelado no início de 2016 diante da volatilidade do mercado e da queda das ações.
“Desta vez, o compromisso firme dos controladores de subscrever até R$ 8 bilhões garante a operação, mesmo que os minoritários não participem integralmente dos R$ 2 bilhões restantes”, explicam os analistas.
Passo necessário, reação pode ser mista
Apesar do impacto inicial potencialmente negativo no pregão, o BTG avalia a decisão de forma construtiva no médio e longo prazo.
“Temos sido um dos críticos mais vocais do Bradesco nos últimos anos, e acreditamos que essa mudança de postura — com foco na geração de capital tangível e aceleração do consumo de créditos tributários — é inegociável, especialmente em um ambiente de juros mais altos por mais tempo no Brasil”, afirmam Rosman, Buchpiguel e Pascale.
Para os analistas do BTG, o que precisa ser feito precisa ser feito.
“Se a gestão continuar executando nessa direção, acreditamos que a história de turnaround se tornará cada vez mais crível, pavimentando o caminho para um futuro muito mais brilhante para o banco do Cidade de Deus”, concluem.






