O setor de varejo é o mais exposto à proposta de emenda constitucional que extingue a escala de trabalho 6×1 e reduz a jornada semanal de 44 para 40 horas. Na avaliação do BTG Pactual, o Assaí (ASAI3) está entre as empresas com menor capacidade de absorver o aumento de custos trabalhistas, enquanto a RD Saúde (RADL3) pode estar relativamente mais bem posicionada para navegar a transição.
O relatório foi elaborado pelos analistas Luiz Guanais, Yan Cesquim e Beatriz Cendon, que mapearam o impacto potencial da mudança regulatória sobre as principais empresas do setor.
Varejo no centro do impacto
A PEC foi apresentada na segunda-feira na comissão especial da Câmara, com votação esperada ainda nesta semana. O texto prevê uma transição em duas etapas: redução da jornada de 44 para 42 horas em dois meses após a promulgação e, depois, para 40 horas em até 14 meses.
“A proposta estabelece pelo menos dois dias de folga semanais remunerados, preferencialmente incluindo domingos, mantendo os salários inalterados”, explicam Guanais, Cesquim e Cendon.
Para o varejo, que depende de alto fluxo de clientes e amplo horário de funcionamento, a mudança exigirá ajustes significativos de equipes e turnos.
Compressão de margem pode chegar a 9,5% sem mitigação
O banco simulou o impacto assumindo um aumento de 10% nas horas trabalhadas necessárias para manter a cobertura das lojas. Sem nenhuma medida de compensação, a compressão do EBITDA chegaria a 9,5% em média, com pressão de 70 pontos-base na margem.
O segmento farmacêutico seria o mais afetado: “o varejo farmacêutico sofreria pressão de 14% no Ebitda e 90 pontos-base na margem”, apontam os analistas. Vestuário (9%), alimentar (9%) e eletrônicos (8%) também aparecem com exposição relevante.
Com ganhos de eficiência que mitiguem 30% do impacto bruto, a compressão média cairia para cerca de 6,5%.
“Assumindo uma mitigação de 30% do impacto bruto, a compressão do EBITDA cairia para aproximadamente 6,5%, com pressão de 50 pontos-base na margem”, calculam Guanais, Cesquim e Cendon.
(Imagem: Divulgação/ RD)
Assaí e RD Saúde em situações opostas
O Assaí, modelo de negócio capital-intensivo e com margens estreitas, aparece como um dos casos mais vulneráveis.
“Varejistas com modelos de negócio mais intensivos em capital, como o Assaí, podem ter mais dificuldade para compensar os custos mais altos e poderiam ser forçados a repassar preços ou absorver pressão de margem“, avaliam os analistas.
A RD Saúde, por outro lado, já opera integralmente no formato, o que representa um ponto de partida mais favorável. A expansão em telemedicina e serviços digitais de saúde também contribui para sua resiliência.
A empresa também expandiu para telemedicina e serviços digitais de saúde. Com isso, ela pode estar melhor posicionada para absorver aumentos de custos trabalhistas focando em avenidas de maior margem.
Tecnologia e negociação coletiva serão decisivas
O relatório aponta que automação, otimização de turnos e ganhos de produtividade serão os principais instrumentos para mitigar os custos. Empresas como Magazine Luiza (MGLU3), com forte presença no e-commerce, e Vivara (VIVA3), com potencial de digitalizar a gestão de estoque, têm mais alavancas disponíveis.
O texto da PEC também prevê que acordos coletivos incompatíveis com as novas regras perderão validade automaticamente 60 dias após a promulgação.
“Isso efetivamente força sindicatos e empresas de volta à mesa de negociação, potencialmente acelerando as discussões de reestruturação trabalhista em todo o setor”, concluem os analistas.
Para o BTG, o impacto de curto prazo é negativo de forma generalizada — mas a capacidade de adaptação de cada empresa será o fator determinante para quem sai mais forte do outro lado da mudança.