A Sabesp (SBSP3), estatal de saneamento de São Paulo, está entre as poucas empresas de capital aberto cujas ações já conseguiram voltar ao mesmo patamar do início do ano.
O próprio Ibovespa, que já retomou a marca dos 100 mil pontos, ainda acumula queda de 11,6% em 2020.
A Sabesp, embora tenha registrado queda nos últimos dias, viu seus papéis subirem 13% no último mês.
Ainda assim, quem acompanha a empresa, enxerga um bom potencial de valorização pela frente.
Isso porque a Sabesp está entre as mais beneficiadas com a aprovação do novo marco do saneamento básico. O texto foi aprovado em junho, no Congresso, e sancionado pelo presidente Jair Bolsonaro no dia 15 de julho, com 11 vetos.
Com a nova lei beneficia a Sabesp?
A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo detém a concessão dos serviços públicos de saneamento básico no Estado de São Paulo, tendo como principal acionista o governo do estado.
Atualmente, a empresa é responsável pelo fornecimento de água, coleta e tratamento de esgotos de 371 municípios paulistas.
Com o novo marco, a tendência é que a privatização da empresa se concretize sem maiores resistências, já que o desejo de passar a Sabesp para o controle privado já foi manifestado pelo secretário da Fazenda, Henrique Meirelles, e pelo próprio governador, João Doria.
“O governador João Doria tem o suporte de 75% dos prefeitos das principais cidades, que coincidentemente são do mesmo partido político ou aliados, para a renovação dos contratos de saneamento em linha de privatizar a companhia estadual”, salienta em relatório o UBS.
“A Sabesp é um case de privatização. Mantenho a recomendação de compra e uma visão construtiva para a Sabesp. Isto principalmente a partir da aprovação do novo marco do saneamento”, afirma o analista Victor Martins, da Planner.
Ele diz que sua última avaliação da empresa colocava como preço justo da ação R$ 57, valor que já foi ultrapassado. E que agora aguarda o balanço do segundo trimestre para fazer a nova precificação.
Logo que o marco passou pelo Congresso, a Ágora divulgou um relatório em que prevês as ações da Sabesp negociadas a R$ 104 se ela for privatizada. No entanto, os analistas ressaltam que isso não deve acontecer da noite para o dia.
Privatização só depois das eleições
As eleições municipais marcadas para novembro são uma barreira ao avanço do processo de privatização. Antes disso, o assunto não deve ser colocado em pauta.
“Acreditamos que a Sabesp é o melhor veículo para investidores otimistas com potenciais processos de privatização”, afirmou o analista Gabriel Francisco, da XP, em relatório.
“Entretanto, também acreditamos que eventuais tratativas para um processo de privatização não devam ocorrer antes das eleições de 2020, tendo em vista a sensibilidade política do tema a municípios, os poderes concedentes de fato no setor de saneamento” acrescentou.

Reprodução/Facebook Sabesp
Entenda o novo marco do saneamento
O novo marco do saneamento foi sancionado em julho e considerado um grande avanço para o setor. Em resumo, o entendimento é de que ele facilitará o cumprimento das metas de universalização dos serviços de saneamento básico.
Para atingir a meta de universalização, são necessárias mais de 17 milhões de novas ligações de água e mais de 33 milhões de ligações de esgoto.
Com novo marco, obstáculos para privatização foram removidos
“Os obstáculos para a privatização parecem ter sido removidos”, afirmou em relatório o Bradesco. Para o banco, a nova lei “é a melhor legislação possível que os brasileiros poderiam esperar”. E resolve uma questão de “décadas de serviços de saneamento insuficientes”.
Pelos cálculos do Ministério da Economia, a nova lei vai gerar entre R$ 600 bilhões e R$ 700 bilhões de investimentos no setor de saneamento do país.
Para Paulo Guedes, o saneamento básico repetirá o case do mercado de telefonia celular após a privatização das companhias telefônicas. “Ninguém tinha saneamento e agora vai ter”, declarou.
Mudança de contrato de programa para contrato de concessão
A aprovação do marco se deu depois de dois anos de discussões. Até aqui, a administração dos serviços de água e esgoto sempre foi de responsabilidade dos municípios.
Eles podiam criar suas próprias estatais para prestar o serviço. Ou contratar empresas privadas ou estaduais, via contrato de programa.
Segundo o novo marco, as empresas públicas não poderão mais ser contratadas diretamente para executar os serviços de saneamento. Terão que passar por concorrência junto às empresas privadas. E o modelo de contrato passa a ser o de concessão.
Veto presidencial atrasa avanços
O projeto aprovado no Senado contemplava a possibilidade de renovação de contratos por até 30 anos com os prestadores de serviços atuais. Isso desde que a renovação fosse assinada até 2022. O argumento era não prejudicar a prestação de serviço já em curso.
O presidente Jair Bolsonaro, porém, vetou este e outros 10 pontos. Os parlamentares têm até 16 de agosto para se manifestar. Ou seja, podem manter o texto como está ou derrubar os vetos do presidente.
Para a corretora Guide, o veto e a nova polêmica que se desenrolou frustram em parte as expectativas do mercado. Isso porque postergam impactos que poderiam ser imediatos.
Para os analistas da corretora, “uma nova leva de investimentos e parcerias que poderia ocorrer prontamente foi prorrogada para o futuro”. “Isso diminui a confiança do investidor e altera o quadro de privatização de estatais como a Sabesp”.