Corretora de investimento fez uma revisão de estimativas e preços alvos de diversas ações. As mudanças levam em conta as consequências da pandemia de coronavírus que afetou todos os setores de alguma forma. As paralisações de atividades e restrição de circulação de pessoas devem aparecer fortemente nos resultados do primeiro e segundo trimestres das companhias, principalmente do setor aéreo e varejo.
Os setores beneficiados até o momento são:
- varejo de alimentos e drogarias;
- empresas com caixa líquido e baixo endividamento;
- empresas de commodities expostas à receita em dólar e à China
Duas empresas tiveram alteração na recomendação, de “neutro” para “compra”: Magazine Luiza e Klabin.
No caso da varejista, o preço alvo foi mantido em R$ 58,00, contra R$ 39 do fechamento de sexta-feira (27). A mudança leva em conta toda a alteração do cenário para o varejo com o fechamento de lojas e a perspectiva de recuperação mais lenta.
O preço-alvo da Klabin passou para R$ 18,50 por ação, contra a projeção anterior de R$ 20,50 e de R$ 14,98 do fechamento de sexta-feira.
A mudança está baseada na “demanda mais saudável para papéis e embalagens”, somada a um dólar mais alto. A corretora espera um Ebitda para a Klabin 6% acima da estimativa anterior, em R$ 4,3 bilhões.
Alimentos e bebidas
A corretora considera que o segmento de cerveja foi o mais prejudicado neste cenário de pandemia, com o fechamento de bares e restaurantes, afetando, portanto, a Ambev. Some-se a isso os custos mais elevados da matéria-prima, dólar em alta e dificuldade para repassar aumentos.
Já as empresas de proteína, como BRF, JBS e Marfrig, devem ter efeitos mais leves do coronavírus, pois vendas continuam aquecidas nos supermercados; as margens são sólidas, o dólar alto favorece exportações; a demanda da China começa a se normalizar; e possuem baixo endividamento.
“Mantemos recomendação de compra nos três papeis, com preferência para JBS e Marfrig, que são ainda mais favorecidos devido à alta exposição ao mercado externo”, diz o relatório.

Bancos e setor financeiro
Os fatores considerados na análise do setor bancário foram a desaceleração do crédito; o aumento da inadimplência; a queda na receita de serviços; e o recente aumento na percepção de risco país na taxa para desconto de dividendos. A interpretação é que houve uma deterioração no valor dos bancos, porém o preço do papel caiu desproporcionalmente mais.

Setor financeiro não bancário
No caso da B3, a corretora aponta o aumento dos volumes no primeiro semestre de 2020 devido à forte volatilidade, com subsequente desaceleração no último semestre e em 2021; e o aumento da taxa de desconto, incorporando maior percepção de risco país. Porém, a avaliação é que os fundamentos da empresa no longo prazo se alteraram menos do que a queda nos preços.
Já a Cielo pode perder volumes de maneira acentuada no curto prazo devido ao confinamento e à desaceleração econômica. Além disso, a empresa tem sacrificado rentabilidade em troca de participação de mercado.
Com relação a seguradoras, foram incorporados os seguintes aspectos: menores prêmios devido à desaceleração econômica, impactando principalmente Porto Seguro; maior sinistralidades no curto prazo para SulAmerica; e maior taxa de desconto devido à alta na percepção de risco país.

Consumo e varejo
O Covid-19, que impacta esse segmento de forma diversa (favorece apenas o varejo de alimentos e drogarias), deve levar a uma ruptura das vendas no curto prazo das companhias, e a previsão de uma recuperação mais gradual.
A corretora alterou a previsão do lucro combinado das varejistas que acompanha em cerca de -20% para o ano de 2020 e os preços-alvo para o final de 2020 foram revisados negativamente em -16%.
“Com a mudança do cenário, estamos atualizando as nossas preferências para o setor. Nossos top-picks hoje são: Grupo Pão de Açúcar (Compra), Vivara (Compra) e Magazine Luiza (Compra)”, diz o relatório.

Construção civil
A análise do setor levou em conta a queda considerável de lançamentos e vendas nos segundo e terceiro trimestres deste ano, em razão das quarentenas.
Mas, após a retomada, espera-se um atraso nas aprovações de projetos pelos municípios. Esses impactos implicam em uma redução de 34% a 38% na comparação anual dos lançamentos para 2020.
Também é esperado um aumento no cancelamento de vendas. A normalização deve acontecer em 2021. Todo esse cenário, no entanto, não muda a visão positiva para o setor no longo prazo.

Distribuição de combustíveis
O setor tende a ser fortemente impactado pelo coronavírus, mesmo que os postos de gasolina permaneçam aberto. A estimativa é que a demanda caia entre 10% e 15%. Para a querosene de aviação, a retração pode ficar igualmente em dois dígitos e para o diesel, -5%. Por fim, a queda de 50% de preços de petróleo no mês repassada para derivados pode acarretar perdas por reavaliação de estoques no setor.
A corretora avalia que as empresas listadas desse o setor não deve ver uma deterioração expressiva do cenário competitivo.
O relatório considera que as elevadas margens para importação de derivados ao longo do último mês favoreceram distribuidoras regionais, mas a oportunidade de arbitragem já se encerrou com as quedas recentes de preços nas refinarias. A corretora espera quedas de margens por metro cúbico de forma pontual e no curto e médio prazo.

Elétricas
Empresas do segmento de distribuição devem ser afetadas pela redução do consumo industrial e comercial, eventual aumento da inadimplência e desvios de energia. Com isso, a previsão para o Ebitda (lucro antes dos juros, impostos, depreciação e amortização) e lucro dessas empresas foi reduzia em 15%.
No segmento de geração, os fatores que pesam são possíveis renegociação de contratos em vista de paralisações de atividades mas, pelo lado positivo, um menor risco hidrológico, pela demanda menor e maior volume de chuvas.
Em transmissão, os impactos esperados são apenas atrasos na entrega de equipamentos e realização de obras.
Nesse contexto, se argumenta que está favorecendo os segmentos de geração e transmissão de energia de forma a reduzir a exposição a risco.
Saneamento
Este setor não deve sofrer impactos em suas atividades, uma vez que é prioridade para todos os governos em meio à pandemia do Covid-19.
Estão no cenário apenas eventuais aumentos de inadimplência, em razão da não interrupção no fornecimento e não cobrança de consumidores da tarifa social. Porém os riscos podem ser regulatórios, vindos dos acionistas controladores (governos). É
preciso acrescentar ainda eventuais adiamentos de reajustes nos próximos meses.
Além disso, possíveis discussões sobre o Novo Marco Regulatório devem ser postergadas, mas a a provação é considerada factível. Por isso, considera-se que a probabilidade de privatização de Sabesp e da Copasa é de 50%.

Transportes
De longe o segmento de transportes mais afetado pelo coronavírus é o aéreo, em decorrência da alta do dólar, da redução drástica da demanda e incertezas sobre a dinâmica do setor após a crise terminar.
As locadoras de veículos e as empresas de concessão sofrerão a redução da demanda em razão das restrições de circulação, porém em grau bem menor.
Neste setor, destaca-se a Localiza, em razão do balanço forte e do maior spread entre retorno e custo de capital. Entre as concessionárias, a Ecorodovias, em razão de seu valuation. Nas aéreas, a preferência é pela Azul, porém pensando apenas em 2021. Sempre com a ressalva de que o cenário é muito incerto para previsões mais consistentes.



Shoppings
Apesar das medidas de quarentena terem afetado diretamente esse negócio, trata-se de um setor mais resiliente e ativos de qualidade superior (boa localização e bom mix) tendem a apresentar performance melhor. A XP considera como nomes preferidos Iguatemi e CCP.
O primeiro por juntar valuation atrativo e portfolio de qualidade e o segundo por possuir portfolio de escritórios de primeira linha, que devem sofrer menos na crise.

Papel e celulose
É possível enxergar uma mudança nesse setor baseada na “demanda mais saudável para papéis e embalagens”, somada a um dólar mais alto, de R$ 4,70 ao final de 2020, além do ajuste do risco país (CDS) para 300bps, de 200bps anteriormente. Também foi reduzida a premissa de preço médio da celulose de US$ 520/t para US$ 500/t em 2020.
Siderurgia e mineração
A expectativa de vendas mais fracas de aço em 2020 favorece a Vale (favorita) e a CSN, em detrimento de Gerdau e Usiminas, que estão expostas ao minério de ferro.
Manteve-se a estimativa de preço médio do minério de ferro em US$ 75/t, contra US$ 85/t atualmente. Com relação ao preço realizado de aço no mercado doméstico, um dólar mais alto compensa parcialmente a pressão no mercado internacional.
Espera-se ainda um aumento médio de preços de 5% para o aço em 2020. Assim, Gerdau seria mais favorecida do que CSN e Usiminas, porque o risco é relativamente mais baixo para construção civil (aços longos) do que para o setor automotivo (aços planos).








