A guerra comercial silenciosa entre a China e a BHP pode estar prestes a ganhar um novo capítulo — e a Vale (VALE3) figura como uma das principais beneficiárias do cenário.
É essa a avaliação dos analistas Rafael Barcellos e Renato Chanes, que reafirmam a recomendação de outperform (compra) para as ações da mineradora brasileira diante das crescentes tensões entre a estatal chinesa China Mineral Resources Group (CMRG) e a gigante australiana.
Segundo a Reuters, a CMRG deve ampliar as restrições às compras de cargas marítimas da BHP. Após proibir os finos de Jimblebar e Jinbao no final de 2025, a entidade sinalizou restrições informais aos principais produtos da BHP, incluindo finos MAC, finos Newman e grumos Newman.
“As siderúrgicas chinesas correram para transferir o minério de ferro da BHP dos estoques portuários para as usinas, acelerando a retirada dos tipos afetados antes de qualquer implementação formal”, apontam os analistas.
A escalada das tensões seguiu uma cronologia clara. Em setembro do ano passado, após não conseguir chegar a um acordo comercial, a CMRG impôs a primeira proibição. Em novembro, as restrições foram ampliadas. Em dezembro, a pressão aumentou com a redução dos períodos de armazenamento gratuito nos portos de 60 para 30 dias.
Choque de oferta
O impacto potencial é relevante. “Os três produtos combinados representam 108 milhões de toneladas de produção, ou 7% da oferta marítima global — e aproximadamente 15% a 20% da disponibilidade marítima de minério de qualidade média”, calculam Barcellos e Chanes.
“Quando combinadas com as restrições anunciadas no final de 2025, as restrições totais do lado da oferta poderiam atingir cerca de 180 milhões de toneladas, ou 11% do mercado marítimo global”, projetam os analistas.
O aumento das taxas de frete provocado pelos conflitos no Oriente Médio adiciona mais pressão sobre os preços do minério, favorecendo ainda mais o portfólio da Vale. A demanda sazonal chinesa no pós-Ano Novo também contribui para apertar o mercado no curto prazo.
Vale bem-posicionada
Para a Vale, o cenário é de oportunidade em múltiplas frentes. “Os prêmios de qualidade média devem se fortalecer, enquanto os prêmios de minério granulado podem disparar, dada a participação de 12% a 13% do minério granulado da Newman no fornecimento marítimo”, explicam os analistas. Pelotas e produtos de alta qualidade também devem se beneficiar.
“A remoção de material com alto teor de alumina deve comprimir os descontos de alumina, apoiando ainda mais o portfólio da Vale”, destacam Barcellos e Chanes.
A tese se traduz em números atrativos: “aos preços atuais de US$ 112 por tonelada, a Vale deve gerar algo como 13% do seu valor de mercado em caixa ao longo de 2026, substancialmente mais do que seus pares australianos”, concluem os analistas.






