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Mercado ignora uma catástrofe causada pelo petróleo, diz The Economist

Mercado ignora uma catástrofe causada pelo petróleo, diz The Economist

Levaria meses para que a produção de petróleo bruto, o transporte marítimo e o refino no Golfo Pérsico voltassem à plena capacidade

O mundo está à beira de uma catástrofe energética — e os mercados futuros do petróleo parecem não ter percebido.

É esse o alerta central de uma análise publicada pela revista The Economist, que compilou um painel de indicadores para avaliar a gravidade do bloqueio no Estreito de Ormuz, cinquenta dias após o início do conflito entre Estados Unidos e Irã.

“Os mercados futuros estão em negação quanto a tudo isso”, alerta a publicação — apontando que o preço do Brent, apesar de ter voltado a superar os US$ 100 por barril, ainda está cerca de US$ 15 abaixo da máxima registrada no final de março.

Estoques se esgotam em ritmo acelerado

Os números revelam uma situação mais grave do que os preços sugerem.

Desde o início do conflito, o mundo perdeu 550 milhões de barris de petróleo bruto do Golfo — quase 2% da produção global anual. A cada mês com o Estreito fechado, o planeta deixa de receber 7 milhões de toneladas de gás natural liquefeito (GNL), equivalente a 2% da oferta anual global.

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Os estoques que amorteceram o choque inicial estão se esgotando rapidamente. Em 20 de abril, chegaram aos seus destinos os últimos petroleiros que cruzaram o Estreito antes do início da guerra.

“Não há mais reservas para proteger o mundo do choque de abastecimento, numa época do ano em que a demanda por viagens de férias começa a aumentar”, adverte a revista.

Os estoques de petróleo bruto na Ásia, excluindo a China, caíram 67 milhões de barris — queda de 11% — apenas no mês encerrado em 19 de abril, segundo a empresa Kayrros, que estima estoques por imagens de satélite. O Japão deve esgotar suas reservas estratégicas em maio. A Coreia do Sul já iniciou a liberação das suas.

Refinarias cortam produção, Europa subsidia

A escassez de matéria-prima forçou as refinarias asiáticas a reduzirem a produção em mais de 3 milhões de barris por dia — 10% da capacidade combinada. A The Economist cita projeções da Sparta Commodities indicando que esse corte pode chegar a 10 milhões de barris por dia em julho caso o estreito permaneça fechado.

Os preços dos combustíveis refinados já dispararam. “A gasolina se aproxima de US$ 120 o barril nos mercados à vista asiáticos, o diesel de US$ 175 e o querosene de aviação de US$ 200”, registra a revista — contra US$ 80, US$ 93 e US$ 94, respectivamente, antes da guerra.

Na Europa, 16 dos 27 países da União Europeia estão usando recursos públicos ou cortando impostos sobre combustíveis para proteger os consumidores. Entretanto, a estratégia tem um custo: ao sustentar artificialmente a demanda, o bloco aprofunda o desequilíbrio global dos mercados.

“Se a Europa continuar a subsidiar o consumo, os mercados ficarão ainda mais desequilibrados”, alerta a publicação.

O tempo está se esgotando

A The Economist conclui que algum sofrimento adicional já é inevitável — mesmo que o Estreito de Ormuz reabrisse hoje.

“Levaria meses para que a produção de petróleo bruto, o transporte marítimo e o refino no Golfo Pérsico voltassem à plena capacidade”, escreve a revista, citando Saad Rahim, da Trafigura, para quem uma perda acumulada de 1,5 bilhão de barris é praticamente certa — podendo dobrar caso o bloqueio se prolongue.

O paralelo com a pandemia é direto: a última vez que a demanda por petróleo caiu 10% em tão pouco tempo foi durante os lockdowns de 2020 — choque que provocou queda superior a 3% no PIB mundial.