A Shein se prepara para um dos passos mais importantes de sua história. A gigante do fast fashion pretende levantar até HK$ 13,86 bilhões, cerca de US$ 1,77 bilhão, em sua oferta pública inicial de ações (IPO) em Hong Kong. A operação pode avaliar a companhia em aproximadamente US$ 27 bilhões, uma fração dos US$ 98,2 bilhões alcançados pela empresa em 2022.
Segundo os documentos divulgados sobre a operação, a varejista pretende vender cerca de 280 milhões de ações classe B, com preços entre HK$ 47,60 e HK$ 49,50 por papel. O preço final deve ser anunciado em 31 de agosto, enquanto a estreia das ações está prevista para 1º de setembro.
Shein perdeu mais de 70% do valor desde 2022
O valuation estimado para o IPO evidencia uma mudança significativa na percepção do mercado sobre a companhia. Em 2022, após uma rodada privada de investimentos, a Shein chegou a ser avaliada em US$ 98,2 bilhões. Em 2023 e ainda em abril de 2024, o valor estimado estava em aproximadamente US$ 64 bilhões.
Caso a avaliação de US$ 27 bilhões seja confirmada, a empresa chegará à bolsa valendo cerca de 72% menos do que no auge registrado quatro anos antes.
A redução acompanha uma desaceleração do crescimento da varejista. A receita avançou 8% em 2025, abaixo dos 20,7% registrados no ano anterior. No início de 2026, a companhia também registrou prejuízo de US$ 99 milhões, pressionada por mudanças tributárias e por uma despesa contábil extraordinária.
Tarifas colocam modelo de negócios sob pressão
Parte dos desafios está relacionada às mudanças nas regras do comércio internacional. O fim de uma isenção tributária para remessas de baixo valor nos Estados Unidos afetou diretamente o modelo de negócios da Shein, baseado na venda de grandes volumes de roupas e acessórios baratos enviados diretamente aos consumidores.
Com o aumento dos custos alfandegários, a empresa afirmou que precisou reajustar preços. A pressão regulatória também cresceu em outros mercados importantes, aumentando os desafios para uma companhia que construiu sua expansão internacional justamente com preços baixos, produção acelerada e forte presença digital.
Ao mesmo tempo, a Shein continua enfrentando questionamentos sobre condições de trabalho na cadeia de fornecedores, impacto ambiental e práticas comerciais. A concorrência de plataformas como a Temu também ampliou a disputa pelo consumidor interessado em produtos de baixo preço.
Hong Kong vira alternativa após Nova York e Londres
A chegada a Hong Kong encerra, ao menos por enquanto, uma longa busca da Shein por uma bolsa capaz de receber sua abertura de capital. A empresa tentou anteriormente realizar o IPO em Nova York e, depois, em Londres, mas os projetos enfrentaram obstáculos regulatórios.
Hong Kong surgiu como alternativa por combinar acesso ao mercado financeiro internacional com maior proximidade das autoridades chinesas. A companhia recebeu no início de julho a aprovação da Comissão Reguladora de Valores Mobiliários da China para avançar com a listagem.
A escolha ocorre em um momento de retomada do mercado de IPOs de Hong Kong, embora boa parte da atenção dos investidores esteja concentrada em companhias de inteligência artificial e semicondutores.
IPO será teste para o apetite dos investidores
Fundada em Nanquim, na China, em 2012, e atualmente sediada em Singapura, a Shein ganhou projeção global principalmente durante a pandemia, quando o comércio eletrônico avançou rapidamente. A empresa passou a vender para dezenas de mercados e se consolidou como uma das maiores varejistas de moda do mundo.
A estreia na bolsa, porém, acontece em circunstâncias bastante diferentes das enfrentadas durante seu período de maior expansão.
Mais do que levantar US$ 1,77 bilhão, o IPO será um teste para descobrir quanto os investidores estão dispostos a pagar por uma companhia que transformou o fast fashion, mas que agora precisa provar que consegue manter seu crescimento em meio a tarifas mais altas, maior concorrência e pressão regulatória.
Se o cronograma for mantido, 1º de setembro marcará o início de uma nova fase para a Shein. A empresa finalmente poderá alcançar o mercado de capitais depois de anos de tentativas, mas chegará à bolsa carregando uma pergunta importante: o valuation de US$ 27 bilhões representa um novo ponto de partida ou confirma que os anos de crescimento explosivo ficaram para trás?
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