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Volatilidade global com geopolítica leva investidores a diversificar mais no exterior

Volatilidade global com geopolítica leva investidores a diversificar mais no exterior

Conflito no Oriente Médio, pressão sobre petróleo e ruído em tecnologia sobem a aversão a risco, mas analistas defendem alocação internacional estrutural e menos timing

A escalada das tensões no Oriente Médio recolocou a geopolítica como um ponto de atenção para os investidores brasileiros que investem no exterior. 

O cenário atual mais caótico, trouxe volatilidade sobre os ativos internacionais que, até pouco tempo atrás, vinham sendo sustentados por uma combinação de economia americana resiliente, inflação em desaceleração gradual e expectativa forte em torno da inteligência artificial.

O ambiente de incerteza chacoalhou petróleo, tecnologia e renda fixa americana. Apesar disso, as principais corretoras internacionais que atuam no Brasil ainda indicam que os investidores nacionais continuem a fazer aportes no exterior. 

A orientação delas é reforçar a diversificação de ativos internacionais e evitar decisões guiadas apenas pelo noticiário.

Para Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad, o ponto mais delicado do momento é que a guerra pode deixar de ser apenas um choque geopolítico e passar a contaminar variáveis macroeconômicas maiores, como inflação e atividade global.

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A analista destaca que isso muda a natureza do risco e ajuda a explicar por que as reações de mercado ficaram mais rápidas e menos lineares nas últimas semanas.

“A grande questão é que a guerra tem o potencial de deixar de ser apenas um choque geopolítico e passar a ser um choque de natureza macroeconômica, afetando inflação e atividade em nível global. Então, eu diria que a geopolítica deixa de ser apenas um ruído e passa a ser um fator capaz de alterar a trajetória do ciclo econômico”, afirma Zogbi.

Até então, segundo a estrategista, o mercado vinha superando as narrativas mais pessimistas sobre a economia americana e global. A recessão nos Estados Unidos não se confirmou, o crescimento continuou sólido e a inflação seguia em trajetória de desaceleração gradual, ainda que acima da meta. Ao mesmo tempo, o ciclo de investimentos em inteligência artificial ajudava a sustentar o otimismo com os lucros das empresas.

Exposição estrutural

Para Paula, a volatilidade recente não deve ser lida como um motivo para adiar a internacionalização da carteira. A avaliação da estrategista é que a exposição ao exterior precisa ser tratada como uma decisão estrutural, e não como uma alocação dependente do cenário geopolítico ou macroeconômico de curto prazo.

“Internacionalizar a carteira deve ser uma decisão independente do cenário macroeconômico ou geopolítico externo. Assim como o investidor mantém uma parcela em ativos locais, como títulos públicos, crédito privado, fundos multimercados e bolsa, é necessário ter uma parte dessa alocação em ativos internacionais, independentemente de como está o cenário no momento”, diz Zogbi. 

Deixando de lado a alocação mais tática, a parcela internacional em um portfólio deve ser estrutural para o investidor brasileiro”, complementa. 

A analista acrescenta que o investidor brasileiro deve olhar menos para o dólar isoladamente e mais para a exposição a ativos dolarizados. Segundo ela, o componente cambial é apenas uma parte do investimento e, para quem aplica a partir de um país emergente, tende a funcionar como elemento adicional de diversificação ao longo do tempo.

Na mesma linha, Bruno Yamashita, coordenador de alocação e inteligência da Avenue, afirma que momentos de estresse global exigem menos reação impulsiva e mais atenção ao desenho da carteira. 

Segundo ele, o investidor não deve usar a turbulência atual para desmontar posições, mas para avaliar se o portfólio continua adequado ao seu perfil de risco.

“Quando a gente olha o que a gente chama do playbook de aversão a risco, o mercado nesses momentos vai acabar correndo para dívida de curto prazo do governo americano. Mas não é porque a gente está passando por um momento agora que o investidor deveria ter uma posição agora e daqui a um tempo eventualmente vender, mas sim pensar no que é a alocação estrutural dele e no que condiz mais com o perfil de risco dele”, afirma Yamashita.

Paula também vê o market timing como o principal erro do investidor pessoa física em episódios como o atual. Na avaliação da estrategista, eventos geopolíticos e fases de aversão a risco fazem parte do processo de investir, o que torna contraproducente remodelar toda a carteira a cada nova manchete.

“Acredito que fazer market timing é a pior opção. Se a carteira foi bem desenhada, seguindo a tolerância de risco do investidor, episódios como esses não são justificativas para sair do curso traçado. Diversificar é uma estratégia vencedora no longo prazo, e o asset allocation é o que explica a maior parte dos retornos ao longo do tempo”, destaca Paula.

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Tecnologia sob pressão

No mercado americano, a piora recente no humor também atingiu as ações de tecnologia, em meio ao aumento da aversão global a risco e a dúvidas pontuais sobre a tese de inteligência artificial. 

Para Yamashita, no entanto, esse movimento ainda se parece mais com uma correção de curto prazo do que com uma mudança estrutural na perspectiva de crescimento do setor.

“Quando a gente analisa o que é a expectativa de crescimento, ainda olhando para 2026, o mercado ainda espera crescimento para o S&P como um todo e também para o setor de tecnologia. Então a gente vê que é uma correção muito mais de curto prazo por essa aversão a risco muito grande. Se a partir de agora a gente começa a ter revisões de lucro, aí sim o mercado começa a tentar entender o que poderia ser eventualmente um novo cenário de crescimento”, diz o coordenador da Avenue.

Segundo o executivo, o peso de tecnologia nas bolsas americanas ajuda a explicar tanto a sensibilidade do índice às revisões de expectativa quanto a capacidade de recuperação em horizontes mais longos. Ele pondera, porém, que uma extensão mais forte do choque no petróleo ou uma deterioração mais relevante da demanda agregada podem afetar o crescimento das empresas e o desempenho do mercado. 

Ainda assim, Yamashita reforça que esse é o tipo de choque que tende a ser mais concentrado no curto prazo.

O coordenador afirma que a diversificação continua sendo a principal referência para atravessar períodos mais turbulentos. Segundo ele, um portfólio equilibrado não elimina perdas em momentos de estresse, mas ajuda o investidor a atravessar a volatilidade de maneira mais compatível com seu perfil de risco.

“A diversificação nada mais é do que um statement de que a gente não sabe o dia de amanhã. Poder estar diversificado é a melhor forma de conseguir capturar o valor a longo prazo de certas estratégias, mas também de se proteger de movimentos e de momentos mais incertos. Agora, já estando dentro e passando por esse momento turbulento, não é o momento de vender o nosso portfólio, é o momento de buscar se proteger da melhor forma”, afirma Yamashita.

Para Paula, os próximos desdobramentos do petróleo, do VIX e dos juros de 10 anos dos Estados Unidos devem ser monitorados de perto nas próximas semanas. 

A estrategista avalia que esses indicadores podem ajudar a distinguir se a turbulência atual tende a perder força adiante ou se o mercado está migrando para um período mais prolongado de incerteza.