Em agosto de 2025, comecei a alertar para um movimento de supervalorização do Ibovespa, apoiado em uma tese sustentada por 7 argumentos principais.
À época, os pilares eram os seguintes:
– Bases acionárias comprimidas
– Relação M2/M1 acima de 10x
– P/L projetado de 2026 inferior a 7,5x
– Turquenização
– Baixa dependência externa
– Brasil subalocado nos índices MSCI EM
– Volatilidade do Ibovespa inferior à do S&P 500
Desde então, o Ibovespa acumulou uma valorização superior a 35%. Naturalmente, surge a pergunta: esses argumentos ainda se sustentam?
A resposta é sim – todos eles permanecem válidos.
Mas antes de entrar na atualização de cada ponto, julgo essencial reiterar aquilo que tenho chamado de Hipótese Mãe da minha análise sobre o assunto.
A Hipótese Mãe
A hipótese central assume que a autoridade monetária e fiscal dos Estados Unidos – o Federal Reserve e o Tesouro norte-americano – farão o que for necessário para evitar um colapso prolongado do mercado acionário.
Colapso esses nos moldes do observado na Grande Crise Financeira de 2008, na pandemia ou durante a normalização da curva de juros em 2022.
Em termos práticos, essa hipótese considera pouco provável a ocorrência de quedas no S&P 500 superiores a 20% e que se sustentem por mais de um mês.
O racional por trás dessa premissa é simples: a correlação entre confiança do consumidor e mercado acionário nos EUA tornou-se alta demais. Um crash prolongado levaria a economia americana a uma recessão profunda, com impactos diretos sobre a arrecadação tributária e uma deterioração ainda maior do já elevado nível de endividamento do país.
Isso não significa ignorar o fato de que o S&P 500 se encontra hoje em patamares extremamente elevados de valuation. O índice negocia próximo a 26,5x lucro, com P/L projetado de aproximadamente 22,5x, bem acima das médias históricas de 5 anos (20x) e de 15 anos (18x).
É justamente essa assimetria – valuations esticados nos mercados centrais e ativos descontados na periferia – que dá sustentação à tese brasileira.
Tendências Globais que Sustentam a Tese
Além da Hipótese Mãe, há um conjunto de tendências globais estruturais que reforçam a migração de capital de ativos associados a crescimento (growth) para ativos associados a valor (value):
– Movimento coordenado de estímulos fiscais e monetários nas principais economias.
– Reorientação da Europa para o estímulo de suas economias domésticas diante da ascensão chinesa.
– Dólar estruturalmente caro versus iuane profundamente descontado.
– Iene japonês e won sul-coreano desvalorizados por razões competitivas.
– Início de um processo de repatriação de capitais dos EUA para seus países de origem.
– Enfraquecimento político global, com exceção da China – o fenômeno do “pato manco global”.
É nesse pano de fundo que os 7 argumentos ganham ainda mais relevância, como você está prestes a ver nas próximas linhas.
Os 7 Argumentos (Atualização)
1. Bases Acionárias Comprimidas
Entre 2021 e 2024, a indústria de gestão de recursos no Brasil enfrentou um choque profundo: mudança de ciclo político, forte elevação da taxa de juros, transição estrutural da economia chinesa e forte absorção de liquidez global pelos EUA com o advento da revolução em IA.
O resultado foi claro: a renda variável brasileira não acompanhou o crescimento do PIB nominal nem a expansão do agregado monetário (M2).
As bases acionárias tornaram-se progressivamente mais concentradas, com saída de investidores mais voláteis e permanência de acionistas de longo prazo. Empresas, inclusive, passaram a recomprar ações mesmo diante de um custo de capital elevado.
Update:
Apesar da valorização recente do Ibovespa, não há evidência de uma retomada relevante dos fluxos para fundos de ações. A alta foi puxada majoritariamente por capital estrangeiro e pagamento de dividendos. As bases seguem comprimidas – e o índice, leve.
2. Relação M2/M1 acima de 10x — Energia Potencial
Em janeiro de 2020, o M2 brasileiro girava em torno de R$ 3 trilhões. Diferentemente dos EUA, o Brasil não passou pela eutanásia do rentismo. O dinheiro segue confortavelmente alocado em Renda Fixa, com retornos elevados frente ao risco do país.
A relação M2/M1, historicamente próxima de 6,5x, ultrapassou 10x. É a mais alta entre os países do G20.
Update:
A relação hoje supera 11x. O Banco Central vem esterilizando qualquer expansão monetária: o M1 permanece estagnado ao redor de R$ 650 bilhões há anos, apesar do crescimento do PIB. Trata-se de energia potencial represada.
3. P/L Projetado abaixo de 10x
Minhas estimativas apontam para um lucro agregado do Ibovespa próximo a R$ 550 bilhões em 2026.
Update:
Com o valor de mercado do Ibovespa se aproximando de R$ 5 trilhões, o P/L projetado sobe para algo ligeiramente acima de 9x. Ainda assim, trata-se de um patamar baixo em termos históricos, especialmente quando comparado aos múltiplos globais.
Mais importante: neste momento do ciclo, fatores macro e geopolíticos se sobrepõem à métrica isolada de valuation.
4. Turquenização
A experiência turca mostrou que, em ambientes de intervenção monetária e deterioração da Renda Fixa, investidores migram para ativos reais, inclusive ações, mesmo em meio a uma inflação elevada.
Fenômeno semelhante ocorre nos EUA: apesar da atratividade aparente da Renda Fixa longa, o capital segue fluindo para ações, sobretudo de tecnologia.
No Brasil, esse processo ainda está em estágio inicial.
Update:
Os primeiros sinais começam a surgir, com preferência clara por ações líquidas do Ibovespa em detrimento das small caps – comportamento típico de um ambiente “going turk”.
5. Baixa Dependência Externa
A participação de estrangeiros na dívida pública brasileira caiu de mais de 25% em 2016 para menos de 10%. A parcela da dívida atrelada à moeda estrangeira é inferior a 5%.
Update:
Mesmo com déficit em conta corrente acima de 3% em 2025, o fluxo de capital estrangeiro permanece saudável, tanto financeiro quanto comercial, com destaque para o aumento das exportações de petróleo.
6. Subalocação no MSCI-EM
O Brasil representa apenas 4,2% do MSCI Emerging Markets, penalizado pela redução do free float – ironicamente, um reflexo positivo de maior concentração acionária.
O resultado é uma distorção evidente: ativos indianos com menor relevância econômica recebem maior peso do que empresas brasileiras líderes.
Update:
A assimetria começou a ser explorada. A recente recomendação pública de compra de EWZ, o fundo de índice negociado no exterior que busca replicar o desempenho do mercado de ações brasileiro, e a venda de ativos indianos por estrategistas globais reforça essa tese, com um timing quase perfeito.
7. Volatilidade do Ibovespa inferior ao VIX
Pela primeira vez na história recente, a volatilidade implícita do Ibovespa passou a ser estruturalmente inferior à do S&P 500. O mercado sinaliza maior risco nos EUA do que no Brasil.
Update:
Mesmo com oscilações pontuais, o argumento permanece válido. O Ibovespa, com cerca de 80 empresas, tornou-se estruturalmente menos arriscado do que um S&P 500 cada vez mais concentrado em tecnologia.
Nunca antes o Top 15 do Ibovespa foi tão resiliente e testado em cenários de estresse.
Conclusão: A Era da Coexistência
Entramos na Era da Coexistência: China e EUA dividem o protagonismo global. Isso implica, estruturalmente, um dólar mais fraco e um iuane mais forte.
Os EUA precisam se reindustrializar. E isso exige uma moeda mais competitiva.
A China precisa restaurar a confiança do consumidor – e isso demanda valorização cambial e um mercado acionário mais vibrante.
Nesse contexto, o Brasil ocupa uma posição singular.
Para a China, somos fornecedores estratégicos de energia, alimentos e matérias-primas. Para os EUA, somos peça-chave na América do Sul, em linha com as diretrizes recentes de sua estratégia de segurança nacional.
Por fim, de forma especulativa (e não como cenário base), não descarto a possibilidade de um upgrade da dívida soberana brasileira, o que reabriria o mercado de capitais norte-americano para empresas brasileiras.
Tudo isso reforça a tese: a supervalorização do Ibovespa não é um evento pontual, mas um processo estrutural em andamento.






