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O mercado de capitais se firma como a principal fonte de financiamento para fintechs brasileiras

O mercado de capitais se firma como a principal fonte de financiamento para fintechs brasileiras

FIDCs ganham protagonismo como alternativa ao equity, oferecendo mais previsibilidade, liquidez e preservação de participação acionária para startups e fintechs brasileiras

Em 2025, pela primeira vez, as cinco maiores captações do ecossistema brasileiro de startups foram estruturadas via fundos de investimento em direitos creditórios (“FIDC”), e não por meio de rodadas de equity como estávamos acostumados a ver anteriormente. Do total de US$ 4,5 bilhões captados por startups no ano, US$ 2,4 bilhões vieram de através de FIDCs — contra US$ 1,7 bilhão em equity, de acordo com os dados levantados pela plataforma Sling Hub.

O dado representa uma inversão de lógica que vinha sendo construída ao longo de anos por gestoras especializadas. Nos últimos anos, o mercado de capitais brasileiro consolidou-se como fonte de crédito estruturado, superando em liquidez e flexibilidade os meios tradicionais.

A indústria de FIDCs encerrou 2025 com patrimônio líquido de R$ 833,5 bilhões, crescimento de 30,3% sobre o ano anterior, com emissões de R$ 290 bilhões no período. A Uqbar projeta que o setor ultrapassará R$ 1 trilhão em 2026 e pode chegar a R$ 2,58 trilhões até 2030, com o número de fundos quase quadruplicando no período.

Para fintechs, que enfrentam o dilema entre captar recursos e preservar participação acionária, essa alternativa representa uma mudança de paradigma. Em vez de recorrer à sucessivas rodadas de equity, que diluem fundadores e investidores iniciais, e que também drenam energia considerável da empresa no processo, o acesso a instrumentos como FIDCs abrem caminho para um crescimento mais sustentável e escalável.

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O benefício central da captação de recursos por meio de FIDCs é a previsibilidade. Operações de crédito estruturado permitem alongar prazos, reduzir volatilidade de caixa e diversificar fontes de funding. Além disso, ao acessar diretamente o mercado de capitais, startups e fintechs se tornam menos vulneráveis às restrições de crédito impostas por bancos em ciclos de alta de juros. Trata-se de uma estratégia que fortalece a independência financeira e preserva o controle societário, ao mesmo tempo em que viabiliza uma expansão acelerada.

Este movimento tem raízes antigas e um caso emblemático no começo de 2016, quando o Goldman Sachs estruturou uma linha de crédito de R$ 200 milhões para o Nubank, que ainda estava distante do status de unicórnio. A parcela local, de R$ 100 milhões, foi estruturada por meio de um FIDC no qual o Goldman Sachs figurava como investidor, com o fundo adquirindo créditos de clientes que entravam nas linhas de rotativo do cartão. O instrumento permitia à empresa acesso a funding sem abrir mão de participação acionária, cedendo ao fundo a carteira de recebíveis que originava. O acordo seria ampliado sucessivamente, chegando a R$ 455 milhões em agosto de 2017.

A escala que esse modelo pode atingir ficou evidente também com a CloudWalk. Desde 2021, a fintech dona da InfinitePay acumulou mais de R$ 10,5 bilhões em captações via FIDCs. Em 2025, emitiu o FIDC Bela, de R$ 4,2 bilhões, com 87 veículos de investimento — incluindo nove gestoras, um multi-family office e alguns dos principais bancos brasileiros. Outro fator determinante para esse cenário foi a crise das Americanas, que culminou em uma retração no financiamento de recebíveis comerciais pelos bancos, fazendo com que os instrumentos de securitização — FIDCs, CRIs e CRAs — passassem a responder por 56% das emissões no mercado, segundo dados da Anbima.

É claro que o caminho não está livre de desafios. Estruturar operações exige governança robusta, compliance rigoroso e escala mínima de recebíveis para justificar custos iniciais. Ainda assim, o trade-off é favorável: o investimento em estruturação compensa no médio prazo, ao abrir acesso a um mercado mais profundo e sofisticado. A maturidade crescente das startups e fintechs brasileiras e o avanço de empresas e plataformas especializadas em crédito estruturado, tornam o ambiente cada vez mais propício. Essa profissionalização conecta empresas e investidores em operações que transformam recebíveis em recursos disponíveis. Isso têm permitido que startups ampliem sua capacidade comercial sem depender de equity ou da sua própria liquidez.

Governança, compliance, escala mínima de recebíveis e histórico de performance são pré-requisitos que excluem parte das empresas em estágio inicial. Mas, para startups com carteiras já rodando, a conta se inverte: cada rodada de equity evitada é participação acionária preservada, levando mais liquidez, previsibilidade e independência.

O futuro das startups brasileiras passa menos pela diluição e mais pela inteligência financeira, e o mercado de capitais está pronto para apoiá-las. Com o venture capital em retração e os “valuations” sob pressão, o mercado de capitais deixou de ser uma alternativa e passa, cada vez mais, a se tornar a rota principal.

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