A consultoria Traumann, conhecida por suas análises políticas precisas, divulgou nesta sexta (24) um documento que trata do assunto que movimentou o governo esta semana. A recriação do ministério da Segurança Pública, aventada nos últimos dias e depois descartada pelo presidente Jair Bolsonaro, poderia enfraquecer a influência do ministro Sergio Moro.
Os textos da consultoria são elaborados peloO jornalista Thomas Traumann, consultor independente e
autor do livro “O Pior Emprego do Mundo – 14 ministros da Fazenda revelam as decisões que mudaram o Brasil e
mexeram no seu bolso” (Editora Planeta). É colunista do site Poder360 e mantem o podcast Traumann Traduz na Veja.come Spotify.
O episódio da recriação do ministério, que sugere conflito entre o presidente e o ministro, foi analisado pela Traumann. O texto da consultoria explica o cenário: “Por trás das caneladas entre o presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Justiça, Sergio Moro, está um dos eixos da sustentação popular ao governo e o seu futuro nas eleições de 2022. Em dois dias, Bolsonaro saiu do anúncio da transferência da Polícia Federal da alçada de Moro para um novo ministério sob a guarda de um velho amigo à ameaça de um possível pedido de demissão do ministro e um recuo público. É ingenuidade achar que o episódio está encerrado.”
A Traumann continua: “Bolsonaro acredita que Moro é candidato a presidente em 2022. Isso significa que não importa o que o ministro ache, diga ou pretenda fazer. Ele será tratado como um eventual adversário. Bolsonaro é uma pessoa binária. Ou você está do lado dele ou você é um inimigo.”
Paranoia
E a consultoria lembra: “Ex-ministros como Gustavo Bebiano, Santos Cruz, o ex-senador Magno Malta, os deputados Joice Hasselmann e delegado Waldir, o senador Major Olímpio foram até meses atrás do núcleo central do bolsonarismo. Hoje são tratados como inimigos e vilipendiados pela milícia bolsonarista nas redes sociais.”
A Traumann dá outro exemplo: “Para ilustrar esse comportamento, a jornalista Thaís Oyama escreveu no livro Tormenta: ‘No tempo em que era deputado em Brasília, se deixava o carro estacionado na rua por muito tempo, ao
voltar se agachava para conferir o chassi do veículo com medo de ser surpreendido por uma bomba. Também receava ser envenenado. Quando chegava ao apartamento que mantinha no Setor Sudoeste, jamais bebia a água de jarras ou garrafas guardadas na geladeira. Por precaução, preferia matar a sede na torneira”.
A psiquiatria tem um nome para isso, paranoia, sentencia a consultoria: “Ou seja, aos ministros é dado o direito de concordância. Se Bolsonaro realmente recriasse o Ministério da Segurança Pública, Moro teria que aceitar ser rebaixado ou sair. Ele indicou que sairia. Como revelou o Estadão, Bolsonaro mudou de ideia depois de receber várias mensagens de apoiadores via WhastApp com a pergunta ‘Vai trocar o Moro pelo Fraga?’, em referência ao ex-deputado Alberto Fraga, seu antigo colega de paraquedismo e favorito para o novo ministério.
Escorregadio
“Lendo as mensagens, o presidente percebeu que, neste momento, a sua base ficaria dividida caso defenestrasse o ex-juiz”, aponta a Traumann. “É sintomático que na negativa que deu nesta sexta-feira (dia 24), na Índia, o presidente foi escorregadio: ‘A chance no momento é zero. Tá bom ou não? Tá bom, né? Não sei amanhã. Na política, tudo muda, mas não há essa intenção de dividir (o Ministério da Justiça)”.






