Depois da polêmica com a gestora Squadra, que questionou números de seus balanços, o IRB (Instituto de Resseguros do Brasil) divulgou resultados fortes, na noite desta terça-feira (18).
Desde o início do embate com a gestora, no começo do mês, o papel (IRBR3) acumula queda de cerca de 19%. Assim, é possível que reaja positivamente neste pregão.
Além do balanço, o papel deve ser impulsionado pelo anúncio de recompra de ações. A empresa vai adquirir até 41,898 milhões de ações, que representam 5% do total de ações em circulação no mercado. O programa se encerra em 18 de agosto de 2021.
Auditoria dupla
Para minimizar a desconfiança dos investidores, o IRB escreveu que contou com duas empresas de autoria.
Em comentário de desempenho, apontou que indicadores técnicos, como ativos de retrocessão, valores redutores da necessidade de cobertura das provisões técnicas e limites de retenção, foram avaliados pela Ernst & Young (EY).
Essas mesmas informações atuariais também foram examinadas pela PricewaterhouseCoopers (PwC).
Resultados
O IRB teve lucro líquido de R$ 632,1 milhões no quarto trimestre de 2019, com avanço de 69,5% na comparação com igual período de 2018.
O prêmio emitido somou R$ 2,098 bilhões, com avanço de 24,8%. O prêmio refere-se ao montante desembolsado pelo cliente à seguradora em troca da transferência do risco.
Depois, a seguradora remaneja um porcentual dos riscos que assumiu para as chamadas resseguradoras – caso do IRB –, mediante o pagamento de um prêmio de resseguro.
O prêmio retido, por sua vez, totalizou R$ 1,484 bilhão, com crescimento de 37,8%. Este valor se refere ao montante proporcional ao prêmio pago que fica nas mãos das seguradoras em uma operação de resseguro. As seguradoras retêm parte desse valor e o ressegurado recebe a outra parte para garantir o risco assumido por elas.
Já os prêmios ganhos atingiram R$ 1,622 bilhão, com alta de 13,6%.
Mais resultados do quarto trimestre
O sinistro retido chegou a R$ 747 milhões negativos, o que implica uma melhora de 8,7%. O sinistro refere-se à ocorrência do fato considerado como risco que foi previsto no contrato.
O índice de retenção ficou em 70,7%, com avanço de 6,7 ponto porcentual. A retenção é o risco retido, a responsabilidade.
O índice de retrocessão, por sua vez, foi de 29,3%, com queda de 6,7 ponto porcentual. A retrocessão ocorre quando a resseguradora transfere parte dos seus riscos absorvidos a outras ressegurados ou até mesmo para seguradoras.
Já o índice de sinistralidade total atingiu 46%, com queda de 11,3 pontos porcentuais.
O índice combinado totalizou 75,5%, com declínio de 6,3 pontos porcentuais.
Ano
Em 2019, o lucro líquido atingiu R$ 1,764 bilhão, com alta de 44,7%.
Os prêmios emitidos somaram R$ 8,516 bilhões, com avanço de 22,3%. Desse total, R$ 4,826 bilhões foram emitidos no Brasil (56,7% do total) e R$ 3,689 bilhões no exterior (43,3%).
Os prêmios retidos, por sua vez, totalizaram R$ 6,307 bilhões, com aumento de 23,8%.
Já os prêmios ganhos ficaram em R$ 5,674 bilhões, com expansão de 18,3%. O avanço ocorreu por conta do efeito do maior volume de prêmio emitido, que cresceu 22,3%, parcialmente compensado pelo crescimento das provisões técnicas.
O total da variação das provisões técnicas saiu de R$297 milhões em 2018 para R$6 33 milhões em 2019.
Mais resultados do ano
O sinistro retido chegou a R$ 2,898 bilhões negativos no ano, com piora de 8%.
Esse item possui dois componentes principais: a PSL (Provisões de Sinistros a Liquidar), que reflete os avisos de sinistros que a companhia recebeu no período, e a IBNR (Incurred But Not Reported).
A IBNR se refere, essencialmente, a uma provisão atuarial feita pela companhia em bases estatísticas para se prevenir de futuros avisos de sinistros.
Há ainda um terceiro item a impactar o sinistro retido que são os salvados e ressarcimentos, que refletem a capacidade da companhia de recuperar valores de sinistros pagos.
No ano de 2019, a sinistralidade retida medida pela PSL da companhia correspondeu a 53,5% do prêmio ganho, praticamente em linha com o ano anterior, que foi de 52,6%.
O índice de retenção ficou em 74,1%, com avanço de 0,9 ponto porcentual.
O índice de retrocessão, por sua vez, foi de 25,9%, com queda de 0,9 ponto porcentual. Historicamente, a empresa já apresentou redução relevante em seu índice de retrocessão, lembra.
O índice de retrocessão passou de 30% em 2017 para 25,9% em 2019, uma redução de 4,1 pontos.
Esta diminuição no custo, com a manutenção de cobertura dos valores ressegurados, foi possível em função da confiança dos seus retrocessionários no bom histórico de sinistralidade apresentado pela companhia.
Já o índice de sinistralidade total atingiu 51,1%, com declínio de 4,8 pontos porcentuais.
O resultado financeiro consolidado da controladora e de suas subsidiárias/sucursais foi R$ 733,5 milhões em 2019, ante R$ 628,9 milhões em 2018, incremento de 16,6% no período.
2020
O IRB divulgou suas metas para este ano. O crescimento do prêmio emitido no Brasil em relação ao ano de 2019 deve ficar entre 22% e 27%.
O crescimento do prêmio emitido no exterior, por sua vez, deve crescer de 23% a 28%.
O índice de Retrocessão, de 17% a 19%. Já o índice combinado ampliado do ano deve ficar entre 69% e 73%.
Por fim, o índice de despesa administrativa, de 4,6% a 5,2%.
Todos os indicadores que haviam sido projetados para 2019 foram atingidos.
Oportunidades
Para 2020, a empresa mantém “firme” a estratégia de crescimento, com entrega de resultados consistentes.
“Identificamos perspectivas animadoras para 2020, com potencial de evolução especialmente no agronegócio, efeito do maior subsídio para o seguro rural, elevado pelo governo de aproximadamente R$ 400 milhões em 2019 para cerca de R$ 1 bilhão em 2020”, diz o IRB.
“A Federação Nacional de Seguros Gerais (Fenseg), por exemplo, estima que produtores reservem até 20% mais recursos para minimizar prejuízos às lavouras ou garantir rentabilidade no caso de forte oscilação de preços”, acrescenta.
Outro driver de crescimento será o setor de óleo e gás, que está apresentando desempenho acima do Produto Interno Bruto (PIB) e deve ser uma alavanca importante para o setor de seguros em 2020.
“Há boas expectativas também para seguros patrimoniais, impulsionados pela retomada de lançamentos imobiliários vistos como alternativa de investimento em um cenário de juros em queda.”
A empresa enxerga ainda oportunidade com a eliminação da obrigatoriedade de apólices anuais de seguros, determinada pela Susep em agosto, o que deve criar negócios para os quais o IRB já se preparou, como a oferta de apólices flexíveis, válidas por meses, dias, horas, ou quaisquer outros critérios estabelecidos no plano de seguro.
Squadra
Alguns pontos dos balanços do IRB questionados pela Squadra foram endereçados em notas explicativas, embora a empresa não tenha feito qualquer menção à polêmica ou à gestora nos documentos publicados.
O IRB aponta que houve um ganho de capital líquido com a venda de shopping centers de R$ 103,4 milhões em 2019.
O ganho de capital com a venda dos shopping centers refere-se ao resultado das vendas líquidas de impostos e despesas dos seguintes shopping centers: Minas Shopping (ganho de capital líquido de R$ 27,128 milhões), Shopping Barra Salvador (ganho de capital líquido de R$ 28,675 milhões), Praias de Belas (ganho de capital líquido de R$ 22,037 milhões), e Esplanada (ganho de capital líquido de R$ 25,604 milhões).
De acordo com carta aos cotistas da Squadra publicada há dez dias, “na realidade, a companhia chama de ganho de capital o valor de custo pelo qual o imóvel estava contabilizado em seu balanço”.
“Reafirmamos nossa análise de que houve ganho de capital referente à venda do Minas Shopping no valor estimado de R$ 119 milhões (137 – 18 = 119)”, escreveu a Squadra, na carta.
Estimativa de salvados e ressarcidos
Sobre a linha do balanço “Estimativas de recebimento de salvados e ressarcidos”, o IRB indicou que não há contradição com os dados da Susep, como deu a entender a Squadra.
O IRB informou que mantém nota técnica atuarial com a metodologia de constituição da estimativa de recebimento de Salvados e Ressarcidos, sendo esta contabilização um ajuste redutor da provisão de sinistros.
“Essa estimativa corresponde exclusivamente às estimativas dos salvados e ressarcimentos ainda não ativados, haja vista que, após a ativação, a manutenção da estimativa de recebimento como um ajuste redutor da provisão implicaria duplicidade de registro, uma vez que esse valor já está contabilizado no ativo da companhia”, diz o IRB.
“A companhia dispõe ainda de histórico de dados suficiente para a análise da consistência dos valores registrados, conforme determinado pela SUSEP para registro e monitoramento desta estimativa”, acrescenta o IRB.
Na análise do LAIR normalizado, a Squadra destacou relevante ganho de R$ 605 milhões com a ativação de “Expectativa de Salvados e Ressarcidos da PSL (Provisões de Sinistros a Liquidar)”. Ao rebater esse item em conversas com agentes do mercado, no entanto, o IRB teria citado a rubrica de “Salvados e Ressarcimentos”.
Porém, de acordo com a Squadra, os conceitos são diferentes. A expectativa de salvados e ressarcidos da PSL considera apenas a sinistros avisados, mas ainda não pagos. Já os salvados e ressarcidos refere-se a sinistros avisados e já pagos.
“Na DRE (demonstrações financeiras), dentro das Despesas de Sinistros, constituem linhas contábeis diferentes e não comparáveis”, explicou a Squadra, na ocasião.
A Squadra avisou que, para fazer o cálculo, é preciso considerar informações não disponíveis nas demonstrações financeiras. É necessário fazer o download da base SES da SUSEP.
Tá, e aí?
O analista da XP Investimentos optou por manter a recomendação do papel sob revisão, por enquanto, para analisar os dados e a recorrência dos resultados.
Segundo ele, o IRB postou um lucro acima do consenso em R$ 632 milhões (ante um consenso de 505 milhões), com impostos vindo positivos em R$ 109 milhões no trimestre.
A resseguradora divulgou um impacto tributário positivo de R$ 146 milhões em 2019 relacionado a prejuízos de uma subsidiária londrina.
O resultado implica em um retorno sobre patrimônio líquido de 57% para o trimestre.
No geral, os resultados operacionais vieram abaixo do consenso, mas o lucro veio acima ajudado por impostos.
A empresa divulgou ainda um guidance para 2020 em linha com o divulgado/realizado em 2019.






