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Distressed assets: quando “ativos podres” se tornam oportunidades

Distressed assets: quando “ativos podres” se tornam oportunidades

Os distressed assets são investimentos alternativos com maior risco, mas que oferecem grande potencial de rentabilidade. Confira a seguir como funcionam.

Os investimentos alternativos são aqueles diretamente ligados à economia real ou a determinados projetos. Por isso, eles são praticamente descorrelacionados dos mercados financeiro e de capitais, ou seja, um investimento alternativo não costuma sofrer com as oscilações da bolsa de valores, por exemplo.

Há diversas categorias alternativas de investimentos. Nesse artigo, falaremos especificamente sobre os distressed assets, também conhecidos como “ativos podres”. Continue a leitura para saber o que são esses ativos problemáticos e quais as oportunidades que eles podem oferecer aos investidores.

Investimentos alternativos: o que são distressed assets?

Em momentos de crises financeiras, a liquidez do mercado se torna muito baixa. Por um lado, as empresas passam a produzir menos e enxugar custos para se adaptarem à menor demanda. Por outro, muitos bancos reduzem as suas linhas de crédito, o que agrava a situação e retarda a recuperação econômica.

É justamente nesse contexto que surgem os distressed assets, ou seja, em decorrência de dificuldades para lidar com a crise. Na impossibilidade de manterem os ativos, tanto empresas quanto pessoas físicas acabam se desfazendo de bens e direitos. E, para ganharem liquidez, essas negociações costumam ser feitas por valores bem descontados.

Os ativos podres podem assumir diversas formas de investimentos. Nesse sentido, imóveis, recebíveis de inadimplentes, participações societárias e precatórios são alguns exemplos.

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Por exemplo, alguém que precisa de liquidez pode vender um precatório para ser pago dali a alguns anos por um valor descontado. O mesmo acontece com uma carteira de clientes inadimplentes. Mesmo que o comprador não receba o valor original da dívida, dependendo do valor pago pelos recebíveis, poderá haver uma grande valorização do capital investido.

Origem desse mercado

O mercado de distressed assets surgiu na década de 1980, em meio à crise dos saving banks, ou saving & loan (S&L) nos Estados Unidos.

As S&L recebiam depósitos que serviam de garantia de empréstimos pessoais e, também, eram utilizados para adquirir imóveis hipotecados. Os problemas com esses depósitos começaram no final dos anos 70. Na ocasião, o Federal Reserve aumentou a taxa de desconto dos bancos para tentar conter a inflação.

No entanto, as taxas que as S&L cobravam pelos empréstimos eram mais baixas do que os novos juros definidos pelo Fed. Com o passar do tempo, cerca de 3 mil associações quebraram no país, mas deixaram boas carteiras de crédito.

No final dos anos 80, foi criada a Resolution Trust Corporation (RTC), que passou a atuar nos problemas gerados pela insolvência das S&L. Para isso, a RTC criou uma estrutura para vender esses ativos problemáticos a investidores privados. Essa estrutura tratava da venda e, também tinha capacidade operacional para fazer a cobrança dos recebíveis. Dessa forma, surgiram os ativos podres, investimentos de alto risco e com grande potencial de valorização.

Evolução do distressed asset no Brasil

Por aqui, a primeira grande oportunidade para esse mercado surgiu em meados dos anos 90, quando grandes bancos enfrentavam sérios problemas financeiros. Na ocasião, o caso mais conhecido foi o do Banco Nacional, que teve um rombo de quase US$ 600 milhões em suas contas.

A fim de socorrer as instituições financeiras, em 1995 foi criado o PROER (Programa de Estímulo ao à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional). O objetivo do programa foi semelhante ao da RTC norte-americana, porém limitava-se à esfera pública federal.

No entanto, a partir de 2005, o Brasil começou a chamar atenção de investidores internacionais. Um dos primeiros casos foi a compra de créditos vencidos do ABN (antigo Banco Real) pelo Lehman Brothers. Devido à crise de 2008, os investidores internacionais acabaram recuando. Por outro lado, foi o período em que surgiram as primeiras empresas brasileiras desse segmento.

Em pouco tempo, esse mercado cresceu e ganhou novos investidores nacionais. A partir de 2010, o foco do mercado passou a ser créditos de pessoas físicas, como financiamentos de veículos, cheque especial, dívidas de cartões de crédito, e assim por diante.

Nesse período, que vai aproximadamente de 2010 a 2015, as operações distressed assets eram bastante rentáveis, porém com tickets pequenos. De um lado, os bancos ainda não tinham expertise razoável nesse segmento. De outro, os detentores dos créditos (normalmente varejistas) ainda não conheciam bem essas operações.

Somente a partir de 2015 é que os ativos podres passam a ter representatividade no mercado corporativo. Foi quando grandes bancos passaram a participar da negociação com médias e grandes empresas, e que gestores profissionais começaram a atuar de forma mais sistemática.

Regulação sobre ativos judiciais

A Lei de Recuperação de Empresas e Falência (11.101/2005, alterada pela 14.112/20) trouxe algumas novidades para empresas nessa situação. Entre elas, está a possibilidade de vender da companhia e participar na sua gestão, a fim de permitir sua reestruturação. Inclusive, na venda desses ativos, as obrigações do devedor não recaem sobre o novo dono.

Dessa forma, ativos como unidades produtivas, imobilizado, carteira de clientes, podem ser vendidos a investidores. Para isso, só é necessária a aprovação em assembleia da maioria dos credores.

Para Renato Abissamra, sócio da Spectra Investimentos, isso deu um importante impulso ao setor de distressed no Brasil.

Segundo o gestor, “quando existe uma situação de recuperação judicial, dos três stakeholders (empresa, acionistas e credores), normalmente só um deles consegue se salvar. Para fazer valer seus direitos, os credores lançam mão das garantias, o que inviabiliza a empresa e afeta o patrimônio dos sócios. Por sua vez, se decide salvar seus ativos pessoais, o acionista sangra a empresa e fica inadimplente. No entanto, quando há intervenção de um fundo distressed, essa situação pode ser revertida. Isso porque, ao aportar recursos de investidores, oxigena-se a empresa para que continue em operação. Quando esse processo dá certo, todos saem ganhando, e o investimento é bastante lucrativo, pois foi aportado somente o mínimo necessário para que a empresa mantivesse a operação.”

Apesar de socorrerem empresas em dificuldades, os fundos distressed não atual da mesma forma que um Private Equity. Segundo Abissamra, “o papel do gestor de distressed é salvar a empresa, e não realizar a sua gestão. Dessa forma, o turnaround desses investimentos acaba sendo muito mais rápido”.

O mercado de ativos problemáticos

A pandemia fez crescer as ofertas de distressed em setores como turismo, hotéis, restaurantes e outros relacionados ao contato presencial. Uma vez que o risco dessas negociações é elevado, o prêmio aos investidores acaba sendo superior a investimentos tradicionais.

Em webnário promovido pela ABVCAP em 2020, Guilherme Ferreira, sócio da Jive Investments, falou sobre as oportunidades que existem nesse mercado. Segundo Guilherme, “existe uma percepção no mercado de que o distressed é um investimento somente para momentos de crise, o que não é verdade. O correto é associar esse investimento não somente a crises, mas à variação de ciclos econômicos”.

Durante um ciclo, existem oportunidades e nichos diferentes de distressed. Logicamente, no auge de uma crise, há oportunidade de comprar ativos mais descontados por causa da necessidade de liquidez. À medida que vai acontecendo a retomada econômica, o foco do investimento passa a ser o que se acumulou de problemas nos bancos e nas empresas. “Nesse momento, o distressed passa a atuar mais no sentido de dar mais leveza aos balanços dos bancos e recapitalizar as empresas, transferindo os ativos e dívidas de ambos para novos investidores”, conclui Ferreira.

Normalmente, quando a liquidez começa a dar sinais de retomada, é o momento do desinvestimento dessa categoria de ativos. A partir daí, outras categorias do distressed passam a ser mais interessante, como investimentos imobiliários ou crédito, por exemplo. Ou seja, há boas oportunidades durante a crise e, também, quando os mercados retomam a normalidade.

Papel social do segmento

Para Guilherme, os investimentos distressed assets têm também um papel orgânico de dar liquidez ao mercado justamente quando é mais necessário. “Por uma questão de capacidade de financiamento de bancos, empresas e agentes econômicos durante a crise, é importante que exista esse ecossistema de investidores distressed. Isso porque esses players conseguem tomar decisões rápidas com informações incompletas. Durante momentos de incertezas, são eles que continuarão provendo o capital necessário para que se saia da crise, até que o mercado financeiro e de capitais possa voltar a atender de forma normal.”

Guilherme ainda acrescenta o aumento do papel social desses investimentos no Brasil. “Com a pandemia, o investidor estrangeiro, que chegou a aumentar o interesse pelo Brasil a partir de 2018 e 2020, acabou deslocando o seu capital para locais mais seguros, como Estados Unidos e Europa. Dessa forma, o mercado brasileiro voltou-se novamente para os investidores locais. Ao prover liquidez ao sistema, isso fez com que tivessem um papel social fundamental na recuperação de pessoas físicas e jurídicas em meio à crise”, afirma.

Quer saber mais sobre distressed assets? Então, preencha o formulário para um assessor da EQI Investimentos entrar em contato!