O Índice de Preços ao Consumidor (IPCA-15), prévia da inflação, fechou março em 0,02%, sendo este o menor resultado para o mês desde que o país implantou o Plano Real, em 1994.
O levantamento é do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), para quem o recuo foi puxado pelo preço das passagens aéreas que caíram pelo terceiro mês seguido (-16,88%).
“O item representou o maior impacto negativo, contribuindo com -0,11 ponto percentual no IPCA-15. Com o resultado, o índice IPCA-E (IPCA-15 acumulado trimestralmente) ficou em 0,95%. Em 12 meses, o índice alcançou 3,67%, abaixo dos 4,21% registrados nos 12 meses imediatamente anteriores”, comunicou o IBGE.
Outras quedas
De acordo com o Instituto, além das passagens aéreas, que tiveram preços menores pelo terceiro mês consecutivo (-6,45%, em janeiro, e -6,68%, em fevereiro), as quedas da gasolina (-1,18%), do etanol (-1,06%), do óleo diesel (-1,95%) e do gás veicular (-0,89%), nos combustíveis (-1,19%), também influenciaram o resultado do grupo Transportes (-0,80%).
Este grupo, que tem o maior peso no consumo das famílias, apresentou a maior deflação no mês.
Já em Habitação (-0,28%), a queda é explicada principalmente pelo item energia elétrica (-1,30%), visto que permanece em vigor a bandeira tarifária verde, em que não há cobrança adicional nas contas de luz.
Agora, as altas
Conforme o IBGE, a maior contribuição positiva (0,11 p.p.) veio do grupo Saúde e Cuidados pessoais (0,84%), cujo resultado refletiu o aumento de preços nos itens de higiene pessoal (2,36%). E do item plano de saúde, que variou 0,60% e contribuiu com 0,02 p.p. no IPCA-15 de março.
Após queda de 0,10% em fevereiro, o grupo de Alimentação e Bebidas, que responde pelo segundo maior peso no consumo das famílias, apresentou alta de 0,35% em março.
A alimentação no domicílio, que havia registrado queda em fevereiro (-0,32%), subiu 0,49% em março, influenciada pelas altas da cenoura (23,92%), do ovo de galinha (5,10%), do tomate (4,93%) e do leite longa vida (1,37%).
Porém, as carnes (-1,81%) apresentaram queda menos intensa em relação a fevereiro (-5,04%).
O IPCA
O IBGE informou que os preços que compõem o IPCA-15 de março foram totalmente obtidos por coleta presencial entre 12 de fevereiro e 16 de março.
Em função do quadro de emergência de saúde pública decorrente do coronavírus (Covid-19), adaptações metodológicas estão sendo consideradas pelo Instituto, de modo que a próxima divulgação do índice seja baseada em coletas online e por telefone.
Tá, e aí?
De acordo com o economista André Braz, a variação média veio em linha com as expectativas do mercado. “A gente esperava mesmo uma inflação muito baixa”, disse ao EuQueroInvestir.com.
Coordenador do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Braz ressalta que o indicador veio sem grandes fontes de pressão.
“Os combustíveis têm ajudado, pois estão com número negativo, e até o fechamento da coleta do IPCA-15, os efeitos do coronavírus no preço dos alimentos ainda era brando. Então, o grupo Alimentação veio até com variação baixa, perto da que se encontra hoje”, frisa.
E acrescenta: “isso só reforça que esse primeiro trimestre vai ter uma inflação historicamente baixa. O primeiro trimestre, em geral, é marcado pelo reajuste de preços importantes, preços administrados relevantes como ônibus, energia, serviços de educação. Mas, mesmo com tudo isso acontecendo, a inflação desse primeiro trimestre vai fechar muito abaixo da que fechou o primeiro trimestre de 2019.”
Isso porque, segundo ele, no ano passado, o IPCA acumulou 1,5% de variação entre janeiro e março, e esse ano o número pode não chegar à metade da inflação acumulada em 2019.
Esse cenário, conforme, Braz, mostra os efeitos da economia sobre os preços. “A gente ainda tem o desemprego alto e uma economia se recuperando lentamente. O PIB do ano passado veio em torno de 1%, mostrando que a atividade está avançando de forma muito lenta, e isso, é claro, não anima o consumo, mesmo que a gente esteja vendo aí estes cortes sucessivos na taxa Selic”, ressalta.
“A somar isso tudo, agora tem o desafio do coronavírus e tudo o que ele trouxe pro Brasil e pro Mundo. então agora, mais do que nunca, a gente tem a expectativa de um crescimento muito baixo em 2020. Pode ser até que a gente entre aí num PIB negativo, isto é, pode ser que a gente não cresça, mas retroaja”, diz.
E continua: “os impactos do coronavírus devem sustentar uma inflação baixa daqui para frente, mas em contraponto à aceleração da inflação, temos o grupo Alimentos [puxando a alta] versos a gasolina [que puxa a baixa]. Nós vamos ter a continuidade da desaceleração da taxa em dose meses.”