A Dinamarca está mostrando em 2020 que seus minúsculos índices de ações, dependentes do comércio, estão facilmente batendo o S&P 500, que subiu um pouco no ano, bem como o Nikkei 225 do Japão e o índice Stoxx Europe 600, que estão em território negativo.
Reportagem do New York Times (NYT) mostra que os principais índices do país, o OMXC20 e o OMXC25, estão com bom desempenho em 2020.
O OMXC20 ganhou até aqui 14,12% e o OMXC25, 15,55%.
Na comparação com dois dos mais importantes índices mundiais, o Dow Jones e o S&P 500, de Nova York, a diferença é brutal.
O Dow Jones acumula no ano perdas de 3,87%. O S&P 500, ao menos, já passou para o terreno positivo, com 3,73%.
O Ibovespa está com menos 11,13% no ano.
Só o Nasdaq, composto por empresas de tecnologia, faz frente, com ganhos de 22,72% no ano.
Mas as empresas de tecnologia são justamente as que têm segurando Wall Street, por se beneficiarem da pandemia.
- Dúvidas sobre como investir? Consulte nosso Simulador de Investimentos
Resposta eficaz da Dinamarca
O que explica esse desempenho estelar, pergunta o NYT.
Os especialistas dizem que é uma combinação de vários fatores.
Há a resposta eficaz à crise do coronavírus (auxiliada pela robusta rede de segurança social do país), coisas que nem Brasil nem Estados Unidos tiveram ou possuem.
Há um conjunto de empresas bem posicionadas para enfrentar a crise e um talento para uma gestão bem equilibrada.
Mas o principal, segundo o NYT, é o que as empresas fazem, e não onde fazem: cerca de 50 por cento da capitalização de mercado das ações dinamarquesas está em empresas farmacêuticas e de saúde quase à prova de recessão – um portfólio sólido no meio de uma pandemia.
“O mix do mercado dinamarquês é completamente diferente do que você vê no mercado global, e aí você tem, mais ou menos, os motivos de um desempenho tão melhor”, disse Carsten Jantzen Leth, chefe de ações da Dinamarca na Nordea Asset Management.
OMXC25: desempenho em um ano

Fonte TradingView
Empresas de saúde
Os preços das ações das grandes empresas dinamarquesas de saúde, como a Coloplast, dispararam.
Desde o começo do ano, a Coloplast já subiu 28,50%.
É uma empresa de bolsas de colostomia, continência e tratamentos para pele e feridas.
A Genmab, uma empresa de biotecnologia especializada em tratamentos de câncer, cresceu 55,20%.
Mais bem posicionada está a Novo Nordisk, que em termos de rendimento cresceu “só” 5,2% no ano.
Com valor aproximado de US$ 150 bilhões, a empresa sediada em Bagsvaerd responde sozinha por cerca de 15% da capitalização de mercado do índice OMX Copenhagen 25, que pertence ao Nasdaq Global Indexes.
É um dos fornecedores dominantes no mercado mundial de tratamentos de insulina e diabetes, um negócio bem isolado dos altos e baixos da economia global.
“Se as pessoas precisam de insulina, elas precisam, quer haja uma recessão ou não”, disse ao NYT Henrik Drusebjerg, estrategista-chefe global do Danske Bank, o maior banco dinamarquês.
Salvar vidas é salvar a economia
Grande parte dos negócios das empresas dinamarquesas – cerca de 20 por cento – vem dos Estados Unidos, flagelados pela pandemia, mas uma parte significativa também vem de dentro das fronteiras do país.
E os esforços do país para nivelar a curva e retomar a atividade econômica também ajudaram os preços das ações.
“Ficou claro que a Dinamarca havia superado o vírus rapidamente”, disse David Oxley, economista especializado em economias nórdicas na Capital Economics, uma consultoria de pesquisa em Londres. “Eles foram um dos primeiros a fechar e um dos primeiros a reabrir”.
Ao contrário de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, e de Jair Bolsonaro, presidente do Brasil, que lutam e lutaram o quanto puderam para desmerecer a pandemia, justificando suas “não-medidas” como forma de assegurar a saúde da economia, a Dinamarca tratou primeiro das pessoas, para depois pensar na economia.
Deu certo.
É um dos exemplos mundiais, como a Nova Zelândia e, dentre os países pobres, a Argentina, de que salvar vidas é salvar a economia.
Rede social robusta da Dinamarca
A Dinamarca tem um sistema generoso de desemprego em tempos normais.
Mas tomou medidas adicionais em resposta à pandemia.
Primeiramente, o governo pagava a conta se um empregador reduzisse as horas de trabalho de um trabalhador.
Somente no final de junho, o governo deu a partida em seus benefícios normais de desemprego.
Nele, se paga cerca de 90% do salário de um trabalhador por até um ano.
Isso significa que os trabalhadores desempregados podem contar com um apoio significativo até meados de 2021.
A pandemia teve um efeito, é claro. E terá um custo, ninguém nega.
Em defesa do Brasil e dos Estados Unidos, é mais fácil e barato cuidar de 5,82 milhões de pessoas, a população dinamarquesa, do que de 210 milhões, como no Brasil.
A população dinamarquesa cabe em alguns grandes municípios do mundo, como Nova York, São Paulo e Rio de Janeiro.
Municípios, não estados.
Mesmo assim, o desemprego disparou para 5,6% em maio.
Além disso, o produto interno bruto caiu 2% no primeiro trimestre, a pior queda em mais de uma década.
Lado perdedor
Contudo, nem tudo são flores na Dinamarca.
As ações da Maersk, gigante da navegação dinamarquesa, empresa duramente atingida pela forte desaceleração do comércio global, despencaram no ano 10%.
Embora os volumes de frete devam cair até 18% no segundo trimestre, os lucros da Maersk devem ficar praticamente estáveis em comparação com o ano passado, de acordo com analistas.
A empresa tem fôlego para enfrentar o momento mais difícil de sua história.
Diferença de administração
“Isso é o talento das equipes executivas nórdicas em operar em ritmo estável e lucrativo”, explica o NYT.
Um analista ouvido pela reportagem explicou que “diferentes países podem ter diferentes abordagens de gestão”.
Segundo ele, “os executivos alemães podem ser um pouco lentos para produzir resultados, enquanto as empresas americanas e britânicas podem ser um pouco focadas nos ganhos de curto prazo em detrimento da estratégia de longo prazo”.
Mas as empresas dinamarquesas e nórdicas parecem ter descoberto uma maneira de combinar as duas abordagens.
“Eles geralmente têm um bom ritmo sobre como administrar os negócios”, disse.
“Tentam acertar os trimestres, mas sem sacrificar o longo prazo para isso”, completou.
- Conheça os benefícios de se ter um Assessor de Investimentos






