A crise hídrica que assola os estados do Sudeste, Centro-Oeste e do Sul brasileiro levou os reservatórios dessas regiões a uma das suas piores situações na história. Nos dois primeiros, o armazenamento médio estava, no fim de julho, em 26,85%, e pouco choveu desde então.
A Região Sul, no meio do mesmo mês, estava um pouco melhor, com apenas 37,9% dos seus reservatórios preenchidos. A situação delicada coloca algumas empresas em alerta – principalmente para as geradoras de energia.
“As geradoras são as companhias mais afetadas, principalmente as que têm muita exposição ao regime hídrico”, explicou Aline Cardoso, gestora de Renda Variável da EQI. “Essas empresas não conseguem gerar a energia que haviam prometido vender aos seus clientes e têm de ir ao mercado spot, comprar energia por cerca de R$ 600 e, para cumprir seus contratos, vender em média de R$ 120”.
Engie (EGIE3), Cesp (CESP6) e AES (AESB3) sofrem no 2TRI21
Em seus resultados, Engie (EGIE3), Cesp (CESP6) e AES (AESB3), companhias que possuem hidrelétricas nas regiões mais duramente afetadas, registraram deterioração dos lucros ou prejuízos. A Engie viu seu lucro líquido cair 58,4% no 2TRI, para R$ 319 milhões. A AES teve queda de 76,9%, para R$ 27,5 milhões. A Cesp reverteu lucro e teve um prejuízo de R$ 18 milhões.
A AES, onde 61% da energia produzida é hídrica, viu sua margem gerada por essa produção cair R$ 26,5 milhões, com o Ebitda atingindo R$ 257 milhões. Na Cesp, os custos e despesas avançaram 109% no trimestre, com mais dinheiro gasto na aquisição de energia. Na Engie, as negociações na Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) resultaram em subtração de R$ 59 milhões do resultado operacional.
O resultado do 2TRI21, apesar de ruim, não foi dos piores. Conforme relatório da Eleven, o fato de o preço do mercado spot ter ficado por volta de R$ 231,7/MWh no período, ainda longe do teto próximo a R$ 600, preservou parte das margens. “Ainda temos de contar que algumas delas montaram estratégia de hedge, antevendo a crise”, assinou o analista Renato Pinto.
Conforme Itaú BBA, a Engie seria a mais preparada. “Em termos de risco hidrológico (GSF), esta companhia parece estar em uma situação confortável dado que os volumes não contratados para 2021 estão ligeiramente acima de 20% da sua energia hídrica firme. Além disso, várias de suas usinas possuem hedge de GSF, ajudando também a reduzir o impacto”, comentou.
Além disso, a Engie, com sua participação na TAG, Transportadora Associada de Gás, acaba por diminuir os impactos da crise hídrica no seu balanço por ter exposição ao mercado das termelétricas, que é o que mais se beneficia da falta de água quando o assunto é produção de energia.
Cenário das geradoras de energia elétrica é instável
Para os resultados futuros é difícil prever o que acontecerá. “A visão que, primeiro de tudo, o cenário é muito imprevisível. Chuvas são previsíveis em, no máximo, 15 dias. Se no período chuvoso, a partir de novembro, começar a chover acima da média, acabou o problema, o risco e a crise hídrica”, contou Aline Cardoso.
Segundo ela, os principais especialistas em energia, atualmente, trabalham com uma visão de que o País tem 40% de chance de passar por um problema de abastecimento. “Precisamos de uma redução de 5% no consumo. O racionamento, porém, é improvável, porque teria um impacto político muito grande para o governo. A crença é de que, se a situação hídrica piorar, algumas regiões terão apagões durante os horários de pico”, explicou.
Contextualizando, se o governo emplacar uma campanha de racionamento, o impacto nas eleições que se aproximam seria muito alto – o provável é que, caso não chova, o problema venha de forma mais “natural”.
O Brasil, segundo Aline, depende de um bom período de chuvas – o mais provável, segundo analistas, é que a alta dos preços da energia não consiga frear a demanda, isso porque, mesmo com esses gastos, alguns setores, estes mais expostos ao mercado externo, estão conseguindo manter margens elevadas com o câmbio e também com o alto preço das commodities.
“A TRS, principal consultora de energia elétrica do país, vê crescimento de 9% da demanda. O ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) vê crescimento de 2% da demanda, acreditando que a alta do preço será suficiente para reduzir a demanda”, contextualizou.
Gustavo Akamine, analista da Constança Investimentos, vai no mesmo caminho. “Hoje o Operador Nacional projeta que haverá carga suficiente, apesar de pouca. Mesmo com todas as medidas, o provável, caso não tenhamos chuva suficiente, é que algum tipo de interrupção aconteça”, comentou.
Investidor deve se atentar ao longo prazo
Conforme Akamine, o investidor, se chover ou não, deve se atentar a como essas empresas geradoras estão se posicionando para tornar suas produções menos dependentes das chuvas.
Dos 7,24 mil GWh produzidos pela Engie, 4,4 mil GWh são provenientes de energia hidrelétrica. A AES Brasil produziu no segundo trimestre 1,4 mil GWh através de fontes hídricas – queda de 43,2% na base anual – ante 525,5 GWh provenientes de eólicas e 137,7 GWh de fazendas solares. Enquanto a Cesp não possui um portfólio diversificado, tendo praticamente toda sua matriz dependente do regime hídrico.
Assim, em um cenário cada vez mais difícil – e imprevisível – quando se analisa os ciclos de chuvas, com as possíveis alterações climáticas impactando a previsibilidade, investir em diferentes fontes de energia, para essas companhias, é cada vez mais importante.
“O investidor, neste momento, tem de ficar de olho se haverá chuvas e quais medidas estão sendo tomadas a médio e longo prazo. O custo da energia térmica é muito caro e, provavelmente, no ano que vem as térmicas terão de ficar ligadas para bancar o consumo brasileiro. Todas as empresas de geração podem sofrer com isso. Quanto maios o preço da energia elétrica, aumentam as perdas, aumentam os não pagamentos e, além disso, há menor consumo”, finaliza Akamine.
E não são apenas as empresas que têm de ficar ligadas com esse assunto, mas o Brasil como um todo. A matriz energética brasileira tem, hoje, 63,8% de sua geração total de energia oriunda de hidrelétricas – poucas chuvas, então, ameaçam o país como um todo.
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