Em entrevista à XP Investimentos no sábado (28), o ministro da economia, Paulo Guedes, afirmou que a pandemia de coronavírus é um “meteoro” que caiu sobre o mundo e ninguém sabe ainda qual a sua amplitude. Nos últimos dias, diversos analistas vêm tentando estimar qual será seu resultado na economia e no mercado de trabalho e as opiniões são bastante divergentes.
Sobre o Produto Interno Bruto (PIB), as projeções falam até em um cenário de depressão (hoje o PIB é de 1,1%).
O desemprego, que vinha caindo lentamente nos últimos anos, tende a disparar, o que impacta no consumo das famílias e, consequentemente, no PIB. Mas quanto o desemprego irá avançar também divide opiniões e há especialistas falando em até 20 milhões de desempregados no Brasil.
Nos Estados Unidos, onde o período de contágio mais acelerado do vírus começou antes do que no Brasil, em uma única semana, 3 milhões de pessoas deram entrada no seguro-desemprego, o que dá alguma ideia sobre o tamanho da crise mundial que se apresenta.
Certeza: queda no emprego será pior do que em 2013
Na última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de desemprego se encontra, atualmente, em 11,2%. A tendência era de queda neste próximo trimestre, com a economia voltando a crescer em ritmo mais forte.
No entanto, com o “meteoro” que se abateu sobre a sociedade mundial, as projeções são desanimadoras. Para Rodolpho Tobler, economista da Fundação Getulio Vargas, ainda é muito cedo para fazer algum tipo de previsão quanto ao mercado de trabalho.
“O momento é de muita incerteza. O que se sabe, é que teremos uma mudança de tendência deste período de recuperação gradual do trabalho que vivíamos até então”, diz.
“A questão no momento é quanto tempo as empresas conseguem segurar o atual quadro de funcionários. A tendência mais clara é de redução do número de pessoal ocupado”, afirma.
O diretor-técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Fausto Augusto Junior, concorda. “É uma crise sem parâmetros. Nada se compara”.
“Passamos por uma das maiores recessões recentemente e o teto do desemprego bateu em 13 milhões de pessoas. Esta crise tem tudo para ser pior, por isso acredito que vamos ultrapassar este número. Mas tudo vai depender do tempo que ela durar. Três meses, seis meses, um ano? Tudo vai depender das escolhas que fizermos agora”, avalia.
Setores de alimentação e medicamentos devem sentir impacto menor
Os dois especialistas são unânimes em afirmar que todos os setores serão impactados. “Neste primeiro momento, os setores mais afetados parecem ser os que não são de produção de bens essenciais”, afirma Tobler.
“Os segmentos ligados a alimentação e artigos farmacêuticos devem sentir menos, tanto na produção e venda quanto prestação de serviços. Isto porque são itens que a população não tem como evitar o consumo”.
Trabalho informal tende a aumentar consideravelmente
Fausto Augusto Junior, do Dieese, aponta também para uma provável disparada da informalidade. “O mercado de trabalho brasileiro é tipicamente informal, com mais de 40% da mão de obra atuando desta maneira. E as pessoas vão ter que se virar para conseguir renda”, explica.
Ele classifica como especialmente muito críticas as situações de dois grupos: o dos mais vulneráveis e o dos trabalhadores informais. “Obviamente, os primeiros a sentir a crise serão os mais vulneráveis, como os moradores de rua, que ficarão sem qualquer tipo de auxílio, mesmo das entidades assistenciais”, diz. Em segundo, em sua opinião, sentirão a crise os informais, que representam praticamente metade da força de trabalho do país.
“Dentro do grupo dos informais, nós temos pessoas com condições diferentes de sobreviver à crise. Você tem os empreendedores, que tem acesso ao crédito, por exemplo, mas você tem também o pessoal de renda mais baixa, como ambulantes, faxineiras, domésticas e manicures. Para estes, a sensação é imediata. Não vendeu, não comeu”, resume.
Como lidar com o endividamento é chave para a crise
Na análise do diretor-técnico do Dieese, mais do que garantir que as empresas não quebrem, o governo precisa agir para garantir a subsistência das pessoas. “Se você mantiver um mínimo de renda para as pessoas, elas vão manter uma parte importante da economia funcionando. Se você não mantiver acesso à renda, aí sim as empresas vão quebrar”, analisa. “Vamos salvar as pessoas, em primeiro lugar, e depois pagar dívidas”, defende.
Ele exemplifica o raciocínio: “Imagine uma dona de salão de beleza que fechou e não pode pagar o aluguel. Mas este aluguel é a única fonte de renda de um outro senhor. No meu entender, o estado precisa suportar uma renda mínima para estas duas pessoas. Um mês, dois meses depois, ela vai reabrir o salão e vai renegociar o que ficou para trás. O senhorio perdoa a dívida ou ela parcela em muitas vezes, não sei”, diz.
E completa: “O que temos que fazer agora é, justamente, pensar em estratégias que permitam que a vida seja zerada ao final da crise. O que ficou para trás, vamos ter que resolver. Em alguns casos, o Estado terá que suportar as perdas. Em outros, a sociedade terá que suportar. Como lidar com o endividamento é a chave para saber se vamos sair bem ou mal desta crise”.
Sem a manutenção de uma renda, diz, o cenário poderá ser de convulsão social. “Nas épocas das grandes secas, a gente teve saques, zonas de exclusão. Parece coisa de apocalipse, mas já aconteceu. A gente realmente precisa de um colchão social que sustente o mínimo para as pessoas, porque este contingente é enorme. Nunca uma política de renda foi tão necessária”, enfatiza.
Ajuda de R$ 600 para informais
Nesta linha de garantir a renda das famílias, a Câmara dos Deputados aprovou, na última quinta-feira (26), a criação do auxílio emergencial de R$ 600 para trabalhadores informais.
O valor que seria votado, segundo o presidente da casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), era de R$ 500, mas o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que inicialmente havia proposto R$ 200, disse que aceitava aumentar a ajuda para R$ 600.
A votação foi simbólica, teve orientação favorável de todos os partidos e segue agora para ser votada no Senado.
Pelo projeto, podem receber o benefício, por até três meses, o trabalhador maior de 18 anos que não tenha emprego formal e cuja renda familiar mensal (soma dos rendimentos de todos os membros da mesma casa) seja de até três salários mínimos (R$ 3.135) ou de até R$ 519,50 por pessoa.
Cada família poderá dar entrada em até dois pedidos de auxílio. Caso a mãe seja a única trabalhadora responsável pelo lar, também terá direito ao valor de dois auxílios. Quem já recebe o Bolsa Família terá que optar por um dos dois benefícios no período.
Trabalho: outras medidas do governo
O governo vem anunciando também outras medidas que visam sustentar a manutenção dos empregos, como:
- Autorização para o teletrabalho;
- Flexibilização da jornada de trabalho e dos salários;
- Autorização para antecipação de férias;
- Antecipação do abono salarial;
- Flexibilização no uso do banco de horas, permitindo compensação de jornadas após a crise, com até dez horas de trabalho por dia;
- Diferimento (atraso) para o recolhimento do FGTS (governo vai arrecadar menos R$ 30 bilhões), em março, abril e maio;
- Diferimento, por parte da União, do Simples Nacional por três meses;
- Liberação de R$ 24 bilhões em linhas de crédito para pessoa física e R$ 48 bilhões para linhas de crédito para empresas.






