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Brasil: em meio ao caos da pandemia, a economia está reagindo

Brasil: em meio ao caos da pandemia, a economia está reagindo

Brasil: em meio ao caos da pandemia, a economia está reagindo e surpreendendo com bons resultados, melhor que os pares latino-americanos

Já são mais de 3,3 milhões de casos confirmados e 107 mil mortos. O gerenciamento da crise do novo coronavírus no Brasil é um desastre social histórico. Mesmo assim a economia do país está reagindo, graças a uma reabertura econômica mais rápida e medidas de estímulo temporárias.

A Bloomberg conversou com economistas e analistas e procurou destrinchar essa contradição.

Indicadores-chave, como produção industrial e vendas no varejo, superaram as expectativas do mercado.

Lojas e fábricas retomaram as operações e o governo gastou e ainda precisa gastar bilhões em ajuda de emergência.

Economistas que observam as tendências de mobilidade durante a pandemia também enxergam evidências de que a maior economia da América Latina está liderando a retomada.

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Gustavo Rangel, economista-chefe do ING Financial Markets para a região, apontou para a Bloomberg dados que mostram “uma recuperação mais rápida no Brasil” em comparação com seus vizinhos.

“O Brasil se beneficiou de manter certos setores da economia abertos”, disse Marco Oviedo, chefe de Pesquisa Econômica da América Latina do Barclays.

Ele advertiu, no entanto, que voltar ao trabalho não significa ignorar as recomendações de distanciamento social.

“Você tem que enviar uma mensagem de que a pandemia é algo sério”, disse.

Economia do Brasil deve cair menos

Os dados recentes levaram o presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, a considerar pessimista a previsão de sua própria instituição, de contração econômica de 6,4%.

Economistas ouvidos pelo BC apontam queda de 5,6%.

De qualquer forma, está bem à frente dos principais concorrentes regionais.

México e Argentina, que devem encolher 9,8% e 12,5%, respectivamente.

Setor de serviços

Na quinta-feira, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) forneceu mais evidências de que a economia estava se recuperando: a atividade do setor de serviços aumentou em junho em relação ao mês anterior pela primeira vez desde janeiro.

Depois de quatro meses de quedas, o setor de serviços teve avanço de 5% em junho.

Entretanto, na comparação com junho de 2019, a queda foi de 12,1%.

Em maio, a queda foi de 0,9%. Em abril, pior mês, tombo de 11,7%. Em março, queda de 6,9%.

E em fevereiro, quando a crise do coronavírus ainda nem tinha começado no país, a queda foi de menos 1%.

Segundo a Bloomberg, são os brasileiros voltando aos restaurantes e começando a voar novamente.

Há preocupações

Os investidores perceberam e elevaram o índice de ações de referência do Brasil em mais de 30% nos últimos três meses.

Mesmo assim, os economistas temem que a disseminação contínua do vírus possa prejudicar a recuperação econômica do Brasil.

E muitos alertam que números melhores do que o esperado podem ter mais a ver com programas de assistência em dinheiro do que com as restrições sendo relaxadas pelos governos estaduais e municipais.

Além disso, a produção por si só não determina uma economia saudável.

O número elevado de vítimas do vírus no Brasil fez com que alguns dos políticos mais preocupados com o mercado questionassem a insistência do presidente Jair Bolsonaro em “cuidar” dos empregos primeiro.

Para complicar ainda mais as coisas, dois assessores do ministro da Economia, Paulo Guedes, pediram demissão.

Isso levantou dúvidas sobre sua capacidade de realizar as reformas econômicas ambiciosas que ele diz serem necessárias para sustentar o crescimento no longo prazo.

Enquanto o líder de extrema-direita do Brasil pressiona para reabrir empresas, não importa o custo, os governos da América Latina estão todos lutando com o quanto de suas economias devem permanecer abertas, enquanto lutam contra o propagação do vírus.

“Você tem todos esses experimentos diferentes na região com diferentes graus de bloqueio, mas com pouco sucesso”, disse à Bloomberg Liliana Rojas-Suarez, diretora da Iniciativa para a América Latina no Centro para o Desenvolvimento Global.

“O problema é que simplesmente não é viável” o bloqueio nesses países, segundo ela.

Brasil lidera o caos na América Latina

Cinco países latino-americanos agora estão entre os 10 primeiros para casos de Covid-19.

Tirando o Brasil, com o pior quadro na região, e o segundo pior do mundo, há, na ordem, Peru, México, Colômbia e Chile entre os dez piores do mundo.

A Argentina, que foi corajosa em adotar uma forte quarentena, vem logo atrás, em 15º.

Ao menos, os argentinos enterraram bem menos compatriotas. Até aqui, 5.565. Menos de 2% em relação aos brasileiros mortos.

O problema Bolsonaro

O Brasil se destaca não apenas pelo número elevado e preocupante de casos, mas pela veemente oposição de Bolsonaro às medidas de quarentena, mesmo depois de ele próprio adoecer.

Além disso, Bolsonaro também desinforma, vendendo como eficaz um remédio, a cloroquina, que foi descartado no combate à Covid-19 em todo o mundo.

Bolsonaro, de 65 anos, desrespeitou os conselhos médicos generalizados que pediam o uso de máscaras e o distanciamento social, e defendeu a hidroxicloroquina, um medicamento antimalárico não comprovado, como uma cura eficaz.

Os críticos dizem que ele causou uma crise de saúde pública ao minimizar os perigos da doença enquanto se apressava para fazer a economia rolar novamente.

“Os bloqueios matam”, disse ele no mês passado. “Sem salários e empregos, as pessoas morrem”, insistiu.

Salvar empregos é particularmente difícil na América Latina, onde mais da metade da força de trabalho está desocupada.

O Barclays estima que mais de 27 milhões de postos já foram perdidos.

Para complicar ainda mais as coisas, as populações estão cada vez mais urbanas e muitas lutam para sobreviver o dia a dia.

Para alguns analistas, normalmente identificados com a esquerda, Bolsonaro só não foi defenestrado do cargo, porque ele defende a agenda que o mercado defende.

O mercado não se importa com quantas pessoas vão morrer, contando que o dinheiro continue circulando.

Contra a OMS

As restrições no Brasil foram sentidas principalmente nas grandes cidades.

Mas Bolsonaro entrou em confronto com governadores e prefeitos que tentaram manter os brasileiros em casa, complicando qualquer esforço de fiscalização.

O governo federal não criou protocolos nacionais de acordo com o orientado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), para quem, inclusive, desferiu algumas ofensas.

Pelo contrário, lavou as mãos.

Em outros lugares, os governos impuseram medidas muito mais rígidas.

Os bloqueios ainda estão em vigor no Chile e na Argentina.

Ambas as capitais, Santiago e Buenos Aires, tentaram suspender as quarentenas nos primeiros dias da pandemia apenas para aplicá-las novamente.

Colômbia e Peru mantiveram suas economias fechadas até abril.

E o México fechou todas as suas indústrias de construção e manufatura até junho.

Estímulos

As autoridades brasileiras forneceram cerca de R$ 300 bilhões a trabalhadores informais para compensar a falta de trabalho.

Os estipêndios, apelidados de “coronavoucher”, devem expirar no próximo mês e são em grande parte creditados por salvar o país de uma recessão mais longa e profunda.

Entretanto, esse não é um mérito de Bolsonaro e de seu governo, é do Congresso Nacional, que correu para aprovar os R$ 600, enquanto a equipe do governo propunha apenas R$ 200.

Independente disso, a população mais carente identifica os R$ 600 como obra de Bolsonaro e deu a ele uma aprovação inédita na última pesquisa Datafolha.

Pares latinos

Assim como seu homólogo brasileiro, o presidente mexicano Andres Manuel Lopez Obrador tem resistido a reprimir empresas e cidadãos que violam as recomendações das autoridades de saúde.

Mas seu governo preferiu a austeridade à injeção de dinheiro na economia e agora enfrenta uma perspectiva muito mais sombria.

No Chile, onde milhares foram presos por violar o toque de recolher, o governo buscou um dos pacotes de estímulo mais agressivos da região e permitiu que os chilenos sacassem suas pensões.

Isso está ajudando a elevar as previsões de uma contração de 6,5%, que seria uma das mais fortes na região, depois do Brasil, mesmo com grande parte de sua economia fechada.

Contudo, dada a incerteza em torno do vírus, os economistas ainda não escolheram uma estratégia vencedora.

Além disso, como aponta Alberto Ramos, chefe de pesquisas latino-americanas do Goldman Sachs, qualquer recuperação é relativa.

“Como esses números vêm após um colapso tão grande, não há razão para dar uma volta olímpica de comemoração”, disse ele.

No final, ficou a certeza que, ao contrário do que pregam os liberais, um Estado forte, injetando dinheiro na economia, quando ela precisa, é a melhor saída para manter a economia saudável.

Porque a iniciativa privada nada faria para salvar o Brasil nesse cenário.