Depois de anos priorizando a qualidade da rede em vez do tamanho dela, a Inditex, proprietária da Zara, voltou a abrir lojas no Brasil. O movimento é seletivo e concentrado, mas marca o fim de um ciclo de enxugamento que começou em 2021.
O grupo encerrou o ano fiscal de 2025 com 54 lojas no país, sendo 45 da Zara e nove da Zara Home. Desde então, somou duas unidades da Bershka e chegou a 56 endereços e mais de 3 mil funcionários em agosto.
A Zara retorna ao Barra Shopping Sul, em Porto Alegre, com uma loja de 2.643 metros quadrados, a maior da marca no Rio Grande do Sul. A Bershka, por sua vez, abre a terceira unidade brasileira em Brasília antes do fim do ano, depois de estrear em São Paulo em março e no Rio em agosto.
Todos os endereços têm um ponto em comum: são shoppings da Multiplan (MULT3). A escolha de Brasília se apoia em uma área de influência já testada, já que o ParkShopping recebeu 12 milhões de visitantes e vendeu R$ 1,84 bilhão em 2025, com 84% do público nas classes A e B.
“A estratégia global da Inditex é combinar lojas menos numerosas, maiores e mais produtivas com distribuição digital. Não se trata de crescer em número de endereços pelo número em si”, afirma Luiz Guanais, analista do BTG Pactual.
Uma Zara diferente
A operação brasileira que agora se expande não é a mesma que encolheu há cinco anos. Em 2021, a Zara fechou sete lojas menores que não tinham a infraestrutura necessária para integrar o físico e o online, e passou a concentrar esforços em pontos maiores.
Em outubro de 2025, a marca reabriu unidades redesenhadas de cerca de 2 mil metros quadrados em Curitiba e Porto Alegre. A loja do Barra Shopping, no Rio, está em processo de ampliação.
As novas lojas permitem ao cliente consultar estoque pela internet, localizar produtos dentro do espaço físico e retirar pedidos digitais. O ponto de venda passa a acumular duas funções, vender e distribuir.
“A combinação de lojas melhores, gestão de estoque mais apertada, integração digital e capacidade global de sourcing torna a Zara uma concorrente bem mais sofisticada no Brasil do que era alguns anos atrás”, diz Yan Cesquim, analista do BTG Pactual.
Shein abriu ainda mais a distância de preço
O mercado que a Inditex reencontra, contudo, ficou mais duro. O índice de vestuário do BTG acompanha 72,2 mil SKUs comparáveis, ante 70,1 mil em junho, distribuídos entre Renner (21,2 mil), C&A (8,3 mil), Riachuelo (5,5 mil) e Shein (37,1 mil).
A leitura mais direta está nos preços. A cesta comparável da Shein caiu para R$ 756, de R$ 939 em junho, enquanto a cesta média dos varejistas locais recuou menos, de R$ 1.427 para R$ 1.344.
O resultado é uma vantagem que se alargou rápido. A plataforma chinesa está agora 44% mais barata que a média local, ante 34% apenas três meses antes.
O Brasil segue caro também para quem compra Zara. No início de 2025, os produtos da marca custavam 7% menos aqui do que nos Estados Unidos, diferença que virava alta de 135% quando ajustada pela paridade do poder de compra.
Com o real mais forte nos últimos doze meses, a conta mudou de sinal. Os produtos da Zara estão hoje 3% mais caros no Brasil do que no mercado americano, ou 123% acima na comparação ajustada por PPP.
“Desde o primeiro Zara Index, em 2014, viemos apontando que o Brasil é um dos países mais caros para comprar roupa e um mercado difícil para o estrangeiro. Câmbio volátil, logística complicada, sistema tributário complexo e concorrentes locais bem estabelecidos explicam boa parte disso”, observa Beatriz Cendon, analista do BTG Pactual.
Bershka mira o consumidor que a Zara nunca alcançou
A chegada da Bershka vai além de somar pontos de venda. A marca atende o público de 13 a 25 anos, opera 854 lojas em 68 mercados e trabalha com preços bem abaixo dos da Zara, o que a coloca justamente na faixa disputada por Shein e, cada vez mais, H&M.
A Inditex tem posicionado a marca com cuidado. A primeira loja brasileira abriu com cerca de mil metros quadrados no Morumbi Shopping, seguida por uma unidade de mais de mil metros quadrados no Barra Shopping e agora Brasília, sempre em shoppings onde a Zara já gera dados de tráfego e de perfil de cliente.
A concorrência internacional não para por aí. A H&M deve alcançar 13 lojas no Brasil, espalhadas por três das cinco regiões do país, enquanto a Massimo Dutti segue com entrada prevista, ainda sem local ou data divulgados.
Para Renner (LREN3), C&A (CEAB3) e Riachuelo, da Guararapes (GUAR3), o cerco se fecha pelas duas pontas. De um lado, as plataformas cross-border com sortimento amplo e preço baixo no online. De outro, marcas globais desembarcando com proposta própria e operação mais eficiente.





