O interesse estratégico dos Estados Unidos pela Groenlândia voltou ao centro do debate geopolítico global em meio à corrida por matérias-primas críticas para a transição energética. Um estudo da consultoria Wood Mackenzie avalia que, apesar do potencial relevante em terras raras, os obstáculos técnicos, ambientais, políticos e geográficos tornam o desenvolvimento desses recursos um desafio complexo e de longo prazo.
A Groenlândia é estimada como o oitavo maior detentor de recursos de terras raras do mundo, em um momento em que economias ocidentais buscam reduzir a dependência da China — responsável por cerca de 60% da produção global e mais de 85% do processamento desses minerais. O território, no entanto, permanece sem minas em operação comercial, apesar de mais de uma década de atividades exploratórias.
Segundo a Wood Mackenzie, os projetos mais avançados estão concentrados na região ígnea alcalina de Gardar, no sul da ilha, com destaque para Kvanefjeld, da Energy Transition Metals (ETM), e Tanbreez, da Critical Minerals. Ainda assim, ambos permanecem em fases iniciais. Para Suzanne Shaw, chefe de Transição Energética e Matérias-Primas para Baterias da consultoria, “a existência de grandes recursos geológicos não significa viabilidade econômica automática”.
O primeiro grande entrave é geográfico. A Groenlândia possui um dos ambientes mais hostis do planeta para operações industriais.
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“O gelo permanente, as temperaturas extremas, a baixa luminosidade no inverno e o alto volume de neve tornam a mineração particularmente desafiadora”, afirma Shaw. Mesmo com projeções de recuo gradual da camada de gelo ao longo do século, a exploração seguirá limitada às áreas costeiras.
A infraestrutura é outro fator crítico. Apenas alguns portos no sudoeste operam durante todo o ano, e apenas Nuuk dispõe de estrutura moderna. Portos próximos aos depósitos minerais não foram projetados para exportações em larga escala, exigindo investimentos bilionários em logística, energia e transporte. Além disso, a população local é reduzida, o que obriga empresas a importar mão de obra altamente qualificada e especializada em operações em clima ártico.

No campo político e ambiental, a resistência à mineração é significativa. Em 2021, partidos com agenda ambiental forte obtiveram expressiva votação, enquanto leis restritivas — como a que limita a exploração de urânio — afetam diretamente projetos como Kvanefjeld.
“Qualquer avanço dependerá de padrões elevados de ESG, o que aumenta custos, complexidade regulatória e tempo de maturação dos projetos”, destaca Shaw.
O componente geopolítico adiciona uma camada extra de risco. A posição estratégica da Groenlândia permitiria suprir tanto EUA quanto União Europeia, contribuindo para metas do Critical Raw Materials Act europeu e para a segurança energética americana. Contudo, “isso exigiria cooperação transatlântica em um momento de tensões políticas crescentes”, observa a executiva.
A China, embora com participação limitada — cerca de 6,5% na ETM —, segue como potencial alternativa de financiamento e processamento. O governo local já sinalizou que atrasos por parte de parceiros ocidentais podem abrir espaço para maior envolvimento chinês.
Mesmo em um cenário de maior influência dos EUA, a Wood Mackenzie é cautelosa. “Ainda que haja aporte de capital, tecnologia e expertise americana, os fatores estruturais — clima severo, custos elevados, infraestrutura inexistente e escassez de mão de obra — continuarão sendo os principais limitadores”, conclui Suzanne Shaw.
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