A “desfinanceirização”, como muitos pensam, não é um retorno à normalidade. Ela é, sim, a transição para uma economia moldada por rivalidades geopolíticas, cadeias de suprimento estratégicas e política industrial em grande escala.
Nas palavras de um relatório assinado por Michael Every, estrategista global sênior do Rabobank, trata-se de um ambiente em que a velha ortodoxia de mercado cede lugar à “era de mapas, mineração e mercantilismo”, um mundo no qual “o jogo pelos recursos entre EUA e China continuará e afetará a todos.”
Segundo Every, mercados ainda tratam esse reposicionamento como ruído, mas o tabuleiro está mudando.
“A desfinanceirização não significa paz – significa preparação para a guerra. Não significa livre comércio – significa blocos comerciais. Não significa mercados livres – significa libertar os mercados do foco em lucros de curto prazo. Não significa taxas de juros mais altas e gastos fiscais menores – significa taxas de juros mais baixas e gastos fiscais maiores para coisas diferentes: consumidores e “mapas, mineração e mercantilismo”. Não significa correlações herdadas – significa novas”, aponta Every.
A geopolítica
No campo geopolítico, a agenda se traduz em reordenação de fluxos críticos – do petróleo e metais aos semicondutores. Every lembra que “Venezuela e Irã são precisamente o que foi sinalizado” ao se prever a “disrupção de insumos a montante para a China”, um espelho do poder chinês sobre terras raras, processamento intermediário e manufatura.
Ao mesmo tempo, a Europa encara um desafio duplo: reconstruir capacidades de defesa – “não se pode ter 27 exércitos agindo como um só” – e assegurar matérias-primas “baratas” em um mercado cada vez mais politizado.

Tarifas e controle estatal
No plano de políticas, a desfinanceirização aparece como um abandono de décadas de neoliberalismo e da primazia do mercado financeiro. O autor descreve um Ocidente – em especial os EUA – que “vai rodar a economia no quente em alguns setores”, com tarifas, controle de preços e participação estatal estratégica.
Ele cita medidas como tarifas de 25% relacionadas a negócios com o Irã, iniciativas para um “Pax Silica” com parceiros como Qatar, Emirados e Índia, articulação do G7 sobre cadeias de terras raras e um provável acordo comercial com Taiwan de forte sinal geopolítico. Do outro lado, “a China vai priorizar controles de exportação e segurança de cadeia”, indicando que a fragmentação comercial veio para ficar.
Livre comércio?
Every também aponta a dissociação entre discurso e capacidade de dissuasão em países europeus, do Ártico ao Índico, e alerta para a insuficiência de cronogramas de gastos militares frente a rivais que aceleram.
Esse contexto reforça a tese central: a desfinanceirização, sobretudo para consumidores e para a infraestrutura geoeconômica que assegura suprimentos críticos.
Mercados
Nos mercados, os sinais são ambíguos: ouro e prata em máximas históricas refletindo busca por proteção; cobre elevado pelo realinhamento industrial; e petróleo contido por movimentos geopolíticos compensatórios.
Ao mesmo tempo, a ofensiva regulatória e industrial – do bloqueio de M&As que encarecem a vida ao teto de juros de cartão, passando por participações estatais em aço, semicondutores e energia – indica a tentativa de “libertar” os mercados do foco em “lucros de curto prazo”, como diz Every, realocando capital para prioridades estratégicas.
Em síntese, a desfinanceirização de que fala Michael Every não é um meme – é a reengenharia da economia global sob pressão de segurança nacional. “Se o status quo da financeirização parecia funcionar no papel”, agora a prova é de força real: quem mapeia, minera e pratica o mercantilismo define as próximas correlações – e os vencedores.
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