O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, declarou em uma entrevista à “Folha de S.Paulo” que o governo federal tem capacidade para entregar um déficit fiscal menor do que o atualmente precificado pelos agentes econômicos.
“O mercado tem um número de déficit projetado hoje de 0,7% e 0,8% do PIB, e acho que o governo tem condições de entregar um número melhor do que esse. Estou otimista em relação ao que o mercado está achando”, disse, após notar que o cenário fiscal é uma variável que está diretamente ligada à política monetária.
Roberto Campos Neto sobre o PIB
Campos Neto também observou, em relação à política monetária, após o IBGE divulgar que a economia brasileira cresceu 2,9% em 2023, que um crescimento muito forte do PIB, que começa a gerar pressões inflacionárias, é motivo de preocupação para o Banco Central.
“Mas o que observamos no ano de 2023? Diversas revisões de inflação para baixo e diversas revisões de PIB para cima“, diz. “O que a gente está vendo agora? Temos uma preocupação com a inflação de serviços e com o efeito de salários. Estamos vendo os salários subirem um pouquinho mais, e como é que isso impacta a inflação de serviços? A gente tenta fazer uma diagramação olhando todos os setores.
PIB do Brasil cresce 2,9% em 2023 com alta recorde do setor agropecuário
Roberto Campos Neto sobre a Selic
Quanto ao impacto de um mercado de trabalho mais apertado do que o previsto, o presidente do banco central observa que esse fenômeno tem sido observado em diversos países, não apenas no Brasil, desde a pandemia. Ele destaca que o Banco Central reconhece a necessidade de mais tempo para avaliar se há de fato uma influência nos preços dos serviços decorrente dos salários.
Diante disso, e com o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) adiando o início de seu ciclo de flexibilização após dados robustos de atividade econômica nos Estados Unidos, o executivo afirma que ainda não é possível prever qual será o patamar da taxa Selic ao final desse ciclo de relaxamento monetário.
“O processo de desinflação ainda está em curso. Se a taxa vai terminar em um dígito ou não depende de muita coisa, inclusive da parte externa“, complementa.
Detalhes da entrevista
A entrevista ocorreu após uma reunião entre Campos Neto e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, no contexto da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) que visa ampliar a autonomia do Banco Central. O diálogo entre as partes foi interrompido quando o presidente da autoridade monetária local começou a articular sobre o tema no Congresso.
“Eu tentei dar conforto para ele, que o BC tem flexibilidade, que a gente pode discutir, que nada vai ser feito à revelia. E que é importante o governo estar de acordo com a nossa proposta, que é um avanço institucional para o Brasil. Coloca o BC e o país em um nível superior“, afirmou.
Recentemente, Roberto Campos Neto declarou que o Banco Central está “derretendo”, uma expressão que ele utilizou para descrever a saída de quadros do banco. Ele relatou que, ao mesmo tempo em que alguns funcionários optaram por migrar para o setor privado, também houve um movimento de devolução de cargos de comissão.