A reeleição de Lula – presidente Luiz Inácio Lula da Silva – pode provocar uma queda de 17% do Ibovespa, levando o principal índice da bolsa brasileira para perto dos 170 mil pontos, além de pressionar o real e dificultar novos cortes de juros no país. A avaliação é do BTG Pactual (BPAC11), que prevê uma reação negativa dos ativos brasileiros nas próximas semanas diante das perspectivas para a política econômica do novo governo.
Segundo o relatório do banco, o real pode se desvalorizar entre 10% e 15%, ampliando para aproximadamente 30% a queda do Ibovespa quando medido em dólares. O cenário considera uma combinação de juros de longo prazo mais elevados, enfraquecimento da moeda brasileira e maior dificuldade para o Banco Central avançar no ciclo de flexibilização monetária.
O BTG destaca que o Ibovespa, excluindo Petrobras (PETR4) e Vale (VALE3), negocia atualmente a 10,9 vezes o lucro projetado para os próximos 12 meses, indicador conhecido como P/L futuro. O múltiplo representa um desconto de 8,4% em relação à média histórica. Mesmo assim, o banco espera que o índice recue para um patamar equivalente a um desvio-padrão abaixo dessa média, o que corresponde a cerca de 170 mil pontos.
Juros sob pressão
A perspectiva de desvalorização do real, combinada com a elevação dos juros reais de longo prazo e a possibilidade de desancoragem das expectativas de inflação, pode limitar a atuação do Banco Central. Na avaliação do BTG Pactual, essas condições dificultariam uma redução mais agressiva da taxa Selic.
A pesquisa Focus aponta para uma Selic de 12% ao fim de 2027, o que representaria uma redução de 1,75 ponto percentual. Entretanto, o banco avalia que, dependendo da condução da política fiscal pelo governo, até mesmo essa trajetória de queda dos juros pode se mostrar excessivamente otimista.
Nesse contexto, a formação de uma equipe econômica considerada confiável pelo mercado e a apresentação de sinais concretos de disciplina fiscal seriam fundamentais para abrir espaço a uma política monetária mais favorável.
Ações para enfrentar a volatilidade
Apesar do cenário negativo para a bolsa, o BTG Pactual identifica oportunidades em empresas exportadoras, companhias pouco endividadas e setores considerados defensivos. A perspectiva de enfraquecimento do real tende a beneficiar negócios com receitas em moeda estrangeira, especialmente aqueles com custos predominantemente em reais.
Entre as empresas que podem se destacar estão Gerdau (GGBR4), Suzano (SUZB3) e Vale, ligadas a commodities metálicas; PRIO (PRIO3), do setor de petróleo e gás; SLC Agrícola (SLCE3), 3tentos (TTEN3) e São Martinho (SMTO3), expostas a commodities agrícolas; além de WEG (WEGE3) e Embraer (EMBR3), com atuação internacional.
O banco também aponta para possíveis desempenhos superiores de empresas com balanços sólidos e baixa alavancagem, especialmente em setores mais resilientes aos ciclos econômicos. Nesse grupo, aparecem as seguradoras Caixa Seguridade (CXSE3) e Porto Seguro (PSSA3), além da fabricante de bebidas Ambev (ABEV3).
Entre as empresas de maior capitalização, o BTG destaca Petrobras e Itaú. A petroleira reúne exposição ao dólar, ligação direta com o mercado internacional de petróleo e histórico de distribuição de dividendos. Já o Itaú é apontado pelo banco como a instituição financeira mais bem posicionada entre os grandes bancos brasileiros para atravessar um período de maior instabilidade.
Congresso impõe desafios
Além dos efeitos sobre os mercados, o relatório avalia que a reeleição de Lula mantém a esquerda politicamente relevante, mas não elimina a necessidade de negociações com partidos de centro para viabilizar a agenda do governo no Congresso Nacional.
O levantamento destaca o avanço de partidos de direita e centro-direita nas eleições legislativas e estaduais. O PL, partido de Jair Bolsonaro, conquistou 19 novas cadeiras no Senado, passando a controlar 28 das 81 vagas. Considerando senadores alinhados à agenda política do ex-presidente, esse contingente poderia alcançar entre 40 e 43 parlamentares.
Na Câmara dos Deputados, o PL elegeu 121 deputados, equivalentes a 24% do total. Com a inclusão dos partidos aliados, a coalizão ligada a Bolsonaro chegou a 203 cadeiras, ou 40% da Casa. Os partidos de esquerda somaram 125 deputados, enquanto as legendas de centro ficaram com 179 vagas.
Para o BTG Pactual, a composição do Congresso indica que a aprovação de medidas relevantes dependerá de negociações com o centro político. Esse quadro, somado às incertezas sobre a política fiscal, reforça os riscos para os ativos brasileiros após a reeleição de Lula.
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