Home
Notícias
Economia
Petróleo “compra tempo” para Brasil corrigir trajetória fiscal, diz BofA

Petróleo “compra tempo” para Brasil corrigir trajetória fiscal, diz BofA

Bank of America estima que ganho fiscal líquido chega a R$ 100 bilhões, ou 0,8% do PIB, após descontar medidas de contenção de preços de combustíveis já em vigor

A disparada nos preços do petróleo provocada pelo conflito entre Estados Unidos e Irã abre uma janela fiscal relevante para o Brasil, mas o benefício líquido para as contas públicas será significativamente menor do que o impacto bruto sugere. É o que avalia o Bank of America em relatório sobre os efeitos do choque do petróleo na trajetória fiscal brasileira.

Segundo os economistas do banco, num cenário em que o Brent se estabilize em US$ 93 por barril — ante os US$ 65 por barril do período pré-conflito —, o impacto bruto sobre as receitas federais chegaria a aproximadamente R$ 137 bilhões por ano.

“Sob nossas premissas atuais, um mundo com petróleo a US$ 93 por barril sugere cerca de R$ 137 bilhões por ano em tailwinds brutos de receita federal, enquanto os preços permanecerem nesse nível”, apontam os economistas.

Quatro canais de receita

O governo federal captura os ganhos do petróleo por quatro vias principais: royalties, participações especiais, impostos corporativos e dividendos da Petrobras.

Publicidade
Publicidade

“Royalties são compensações financeiras pagas pela exploração de recursos de petróleo e gás, calculadas como percentual do valor bruto da produção — diretamente proporcionais aos preços e volumes”, explicam os economistas do banco.

Receitas adicionais em 2026 devido ao aumento dos preços do petróleo (em bilhões de reais)

Cerca de 40% das receitas da exploração de recursos naturais fluem para o governo federal, segundo dados históricos.

As participações especiais são ainda mais sensíveis ao ciclo de preços.

“As participações especiais funcionam como um quasi-imposto sobre ganhos inesperados em campos altamente produtivos, com alíquotas progressivas aplicadas às receitas líquidas — exibindo comportamento não linear durante períodos de alta de preços”, detalham os analistas.

Dos R$ 137 bilhões estimados, aproximadamente R$ 123 bilhões viriam de royalties, participações especiais e impostos, e cerca de R$ 14 bilhões dos dividendos ordinários da Petrobras. Em proporção do PIB, o impacto representaria cerca de 1% em 2026, antes de considerar compensações e respostas de política.

Subsídios e vinculação reduzem o ganho líquido

O benefício fiscal, porém, enfrenta dois limitadores importantes. O primeiro são as regras de vinculação de receitas, que restringem o uso imediato dos recursos para melhorar o resultado primário.

“Embora episódios passados mostrem que as regras de vinculação podem ser flexibilizadas, fazê-lo normalmente requer capital político e mudanças legislativas”, ressaltam os economistas.

O segundo limitador é a resposta de política econômica. “A função de reação de política pode reciclar receitas do petróleo de volta para medidas de mitigação”, alertam os analistas. O projeto de lei PLP 114/2026 institucionaliza esse mecanismo ao vincular explicitamente as receitas extraordinárias do petróleo a desonerações tributárias sobre combustíveis.

“Isso institucionaliza o vínculo entre preços mais altos do petróleo e estabilização dos preços dos combustíveis, em vez de permitir que todas as receitas adicionais fluam para o resultado primário”, observam os economistas do BofA.

Na prática, apenas as medidas de contenção do preço do diesel já custam cerca de R$ 30 bilhões em 2026.

“Assumindo um pacote de diesel em vigor até o fim do ano e um corte hipotético de R$ 0,30 por litro na gasolina até dezembro, os custos totais de mitigação chegariam a cerca de R$ 40 bilhões em 2026”, calculam os analistas. Com isso, o ganho fiscal líquido estimado seria de aproximadamente R$ 100 bilhões, ou 0,8% do PIB.

Tempo comprado, não tendência revertida

Do ponto de vista da sustentabilidade da dívida, o banco é categórico: os preços mais altos do petróleo ajudam na margem, mas não mudam o quadro estrutural.

“Preços do petróleo persistentemente elevados podem comprar tempo e suavizar a trajetória fiscal de curto prazo, mas não alteram materialmente a trajetória de médio prazo da dívida brasileira”, concluem os economistas.

“Ausente reformas que enderecem a rigidez dos gastos obrigatórios, fortaleçam as instituições fiscais e ancorem as expectativas em torno do arcabouço de política, as receitas relacionadas ao petróleo sozinhas são insuficientes para colocar a dívida pública em uma trajetória decididamente declinante”, encerram os analistas do Bank of America.