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Ouro destrona o dólar pela primeira vez em 40 anos

Ouro destrona o dólar pela primeira vez em 40 anos

Análise do Deutsche Bank traça o caminho que levou o ouro a superar os Treasuries e aponta para preços de até US$ 8.000 nos próximos cinco anos

O ouro acaba de conquistar um feito histórico: pela primeira vez em quatro décadas, o valor total do estoque mundial do metal precioso superou o valor de mercado da dívida pública americana (Treasuries) negociável.

O dado, destacado em relatório do Deutsche Bank Research Institute publicado nesta segunda-feira (27), sintetiza uma transformação silenciosa e profunda na arquitetura financeira global — e coloca em xeque a supremacia do dólar como reserva de valor universal.

Segundo os analistas Mallika Sachdeva e Michael Hsueh, autores do estudo, o fenômeno não é acidente. “O fim da história chegou ao fim”, escrevem eles, em referência à tese do filósofo Francis Fukuyama, que em 1989 celebrou a vitória do liberalismo ocidental com o colapso soviético. Para os analistas do banco alemão, o mundo voltou a um estado de disputa entre superpotências — e o ouro é o principal termômetro dessa mudança.

Valor do ouro negociável excedeu os Treasuries pela primeira vez em 40 anos

Gráfico ouro dólar
(Imagem: Deutsche Bank)

Queda do dólar

Os números são eloquentes. A participação do dólar nas reservas globais dos bancos centrais caiu de mais de 60% para apenas 40%. No mesmo período, a fatia do ouro triplicou, chegando a 30% atualmente.

“A parcela do dólar nas reservas dos bancos centrais está novamente em declínio”, afirmam Sachdeva e Hsueh, “enquanto a participação do ouro triplicou desde suas mínimas.”

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O movimento é liderado pelos mercados emergentes. Desde a crise financeira global de 2008, os bancos centrais de países em desenvolvimento acumularam mais de 225 milhões de onças troy do metal — volume superior ao que os bancos centrais de economias avançadas venderam nos anos 1990. “Todos os bancos centrais que compram ouro estão nos mercados emergentes”, destacam os analistas.

A aceleração ganhou impulso após 2022, quando o congelamento das reservas russas em dólares e euros expôs a vulnerabilidade de manter poupanças externas em moeda americana.

“A weaponização do sistema bancário dominado pelos EUA aumentou o apelo de guardar ouro, que pode ser mantido fisicamente e localmente, fora do alcance de sanções”, escrevem Sachdeva e Hsueh. Não por acaso, Rússia e China mantêm 100% de seu ouro em território nacional.

Nova ordem monetária

O Deutsche Bank traça cenários ousados para o preço do ouro. Mesmo num ambiente em que as reservas cambiais emergentes caiam para US$ 5 trilhões, “os preços do ouro ainda poderiam subir para US$ 8.000 nos próximos cinco anos, se os países emergentes almejarem uma participação de 40% em ouro”, projetam os autores.

No longo prazo, o relatório levanta uma hipótese ainda mais disruptiva: o ouro como âncora de uma nova ordem monetária independente do dólar. Os analistas apontam discussões em curso sobre uma moeda dos BRICS parcialmente lastreada em ouro e iniciativas como o Project mBridge, que já atingiu viabilidade mínima para liquidações internacionais via moedas digitais de bancos centrais.

“O ouro é agora uma classe de ativos maior do que o principal ativo seguro do mundo”, concluem Sachdeva e Hsueh. A história, ao que tudo indica, voltou — com o metal mais antigo do mundo na dianteira.

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