Guerras, disputas comerciais, corrida por recursos estratégicos e o enfraquecimento da ordem internacional construída nas últimas décadas estão tornando o mundo mais instável. Para o cientista político Heni Ozi Cukier, conhecido como Professor HOC, compreender essa mudança deixou de ser assunto restrito a governos e especialistas em relações internacionais. O novo cenário também precisa entrar no planejamento das empresas.
Durante a palestra “Guerras, Tarifas e Democracias Rachadas: Quais Impactos para os Negócios?”, na Money Week 2026, HOC apresentou um cenário no qual conflitos e disputas de poder ganham espaço nas decisões econômicas. “Estamos saindo do mundo multilateral para a multipolaridade”, afirmou.
A mudança, segundo ele, traz consequências importantes. Em um sistema com vários polos disputando influência, poder econômico e capacidade militar, aumenta a dificuldade de prever os próximos movimentos internacionais. Na avaliação do professor, quanto mais multipolar se torna o mundo, maior tende a ser sua instabilidade.
Guerra Fria 2.0 ganha contornos de conflito aberto
Um dos conceitos usados por HOC para explicar o momento atual foi o de uma “Guerra Fria 2.0”. Diferentemente da disputa entre Estados Unidos e União Soviética no século passado, porém, a rivalidade contemporânea convive com guerras abertas, tensões comerciais e diferentes focos de conflito acontecendo simultaneamente.
Na avaliação apresentada pelo professor, a Guerra Fria ganhou características de uma “guerra quente”. Rússia, Estados Unidos, China, Europa e países do Oriente Médio participam de um tabuleiro no qual interesses econômicos, militares e territoriais se cruzam.
HOC chamou atenção, inclusive, para a possibilidade de uma nova escalada envolvendo a Rússia e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). “Rússia deve atacar a OTAN. O local mais provável são os países bálticos, com a Lituânia sendo o alvo mais provável”, afirmou.
Segundo o professor, movimentações diplomáticas e de inteligência precisam ser observadas como sinais desse ambiente. Ele citou contatos entre autoridades americanas e Moscou como elementos relevantes para interpretar os próximos passos do governo de Vladimir Putin.
A avaliação representa uma projeção de HOC sobre o cenário geopolítico, e não a confirmação de que uma ofensiva ocorrerá.
Estreito de Ormuz expõe limites do poder das grandes potências
As tensões no Oriente Médio também foram usadas para demonstrar como a capacidade de influência das potências tradicionais enfrenta novos limites.
“Hoje a maior marinha, a maior potência naval do mundo não consegue reabrir uma das maiores passagens de navegação internacional, que é o Estreito de Ormuz”, disse HOC.
A importância de pontos estratégicos como Ormuz ajuda a explicar por que conflitos geograficamente distantes podem rapidamente chegar ao caixa das empresas. Rotas marítimas são fundamentais para o transporte de petróleo, matérias-primas, alimentos e produtos industrializados. Quando uma passagem relevante é ameaçada ou interrompida, os efeitos podem aparecer nos custos logísticos, na energia, nas cadeias de suprimentos e, posteriormente, nos preços.
É justamente nesse ponto que a geopolítica deixa de ser uma discussão abstrata para o setor privado.
Tarifas viraram instrumento de defesa econômica
A disputa global também acontece fora dos campos de batalha. Para HOC, a expansão industrial chinesa ajuda a explicar o avanço de medidas protecionistas em diferentes economias.
“A China já produz ‘todos’ os carros do mundo e quer produzir os tênis da Nike. Ela ainda não produz avião, mas quer dominar todos os setores da indústria”, afirmou.
Segundo ele, essa expansão pressiona setores industriais de outras economias, especialmente na Europa, e ajuda a alimentar respostas comerciais. “A indústria automobilística alemã está fechando. Os sindicatos estão pressionando. E qual a resposta da Europa? Tarifas contra a China”, acrescentou.
Nesse ambiente, tarifas deixam de funcionar apenas como instrumentos econômicos e passam a integrar estratégias de segurança e poder. Preservar determinados setores produtivos também significa manter capacidade tecnológica, empregos, infraestrutura e autonomia nacional.
A própria capacidade militar depende dessa base. Como resumiu HOC, “sem economia forte você não tem dinheiro para gastar em defesa”.
Brasil pode ganhar importância no novo tabuleiro global
Se o mundo multipolar amplia riscos para empresas e investidores, HOC vê o Brasil em uma posição incomum para atravessar esse período. Recursos naturais, produção de alimentos, energia renovável e reservas minerais colocam o país em uma posição estratégica diante das necessidades das grandes potências.
“O Brasil tem uma vantagem gigantesca porque tem energia renovável para dar e vender”, afirmou. O professor destacou ainda as terras raras, minerais fundamentais para setores tecnológicos, energéticos e de defesa. “Terras raras são a coisa mais estratégica do mundo. E o Brasil tem em abundância”, disse.
Na avaliação de HOC, a América do Sul também ganhou relevância no tabuleiro geopolítico. Além da disponibilidade de recursos, o Brasil conta com uma vantagem geográfica: está distante dos principais focos atuais de conflito entre grandes potências.
O professor comparou essa condição à posição dos Estados Unidos durante as duas guerras mundiais, quando o território americano ficou distante da destruição observada em partes da Europa e da Ásia.
“Se tivermos algo assim, a destruição não chegará no Brasil. Estamos em um lugar abençoado”, afirmou.
Recursos estratégicos exigem decisões de longo prazo
A posição privilegiada, porém, não elimina a necessidade de estratégia. HOC defendeu que recursos considerados essenciais para o futuro da economia não sejam tratados apenas pela lógica de curto prazo.
Segundo ele, o país precisa evitar a concentração da exploração de ativos estratégicos nas mãos de uma única potência e aproveitar parcerias internacionais para desenvolver capacidade própria. Nesse processo, empresas privadas brasileiras podem exercer um papel relevante ao estabelecer sociedades com grupos estrangeiros e ampliar a transferência de tecnologia.
Para HOC, são justamente os ativos brasileiros que podem transformar o país em uma peça ainda mais relevante na disputa internacional. “Somos um dos maiores produtores de alimentos do mundo. Temos o maior ativo ambiental do planeta Terra. Somos um grande produtor de energia renovável e temos a segunda maior reserva dos ativos mais estratégicos do mundo hoje, que são as terras raras”, afirmou.
Em um cenário marcado por guerras, tarifas e competição entre potências, a mensagem para os negócios é que localização, acesso a energia, cadeias de fornecedores, parceiros comerciais e recursos naturais passam a ter peso cada vez maior nas decisões empresariais.
O mundo multipolar descrito por HOC pode ser mais perigoso. Para o Brasil, no entanto, também pode abrir uma janela rara de oportunidade. Segundo o professor, poucos momentos da história recente colocaram o país em posição tão favorável. Transformar essa vantagem geográfica e natural em crescimento econômico dependerá de como empresas e poder público responderão a uma ordem internacional cada vez menos previsível.






