O próximo ano pode ser de baixo crescimento no Brasil, e o resultado da eleição presidencial não muda esse diagnóstico. A avaliação é de Mansueto Almeida, economista-chefe do BTG Pactual e secretário do Tesouro Nacional entre 2016 e 2019, em painel da Money Week 2026 conduzido pela jornalista Christiane Pelajo.
A conta que ele faz parte da combinação entre juro no patamar atual, famílias endividadas e uma base de comparação inflada por gasto público antecipado.
“Ano que vem vai ser um ano difícil independentemente de quem seja o presidente da República”, disse Mansueto Almeida.
Recessão, na leitura dele, ainda não está contratada. Depende do que o próximo governo fizer com a despesa.
“Precisamos de um governo que mostre como segurar o crescimento do gasto público. Com taxa alta, endividamento das famílias, podemos ter PIB negativo”, afirmou o economista.
Quanto da nossa taxa de juros veio de fora
O BTG Pactual mediu a influência externa sobre a curva brasileira. O resultado do estudo aponta que 40% da alta recente dos juros se explica pelo movimento das taxas nos Estados Unidos.
Mansueto, contudo, não usa o número como atenuante. A origem principal do problema, para ele, continua sendo interna, e passa pela expansão da despesa e por uma trajetória de crescimento da dívida que classificou como insustentável.
“A maior parte dos juros é uma questão nossa, uma parte pequena é culpa dos Estados Unidos”, apontou Mansueto.
O que ancora o resto da conta é a expectativa de inflação. E ela responde menos ao noticiário externo do que à percepção de que existe ou não um plano para a despesa pública.
O que chega dos Estados Unidos
A situação fiscal americana também entrou na avaliação. Um agravamento por lá, segundo o economista, não interessa a ninguém, e a indefinição sobre o Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, tende a jogar volatilidade sobre os emergentes.
O efeito sobre o Brasil, porém, depende da posição em que o país estiver quando o ruído chegar. Sem clareza fiscal doméstica e com sinalização adversa vinda de Washington, a combinação piora.
O câmbio ilustrou o ponto. O dólar passou por um período de fraqueza e depois se valorizou, movimento que Mansueto atribuiu quase inteiramente a fatores externos, com pouco mérito de política doméstica.
Tarifas atingem setores específicos
Do lado comercial, o impacto americano não se espalha de forma uniforme. Calçados, confecção e madeira concentram o desconforto.
Mansueto defendeu que o caminho não é retaliação, e sim argumento. O poder de negociação brasileiro, segundo ele, cresce quando o país aprende a se vender melhor e a mostrar o que oferece.
“Os Estados Unidos precisam entender que se aliar com o Brasil é bom para eles”, observou o ex-secretário do Tesouro.
O PIB que a agricultura segura
Enquanto a indústria e os serviços perdem tração, um setor mantém ritmo. O agronegócio vem entregando as maiores safras dos últimos quatro anos e responde por quase metade do crescimento da economia.
Mansueto creditou o desempenho ao investimento em tecnologia acumulado ao longo de décadas, e classificou a agricultura como o único setor que cresce de forma consistente no país.
O contraste com o restante da economia expõe o custo do juro. Com a maior taxa real do mundo, a atividade perde força trimestre a trimestre.
Parte do desempenho de 2026 tem explicação de calendário. O ano eleitoral concentrou despesa pública e antecipou gastos que ficariam para depois.
O efeito colateral aparece em 2027. A economia começa o ano com juro alto e sem o mesmo impulso fiscal, o que reduz a margem para surpresa positiva.
O que separa o Brasil de hoje do de dez anos atrás
Apesar do quadro, Mansueto rejeitou a leitura de que o país piorou. A taxa de juros está mais alta, mas a estrutura da economia mudou com as reformas aprovadas na última década.
O limite, para ele, é de resistência. As empresas já mostram deterioração de balanço, sinal de que o custo do dinheiro não se sustenta por muito tempo no nível atual.
“Com ajuste fiscal crível os juros caem rapidamente”, afirmou Mansueto Almeida.






