A produção industrial brasileira cresceu 0,9% na passagem de janeiro para fevereiro, com avanço disseminado entre setores — mas o dado mais relevante do momento é o forte recuo na confiança do empresariado no setor industrial, que atingiu o pior nível desde junho de 2020, indicando deterioração das expectativas para os próximos meses.
Segundo relatório do BB Investimentos, o desempenho mensal positivo reflete, em grande parte, a recomposição de estoques após perdas registradas no fim de 2025. No acumulado do ano, a indústria avança 3%, embora ainda registre queda de 0,7% na comparação anual, evidenciando um ambiente ainda pressionado.
O crescimento foi observado em todas as grandes categorias econômicas e em 16 dos 25 ramos pesquisados pelo IBGE. Entre os destaques positivos estão os segmentos de veículos automotores, com alta de 7%, e derivados de petróleo e biocombustíveis, que avançaram 3%.
Por outro lado, setores como farmacêutico, com queda de 6%, e metalurgia, com retração de 1,7%, exerceram pressão negativa sobre o índice geral. Ainda assim, o movimento de alta mensal sugere uma recuperação técnica, mais ligada ao ciclo de estoques do que a uma melhora estrutural da demanda.
Sinais mistos
Indicadores da Confederação Nacional da Indústria reforçam a leitura de um cenário heterogêneo. Em fevereiro, o faturamento real e o número de horas trabalhadas cresceram frente a janeiro, mas variáveis como emprego, massa salarial, rendimento médio e utilização da capacidade instalada permaneceram estáveis.
Na avaliação do BB Investimentos, esse descompasso pode indicar aumento de preços, mudança no mix de produtos ou redução de estoques — hipótese reforçada por sondagens da CNI, que apontaram estoques efetivos abaixo do planejado no período.
Confiança em baixa
O ambiente mais desafiador também se reflete no Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI), que permanece abaixo dos 50 pontos desde janeiro de 2025, sinalizando pessimismo disseminado tanto nas condições atuais quanto nas expectativas.
As sondagens industriais indicam piora nas perspectivas para investimentos, demanda e exportações, reforçando o tom cauteloso do setor. No mercado de trabalho, o quadro também é negativo: fevereiro de 2026 foi o pior mês para criação de vagas industriais desde o início da série acompanhada, segundo dados do Caged.
Pressão externa e crédito
No comércio exterior, o aumento das importações ampliou o déficit em volume frente às exportações, pressionando ainda mais a indústria local. Esse cenário ajuda a explicar o crescimento do saldo de crédito ao setor, inclusive em bens de capital, mesmo diante de juros elevados.
De acordo com o relatório, parte relevante desse crédito pode estar sendo direcionada à rolagem de dívidas e ao capital de giro, em detrimento de novos investimentos — sinalizando cautela das empresas diante das incertezas.
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