Saber exatamente o destino não significa conhecer todo o caminho. Para o navegador Amyr Klink, essa lógica, aprendida em décadas de expedições pelo mundo, também ajuda a entender decisões financeiras, profissionais e familiares.
“Eu vi centenas de imprevistos, mas acho que essa é a beleza de navegar. A gente sabe onde está, a gente não sabe o caminho que vai fazer, mas sabe aonde quer chegar”, afirmou.
A reflexão marcou a palestra “Geração Global: O Legado da Família Klink”, realizada durante a Avenue Connection 2026. Ao lado da filha Marina Helena Klink, atleta, escritora, administradora e estudante de medicina, Amyr compartilhou histórias sobre riscos, educação, planejamento e construção de independência. A conversa foi mediada por Juliana Benvenuto, da Avenue.
Além de relatar expedições, pai e filha mostraram como experiências extremas ajudaram a construir uma visão de longo prazo sobre carreira, dinheiro e formação das próximas gerações.
Aprender com o risco também faz parte do planejamento
O mar aparece nas histórias de Amyr não apenas como cenário, mas como uma espécie de laboratório de decisões.
“Eu tive o hábito de aprender com os erros dos outros. Acho que no mundo dos investimentos isso vale muito”, disse.
A analogia com o mercado financeiro parte de uma constatação simples: barcos podem afundar. Isso não significa abandonar a navegação, mas entender os riscos antes de começar uma viagem.
Amyr conhece esse princípio na prática. Em uma de suas expedições, perdeu o leme na Antártica e precisou seguir velejando até o Brasil. Em outra viagem, que durou cerca de 100 dias, enfrentou uma sequência de situações inesperadas, incluindo encontros com tubarões.
Segundo o navegador, tentar prever tudo é impossível. Mesmo a preparação emocional tem limites, porque as condições mudam durante o percurso.
O mesmo vale para a construção dos barcos. Amyr contou que chegou a pedir uma embarcação que não capotasse. Na prática, percebeu que não existia forma de eliminar completamente essa possibilidade. A solução, então, era reduzir o risco e construir algo preparado para reagir quando o inesperado acontecesse.
A infância das filhas entre estaleiros, gelo e oceano
Para Marina Helena, a rotina incomum da família sempre pareceu natural. “Eu cresci acostumada com meu pai indo e voltando das viagens”, contou.
Ela e as irmãs, as gêmeas Tamara e Laura, cresceram acompanhando os projetos de Amyr e de sua mãe, Marina Klink. O contato com tecnologias aconteceu mais tarde, enquanto viagens, barcos e natureza fizeram parte da infância desde cedo.
Foi apenas com o tempo que Marina Helena percebeu que conhecer lugares como a Antártica durante a infância não era uma experiência comum à maioria das famílias.
Uma das lembranças mais marcantes aconteceu quando ela tinha cinco anos. Ao navegar e enxergar apenas o horizonte, sem nenhum sinal de terra, ficou assustada.
“A primeira vez que eu vi o horizonte e nenhum pedaço de terra, eu fiquei desesperada. Meu pai me pegou no colo e começou a me contar sobre o processo de construção do barco, como ele construiu com as próprias mãos e como passou mais tempo construindo o barco do que o tempo da minha gestação, para que fosse tudo seguro e pudesse colocar nossa família dentro dele”, relembrou.
A história ajudou Marina a compreender que segurança não significa ausência de perigo. Significa entender os riscos e estar preparado para lidar com eles.
A decisão precisa acontecer antes do pânico
Esse aprendizado se tornou uma das principais lições levadas por Marina para a vida adulta.
“Ter a noção de que eu estava em um ambiente cujos riscos eram conhecidos e ter a segurança para sobreviver a momentos de pânico foi importante, porque no pânico a gente não consegue tomar decisões”, afirmou.
Para ela, o preparo precisa acontecer antes da crise. “A gente toma decisões e se planeja antes para, no momento de pânico, só executar baseado no que se preparou.”
A lógica também estava presente na rotina dentro do barco. Cada pessoa tinha responsabilidades, inclusive as crianças.
“A gente aprendeu a brincar no estaleiro e a se divertir no gelo”, contou Marina.
Nas viagens, a divisão de tarefas era parte da segurança da família. Uma regra resumia bem essa dinâmica: “Quando alguém está dormindo, alguém está acordado”.
Amyr também destacou como viajar com os filhos aumentava sua percepção de responsabilidade. Em uma das primeiras expedições familiares, outras crianças estavam no barco sem os próprios pais. Ele comparou a sensação à de um gestor responsável por uma carteira de terceiros: o nível de atenção muda quando se está cuidando de algo que pertence a outra pessoa.
Educação foi tratada como investimento
A construção do legado da família Klink também passou por decisões financeiras.
Antes de se tornar conhecido pelas grandes navegações, Amyr estudou economia, contabilidade e administração. Os conhecimentos foram importantes para estruturar seus projetos, calcular riscos e viabilizar a construção de embarcações e viagens com a família.
“Eu sabia que era um investimento feliz”, afirmou.
Essa visão também apareceu na educação das filhas. Segundo Marina Helena, a família nunca economizou quando o assunto era formação.
Outro conselho do pai permaneceu com ela ao longo dos anos: “Meu pai falou que antes de eu ser feliz tinha que ser independente”, disse.
Formada em Administração e com experiência no mercado financeiro, Marina relaciona parte dessa trajetória à forma como foi criada. Desde criança, aprendeu sobre execução, responsabilidade e autonomia.
A independência, nesse contexto, aparece não apenas como condição financeira, mas como capacidade de tomar decisões e construir o próprio caminho.
O longo prazo começa com um plano
Para Amyr, enfrentar grandes desafios depende menos de coragem momentânea e mais de consistência.
“Vem do processo de fazer um plano e manter o foco lá na frente”, afirmou.
A frase resume parte da filosofia apresentada durante a conversa. Seja em uma travessia, na construção de um barco, em um investimento ou na educação dos filhos, decisões de longo prazo exigem preparação antes que os resultados apareçam.
Mas planejamento não significa viver apenas em função da próxima meta.
Marina contou que as viagens em família eram fisicamente cansativas. Havia trabalho, noites mal dormidas e responsabilidades constantes. Por isso, chegar a um destino e simplesmente observar a natureza tinha um significado especial.
Ela chamou esses momentos de “ócio criativo”: o tempo de parar depois de períodos intensos de execução.
Um legado que vai além das viagens
Ao falar sobre a construção de uma trajetória, Amyr destacou que os resultados não deveriam ser avaliados apenas em números.
“É importante ter uma história para contar”, disse. E essa história, segundo ele, precisa incluir a família. “Não adianta ficar sem pensar na família.”
Na experiência dos Klink, preparar uma geração global não significa apenas oferecer viagens internacionais, acesso a diferentes culturas ou oportunidades de carreira no exterior. Significa criar condições para que os filhos aprendam a lidar com escolhas, responsabilidade, riscos e independência.
No mar, nem mesmo o melhor planejamento impede ondas, mudanças de rota ou imprevistos. O aprendizado compartilhado por Amyr e Marina Helena na Avenue Connection 2026 é que não é preciso controlar todo o percurso.
É preciso saber onde se quer chegar e estar preparado para ajustar o caminho.






