A decisão da SLC Agrícola (SLCE3) de exercer o direito de preferência para adquirir cerca de 29 mil hectares agricultáveis em Mato Grosso por R$ 1,85 bilhão foi considerada estrategicamente consistente pelo BTG Pactual (BPAC11), mas com potencial para gerar reações mistas entre os investidores. Segundo o banco, embora a operação fortaleça o posicionamento da companhia em uma das regiões agrícolas mais produtivas do Brasil, o preço pago pelas terras levanta dúvidas sobre o retorno financeiro no curto prazo.
Para o BTG Pactual, o principal ponto de atenção é a avaliação do ativo. A SLC Agrícola desembolsará aproximadamente R$ 65 mil por hectare agricultável, enquanto suas próprias ações são negociadas pelo mercado a um valor inferior à metade desse patamar por hectare, o que reduz a atratividade financeira imediata da aquisição.
Terras de alta qualidade
Apesar da avaliação considerada elevada, o banco reconhece que o portfólio adquirido reúne características diferenciadas. As propriedades estão localizadas em uma das áreas agrícolas mais valorizadas do país, contam com logística eficiente e permitem cultivo em duas safras anuais.
Além disso, a SLC Agrícola já opera aproximadamente 17,6 mil hectares na região, incluindo a Fazenda Paiaguás, considerada uma das unidades mais eficientes da companhia. Na avaliação do BTG Pactual, esse fator pode gerar ganhos de escala e sinergias operacionais.
Os analistas estimam que as novas áreas poderão produzir um Ebitda entre R$ 80 milhões e R$ 90 milhões por ano, considerando uma geração operacional entre R$ 4 mil e R$ 5 mil por hectare, acima da média da companhia, estimada em cerca de R$ 3 mil por hectare para 2026.
Retorno e alavancagem
Mesmo com esse potencial operacional, o banco calcula que o retorno inicial do investimento ficará entre 4% e 5% ao ano antes dos impostos, percentual inferior ao custo de capital da empresa. Segundo o BTG Pactual, essa diferença ajuda a explicar por que empresas com grandes extensões de terras agrícolas costumam negociar na bolsa com desconto em relação ao valor patrimonial de seus ativos.
A aquisição também deverá elevar a alavancagem financeira da companhia. A expectativa anterior era de que a SLC Agrícola encerrasse o ano com dívida líquida equivalente a 2,5 vezes o Ebitda dos últimos 12 meses. Com a nova operação, esse indicador poderá subir cerca de 0,7 vez, nível que o banco considera elevado, mas ainda administrável.
Estratégia de longo prazo
Apesar das ressalvas de curto prazo, o BTG Pactual avalia que a aquisição reforça uma das principais características da estratégia da SLC Agrícola: realizar investimentos relevantes justamente em períodos de baixa do ciclo das commodities agrícolas.
Nos últimos anos, a companhia já destinou mais de R$ 3 bilhões para expansão inorgânica, por meio da aquisição de fazendas e do arrendamento de novas áreas. Segundo o banco, embora esse movimento pareça pouco atrativo durante momentos de preços deprimidos das commodities, historicamente a estratégia gerou valor quando o ciclo voltou a ser favorável.
Diante desse cenário, o BTG Pactual manteve a recomendação de compra para as ações da SLC Agrícola. Para os analistas, existe uma assimetria positiva caso os preços das commodities agrícolas se recuperem. No entanto, ressaltam que, após a nova aquisição, a valorização dos papéis dependerá ainda mais da melhora do ambiente para soja, milho e algodão, uma vez que, nos níveis atuais de preços, o valuation da companhia deixou de parecer tão descontado quanto anteriormente.






