O início de 2026 foi marcado por um apetite incomum do investidor estrangeiro por ativos brasileiros. Entre janeiro e abril, o fluxo líquido somou cerca de R$ 57 bilhões, impulsionando o Ibovespa a renovar máximas históricas e levando o câmbio a patamares próximos de R$ 4,89.
A virada, no entanto, foi abrupta. Em maio, a saída líquida alcançou R$ 14,91 bilhões — a maior desde 2022 — e veio acompanhada de forte deterioração dos preços. “A reversão, porém, está sendo rápida e intensa”, aponta relatório da Ágora Investimentos.
O movimento foi disseminado ao longo do mês: em 19 dos 21 pregões entre meados de abril e o fim de maio, houve retirada líquida de recursos, refletindo uma mudança clara de direção no fluxo internacional.
Rotação global muda o destino do capital
Uma das principais explicações está fora do Brasil. A combinação entre resultados expressivos de empresas de tecnologia e expectativas de alívio em tensões geopolíticas desencadeou uma rotação global de ativos.
Segundo a Ágora, “há uma elevada possibilidade de continuidade desse movimento no curto prazo”, favorecendo mercados desenvolvidos, especialmente os Estados Unidos. O relatório destaca ainda que “os meses de maio e junho costumam ser negativos” para a B3, indicando um componente sazonal relevante.
Com IPOs relevantes e grandes ofertas no setor de tecnologia — incluindo empresas ligadas à inteligência artificial —, o capital global passou a se dividir ainda mais, reduzindo o espaço para emergentes como o Brasil.
Juros altos e commodities aumentam a pressão
Outro vetor importante é o cenário macro global. A manutenção de juros elevados nos Estados Unidos aumentou a atratividade dos Treasuries, reduzindo o diferencial em relação a mercados emergentes.
Esse contexto se soma às incertezas em torno do petróleo e da inflação global. Oscilações na commodity — que impactam diretamente o peso de empresas relevantes do Ibovespa — contribuíram para a volatilidade recente.
Internamente, o ambiente fiscal e político também adiciona ruído. De acordo com a análise, “o mercado passou a reprecificar o prêmio exigido para ativos de risco”, refletindo preocupações com o cenário eleitoral e a trajetória das contas públicas.
Queda reflete fluxo, não piora estrutural
Apesar da correção dos preços, os dados sugerem que o movimento é mais técnico do que estrutural.
A Ágora destaca que “a queda recente foi mais influenciada pelo fluxo de saída de capital estrangeiro do que por uma deterioração estrutural”, indicando um ajuste ligado à liquidez.
A própria temporada de resultados reforça essa leitura.
Segundo o relatório, “houve venda indiscriminada, atingindo empresas independentemente da qualidade dos resultados”, o que caracteriza um movimento típico de saída de fluxo.
No horizonte, o quadro doméstico segue desafiador. A revisão das expectativas para a Selic e o avanço do calendário eleitoral aumentam a incerteza.
Nesse contexto, a percepção internacional também mudou: “a grande maioria se tornou consideravelmente mais cautelosa”, após interações com investidores estrangeiros.
Diante desse cenário, a recomendação predominante é de maior seletividade. Mesmo com valuations considerados atrativos e fluxo positivo no acumulado do ano, o ambiente exige disciplina, foco em qualidade e atenção aos riscos globais e domésticos.






