Com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva para a presidência da República, o otimismo com a bolsa de valores pelos gestores multimercados está recuando. Apesar do mercado dar um voto de confiança na primeira semana, visto que o Ibovespa chegou a subir 3,15% nos primeiros dias, o indicativo de que o novo governo fure o teto de gastos em um valor de R$ 175 bilhões piorou a percepção para o futuro.
Um estudo da casa de análises Empiricus com 44 gestoras de recursos, feito nos dias seguintes à eleição de Lula, em 30 de outubro, revela que o sentimento médio do mercado está mais pessimista após três meses de melhora.
A pesquisa questionou os gestores se eles estavam muito otimistas, otimistas, neutros, pessimistas ou muito pessimistas com a bolsa do Brasil. Grande parte dos gestores responderam que estão otimistas, mas o nível de otimismo médio diminuiu em comparação a outubro.
A piora no sentimento ocorre por conta das dúvidas em relação ao andamento da economia e uma possível interferência do governo Lula na gestão das estatais, que tem um grande peso no Ibovespa.
Os fundos multimercados trabalham com a diversificação das carteiras com ações, commodities, juros e moedas, no Brasil e no exterior. Logo, o desempenho destes ativos depende da interpretação dos gestores sobre a macroeconomia e como aplicar os recursos diante do cenário. Em muitos casos, eles buscam se antecipar no mercado para obter os melhores resultados.
A leitura mais pessimista destes profissionais é um indicativo de que a bolsa brasileira terá os seus ganhos reduzidos nas próximas semanas e até meses.
A pesquisa perguntou para os gestores se eles estavam muito otimistas, otimistas, neutros, pessimistas ou muito pessimistas com o crescimento da economia, a inflação e as contas do governo. O pessimismo também está presente nos indicadores econômicos, visto que o mercado ainda está apreensivo com a indefinição da equipe econômica e da responsabilidade fiscal do governo Lula.
Apesar disso, o mercado ainda está otimista com o crescimento da economia e a inflação, embora o grau de otimismo médio tenha recuado em comparação com o mês passado.
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Qual é a visão dos gestores?
A gestora Vista Capital declarou, em sua última carta, que mantém a sua posição nas ações brasileiras ainda que elas continuem performando aquém do esperado, mas eles estão atentos pela pressão por mais gastos que deve ser uma característica recorrente do governo eleito.
“Pressões por mais gastos e heterodoxias serão uma característica recorrente de parte do governo eleito. A chamada PEC da Transição parece ir nessa direção e, em se confirmando um aumento tão expressivo de gastos de natureza permanente, há uma piora dos graus de liberdade do futuro governo, ainda mais em um contexto internacional de baixa tolerância para aventuras fiscais”, cita a carta.
A Verde Asset divulgou uma carta apresentando as suas preocupações com as ações do futuro governo. “Vemos com preocupação as primeiras sinalizações e discussões fiscais do novo governo. A tal ‘PEC da Transição’ está se tornando (mais um) trem da alegria brasiliense de crescimento dos gastos descontrolado, e a mídia já fala de mais de duzentos bilhões de gastos, algo completamente descabido, para falar o mínimo”.
“O presidente eleito disse ao longo da campanha que teria responsabilidade fiscal, pois assim tinha sido nos seus dois mandatos anteriores, que não precisava de teto dos gastos ou outros arcabouços legais para cumprir isso. Essa espécie de ‘la garantia soy yo’ periga ter vida bastante curta se não for seguida de decisões e comportamentos que a corroborem”, acrescenta.
Gestores da Verde Asset discutem o Brasil na Money Week
A dupla Luis Stuhlberger e Luiz Parreiras, ambos gestores da Verde Asset, participaram da 7ª edição da Money Week, que foi realizada na semana passada. Durante o painel “Reflexões Econômicas pós-eleições”, os dois apresentaram a visão da Verde diante do atual cenário.
“O primeiro discurso pós-eleição do Lula foi bom, real valorizou frente ao dólar, bolsa subiu. Mas, agora, depois das últimas declarações, o que parecia ser um governo de coalizão, de Centro, com Geraldo Alckmin, Persio Arida, está parecendo uma reedição do governo Dilma (Rousseff). Como se faz um pacote fiscal sem ter um ministro da Fazenda definido?”, pergunta Parreiras.
E complementa: “O governo eleito tem uma inconsistência entre o discurso ao Centro e a prática fiscalmente irresponsável. Auxílio Brasil/Bolsa Família mais aumento real de salário mínimo demandaria algo como R$ 75 bilhões. Mas e o resto, para onde vai? Vão fazer gastos desnecessários e os políticos não vão ser contra”.
Stuhlberger reforça este argumento ao dizer que as pessoas ficaram “chocadas” com os últimos discursos de Lula, uma vez que esperavam um presidente eleito mais moderado.
“Eu gosto de tentar interpretar o que vai na cabeça do Lula. Primeiro, o que ele fez de 2004 a 2010? O Brasil cresceu muito, a arrecadação cresceu mais do que o PIB, teve momento em que o Brasil capturou coisas que não tinha. Boom de crédito, boom de formalização de emprego, boom de commodities, o que levou o Brasil a um outro patamar. E com juro real elevadíssimo. Isso se equilibrou durante um tempo”, explica.
“E essa é a memória que o Lula tem. Em um jantar no qual estive esse ano, com ele presente, ele falou ‘vou repetir o que fiz naquela época, porque o governo tem que ser o indutor do desenvolvimento’. Vamos esquecer o fiscal, os gringos, a Faria Lima… daí o PIB cresce muito e as coisas se equilibram porque a arrecadação também sobe. É um jeito da esquerda pensar”.
“E ele ainda tem o bolsonarismo, que é uma oposição barulhenta. Se ele faz o PIB crescer rápido, ele pode ganhar popularidade”, complementa.
Na avaliação dele, na medida em que o mercado reclamar, a expectativa é de que a PEC seja reduzida. Só que, até aí, o “DNA” do novo governo já terá sido exibido.
“É como a pasta de dente que saiu do tubo. Você não consegue mais colocar de volta”, diz Parreira. Ou seja: será um governo com o qual o mercado sempre terá o pé atrás.
“Estão tentando medir qual o tamanho da bobagem que dá para fazer”, complementa Parreiras. “Essa espécie de ‘la garantia soy yo’ do Lula não funciona. No final do dia, não ter um nome de ministro da Fazenda é o que pesa para o mercado”, afirma.
E Stuhlberger alerta: “Vejam o que aconteceu com Reino Unido de Liz Truss”, citando a passagem relâmpago da primeira-ministra, que se demitiu após pouco mais de quarenta dias no cargo, após um plano fiscal bastante criticado.
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