O Bradesco BBI manteve a recomendação de compra para as ações da JBS (JBSS32) após o balanço do primeiro trimestre de 2026 (1T26), com preço-alvo preservado em R$ 117. Mesmo assim, os analistas reconhecem que o trimestre veio pressionado em praticamente todas as frentes operacionais e deve resultar em revisões negativas nas projeções de lucro do frigorífico ao longo do ano.
A receita líquida consolidada somou US$ 21,6 bilhões, em linha com a estimativa do banco e com alta de 11% em base anual, sustentada por preços mais elevados das proteínas e efeito positivo de conversão cambial. A rentabilidade, contudo, decepcionou.
O Ebitda ajustado caiu 26% em base anual, para US$ 1,1 bilhão, com margem de 5,2%, recuo de 2,6 pontos percentuais.
O lucro líquido despencou 56% em base anual, para US$ 221 milhões, parcialmente amenizado pelo maior resultado de equivalência patrimonial da Mantiqueira.
Bovina nos EUA pesa
A divisão de carne bovina nos Estados Unidos foi o principal vetor negativo. A receita avançou 12% em base anual, mas os spreads operaram em mínimas históricas, levando a margem Ebitda do segmento para o terreno negativo, em -3,2%, contração de 1,5 ponto percentual.
A operação na Austrália também deteriorou, com margem Ebitda de 7,1%, queda de 3,3 pontos percentuais em base anual e 1,1 ponto abaixo da projeção do BBI, refletindo custos mais elevados do gado.
Para os analistas Henrique Brustolin e J. Ricardo Rosalen, parte das pressões pode ser temporária, com espaço para recuperação nas operações da PPC e da Austrália. O grande ponto de interrogação, contudo, está na divisão de bovinos nos Estados Unidos, onde o ritmo de retomada permanece indefinido.
“Os spreads da carne bovina nos EUA voltaram a patamares historicamente baixos e não há sinais claros de inflexão do ciclo no curto prazo”, afirmam Brustolin e Rosalen em relatório enviado a clientes.
Em contraste, outras divisões entregaram resultados mais saudáveis. A operação de suínos nos EUA apresentou margem Ebitda de 10%, em linha com as projeções, enquanto a Seara registrou margem de 15,5%, ligeiramente abaixo do esperado, mas considerada sólida pelo banco diante de comparativos mais exigentes.
A JBS Brasil entregou margem Ebitda de 4,4%, em linha com a estimativa, ainda que a receita tenha ficado 7% abaixo da projeção.
A geração de caixa também acendeu sinal de alerta. O fluxo de caixa livre foi negativo em US$ 1,5 bilhão no trimestre, queima mais intensa que os US$ 835 milhões observados no primeiro trimestre de 2025.
O consumo de capital de giro somou US$ 1,2 bilhão, impactado por US$ 252 milhões adicionais em pagamentos diferidos a fornecedores de gado, movimento que pode se reverter no quarto trimestre de 2026, segundo a equipe do BBI.
O capex chegou a US$ 566 milhões, mais que o dobro do registrado no mesmo período do ano anterior, direcionado a projetos de expansão. A alavancagem fechou o trimestre em 3,1 vezes a relação dívida líquida/Ebitda, ou 2,8 vezes excluindo arrendamentos.
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Cautela com proteínas
No conjunto, o trimestre reforçou a visão mais cautelosa do BBI para o setor de proteínas no curto prazo. No Brasil, o banco espera normalização gradual das margens da operação de aves, ao mesmo tempo em que o ciclo do gado começa a se inverter e adiciona pressão à rentabilidade da divisão de bovinos. Mesmo nesse cenário, a tese de investimento na JBS foi mantida por um critério comparativo.
“A JBS segue negociando a múltiplos descontados frente aos pares globais, apesar de sua maior diversificação geográfica e operacional e histórico de execução”, concluem os analistas, justificando a manutenção da recomendação de compra.






