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Fim da “taxa das blusinhas”: O que muda para as ações na Bolsa

Fim da “taxa das blusinhas”: O que muda para as ações na Bolsa

A chamada “taxa das blusinhas” se refere ao imposto de importação de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50, que passou a valer em agosto de 2024

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou medida provisória eliminando a alíquota federal de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50, desfazendo a chamada “taxa das blusinhas” instituída em 2024.

A decisão, justificada pelo governo como alívio para consumidores de baixa renda em um momento de fragilidade macroeconômica, reacende imediatamente o debate sobre a assimetria competitiva entre o varejo doméstico e as plataformas asiáticas, como Shopee, Shein e Temu. Para analistas do BTG Pactual, o movimento é negativo para os varejistas locais — embora o setor esteja hoje melhor equipado para enfrentar a concorrência do que estava no auge da disrupção.

A remoção da tarifa pode acelerar novamente a penetração das plataformas estrangeiras, particularmente em vestuário, acessórios, beleza e artigos para o lar“, avaliaram os analistas Luiz Guanais, Yan Cesquim e Beatriz Cendon, do BTG Pactual, em relatório distribuído a clientes.

Com a tributação em vigor, o peso total sobre as importações havia chegado a uma faixa efetiva de 40% a 50%, considerando o ICMS estadual somado ao imposto federal. Mesmo assim, o volume de encomendas internacionais, que ultrapassava 18 milhões de remessas por mês antes da taxa, recuou para cerca de 11 milhões ao fim de 2024 e foi se recuperando gradualmente para a faixa de 15 a 17 milhões, à medida que as plataformas intensificaram subsídios e melhoraram a eficiência logística.

Shein ainda é até 13% mais barata que concorrentes locais

O BTG Pactual realizou pesquisa proprietária comparando uma cesta de oito produtos vendidos nas principais varejistas brasileiras de moda — Renner (LREN3), C&A (CEAB3) e Riachuelo (RIAA3) — com os preços da Shein. O resultado mostra que a plataforma chinesa permanece 6% mais barata que a Riachuelo, 10% mais barata que a Renner e 13% mais barata que a C&A.

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“A diferença de preços em relação a 2024 e 2025 se reduziu de forma relevante, o que sugere que os varejistas locais ficaram mais disciplinados em sourcing, gestão de markdown, alocação de estoques e arquitetura de preços”, destacou a equipe liderada por Luiz Guanais.

A boa notícia para o varejo doméstico é que esse estreitamento do gap ocorreu mesmo antes da revogação da taxa. A má notícia é que, com o fim da tributação, parte da vantagem estrutural que as plataformas internacionais historicamente desfrutam tende a ser restaurada. O ambiente competitivo deverá se tornar mais intenso novamente, ainda que os players locais estejam operacionalmente mais preparados do que estavam em 2023 e 2024.

(Imagem: Thays de Araújo/ Agência Gov)

Impacto vai além da moda e atinge múltiplos segmentos do varejo

O relatório do BTG alerta que a discussão já ultrapassou o universo das “blusinhas baratas”. A penetração das compras internacionais avançou de forma relevante em eletrônicos e acessórios, produtos de beleza, decoração, artigos esportivos e até categorias selecionadas de bens de consumo de giro rápido (FMCG). Segundo os analistas, mesmo após a implementação da taxa, as plataformas estrangeiras vinham ganhando centenas de pontos-base de participação de mercado por ano em diversas categorias discricionárias.

“As vantagens de escala estão se tornando cada vez mais relevantes. As plataformas asiáticas continuam investindo agressivamente em capacidades de fulfillment local, programas de frete grátis, ecossistemas de criadores de conteúdo e subsídios em publicidade”, ressaltaram Yan Cesquim e Beatriz Cendon no documento.

Enquanto isso, o varejo doméstico segue operando sob cargas tributárias, trabalhistas e logísticas estruturalmente mais pesadas — uma assimetria que o fim da taxa das blusinhas agrava, mas não criou. O MercadoLibre, que também se beneficia de dinâmicas ligadas ao comércio transfronteiriço, foi destacado no relatório como um dos que mais crescem no Brasil, com o país figurando entre seus mercados de maior expansão nos últimos trimestres.

Lojas Renner
(Imagem: Divulgação/ Lojas Renner)

Setor está mais preparado

Nos últimos meses, os analistas do BTG vinham recebendo perguntas de investidores sobre o real impacto que uma eventual revogação dos impostos poderia ter sobre as varejistas de moda listadas em bolsa. A avaliação é que o quadro agora confirmado é negativo, mas não catastrófico.

“Embora ainda vejamos a remoção dos impostos de importação como um desenvolvimento negativo para os varejistas domésticos, o setor hoje parece operacionalmente mais preparado para navegar em um cenário competitivo mais difícil”, ponderaram os analistas Luiz Guanais, Yan Cesquim e Beatriz Cendon.

Durante o pico de pressão competitiva em 2023 e 2024, o crescimento de receita entre os varejistas de moda listados desacelerou para dígitos simples baixos e médios, enquanto a intensidade promocional aumentou de forma significativa.

Desde então, empresas como Lojas Renner, C&A Brasil e Guararapes — as mais citadas pelo BTG como expostas à concorrência externa — investiram em assertividade de produtos, gestão de inventário, flexibilidade de sourcing e execução omnichannel.

O desafio daqui para frente, segundo o banco, é diferente do que era em 2023.

“O debate central agora é se os players locais conseguem sustentar as melhorias recentes em disciplina de margem bruta e qualidade de estoque enquanto enfrentam nova pressão sobre preços e participação de mercado em um ambiente competitivo mais agressivo”, concluiu a equipe de análise do BTG Pactual.