A ação da Intelbras (INTB3) começou 2026 com cara de oportunidade para quem olha apenas os múltiplos. Mas, na avaliação do BTG Pactual (BPAC11), o mercado já deixou claro que preço baixo não é gatilho suficiente para reprecificar a ação — pelo menos não depois de um ano em que a companhia voltou a frustrar expectativas e reduziu ainda mais a visibilidade sobre o curto prazo.
A leitura do banco é que 2026 tende a ser um período de baixo crescimento e “arrumação da casa”, em que o investidor vai buscar sinais mais concretos de estabilização operacional e consistência de entrega antes de retomar uma postura mais construtiva com o nome.
Um 2025 difícil — e com pouco espaço para otimismo com a Intelbras
O ano de 2025 foi marcado por uma sequência de sinais fracos, com a Intelbras operando em um patamar de receita inferior ao de 2024 e enfrentando desafios que limitaram a capacidade do mercado de antecipar uma virada clara.
O BTG lembra que a empresa teve um começo de ano particularmente ruim, quando a migração do ERP pesou sobre a operação e levou a uma queda de 11% na receita no primeiro trimestre. No segundo trimestre, houve uma melhora pontual, especialmente na divisão de Segurança — o que chegou a sustentar uma leitura de alívio temporário no mercado.
Essa interpretação, porém, perdeu força no trimestre seguinte. O desempenho do 3TRI25 indicou que parte do fôlego de Segurança estava ligado a uma recomposição de demanda após o período de transição, enquanto as divisões de Comunicações e Energia continuaram pressionadas. O resultado foi uma queda de receita de 10% na comparação anual, praticamente repetindo o tombo do início do ano.
A ação parece barata — mas o problema é confiança
O BTG reconhece que, do ponto de vista de valuation, a Intelbras é vista como um papel barato. Ainda assim, a avaliação do banco é que a reprecificação não deve vir apenas desse fator, justamente porque a companhia atravessa um período de credibilidade enfraquecida com o investidor.
A visibilidade para 2026, segundo o relatório, continua limitada. E o histórico recente pesa: desde 2023, o mercado tem começado o ano esperando que a Intelbras entregue um lucro líquido acima de R$ 600 milhões — apenas para essa expectativa ser empurrada para frente a cada novo ciclo, ampliando o que o BTG descreve como um “gap” de confiança.
“Após várias tentativas frustradas de antecipar um fundo desde 2023, a confiança do investidor parece abalada, sugerindo que o mercado dificilmente reprecificará a ação apenas com base no valuation”, afirma o BTG, ao destacar que será necessária uma melhora mais clara e sustentada nos resultados para o sentimento voltar a ser construtivo.
Esse ponto é central para entender por que o banco vê 2026 como um ano mais de reconstrução do que de aceleração.
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4TRI25 pode sinalizar estabilização — e sugerir que o pior ficou para trás
O fim de 2025 ainda deve ser morno, mas o BTG enxerga um elemento que pode começar a mudar o tom da história: a dinâmica sequencial do quarto trimestre.
O banco estima que a receita da Intelbras deve recuar cerca de 10% na comparação anual no 4T25, o que, por si só, confirma que a empresa segue operando em uma base deprimida. Mas o que importa, na leitura do relatório, é o comportamento na comparação trimestre contra trimestre — que pode indicar que a atividade está se estabilizando e que o pior pode ter ficado para trás.
Por segmento, o BTG projeta:
- Segurança com crescimento de 4% na comparação anual e também avanço trimestre a trimestre;
- Comunicações ainda em queda anual, mas com leve alta sequencial;
- Energia como o principal ponto de fragilidade, com queda expressiva ano contra ano, embora com expansão na comparação trimestral.
Em rentabilidade, o banco espera uma melhora modesta de margens e disciplina de custos, com margem EBITDA em 13,1%. Na última linha, a projeção é de lucro líquido de R$ 152 milhões no trimestre.
“Nesse sentido, o trimestre deve ao menos indicar que a atividade está se estabilizando e que o fundo pode estar para trás”, aponta o BTG, ao reforçar que a leitura do curto prazo depende menos do comparativo anual e mais do ritmo de normalização da operação.
2026: o ano da “arrumação da casa”
Se 2025 foi o período em que a tese perdeu tração, 2026 aparece, na visão do BTG, como o ano em que a Intelbras precisa reorganizar prioridades, ajustar o mix e reconstruir consistência — com crescimento baixo e foco em eficiência.
O banco estima que a receita deve crescer em linha com a inflação em 2026, mesmo com uma base de comparação mais fácil, e vê espaço para melhora gradual de margens à medida que a companhia reforça a estratégia de priorizar categorias com maior retorno sobre o capital (ROIC).
A expectativa é de expansão de margem bruta e avanço do EBITDA, sustentados por disciplina de custos após anos de desafios operacionais. Ainda assim, o relatório chama atenção para um fator que deve manter a volatilidade elevada: a incerteza segue acima do normal, encurtando o horizonte de investimento e deixando cada resultado trimestral com potencial de alterar projeções e reprecificar o papel.
Novo preço-alvo, mas com um recado claro: a virada precisa aparecer
Com as estimativas atualizadas, o BTG definiu um novo preço-alvo de R$ 17 para a Intelbras e manteve recomendação de compra. O banco reforça, no entanto, que o “gatilho” para destravar o case não é o múltiplo — e sim a capacidade da empresa de entregar uma melhora visível e sustentada nos resultados.
Em outras palavras: a Intelbras pode até estar barata, mas, para o mercado, isso não basta. Em 2026, o que vai determinar o rumo da ação é a “arrumação da casa” — e, principalmente, a volta da confiança.






