O Ibovespa fechou esta quarta-feira (2) em alta de 3,05%, aos 185.205 pontos, na 11ª sessão consecutiva de ganhos e no maior patamar em cerca de quatro meses. O avanço veio amparado pelos setores de maior peso no índice, como bancos e commodities, e pelas ações ligadas ao ciclo doméstico, favorecidas pela queda da curva de juros. O dólar recuou 0,92%, a R$ 5,11.
Os investidores buscaram ações descontadas depois da divulgação das mensagens trocadas entre o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master.
“No Brasil, o ambiente externo mais favorável se somou, ao que tudo indica, à forte entrada de recursos estrangeiros, impulsionando os ativos locais”, afirma a Ágora Investimentos.
Entre as maiores altas do dia, Magazine Luiza (MGLU3) liderou com valorização de 16,67%, a R$ 5,39, seguida por Vamos (VAMO3), que subiu 15,10%, a R$ 3,43, e Azzas 2154 (AZZA3), com ganho de 11,55%, a R$ 16,81. C&A (CEAB3) avançou 7,98%, a R$ 9,47, e Assaí (ASAI3) subiu 7,29%, a R$ 9,12.
Na ponta negativa, apenas quatro papéis do índice fecharam no vermelho: Rumo (RAIL3) caiu 4,31%, a R$ 14,64, Cosan (CSAN3) recuou 3,78%, a R$ 3,82, Totvs (TOTS3) perdeu 0,77%, a R$ 34,72, e SLC Agrícola (SLCE3) cedeu 0,06%, a R$ 16,30.
Exterior misto e Treasuries em queda
Lá fora, os mercados tiveram desempenho misto ao longo da sessão, com os investidores avaliando o Livro Bege do Federal Reserve, que apontou crescimento moderado da atividade econômica em boa parte dos distritos dos Estados Unidos.
Dados de emprego mais fracos divulgados antes seguem alimentando a expectativa de uma postura menos restritiva do banco central americano, o que contribuiu para a acomodação dos rendimentos dos Treasuries, que fecharam em baixa nos vencimentos curtos e intermediários. O petróleo sustentou viés positivo e o ouro interrompeu a sequência recente de perdas.
“Os investidores também repercutiram indicadores de atividade mais moderados, que reforçam a percepção de continuidade do processo de flexibilização monetária nos próximos meses”, avalia a Ágora Investimentos.
(Fotos: Gustavo Moreno/SCO/STF com intervenção do Copilot)
Incerteza institucional vira gatilho de compra
O que tem movido a Bolsa não é a certeza, e sim a ausência dela. Não se sabe quais serão os próximos passos da Corte após a divulgação das mensagens, e essa indefinição vem sendo lida pelo mercado como aumento da chance de mudança política em 2027.
“Talvez seja a situação mais séria desde a Constituição de 1988. Para a institucionalidade do Brasil é bem ruim, mas pode destravar movimentações positivas. Enquanto isso, o mercado vai precificando antecipadamente a saída do governo do PT, com queda dos juros futuros e alta no preço das ações“, afirma um gestor da Faria Lima que pediu para não ser identificado.
O mesmo profissional resume a lógica de quem está comprando: a volatilidade cria oportunidade e ninguém acerta o momento exato da virada. Na avaliação dele, as empresas brasileiras estão valendo muito pouco, e uma eventual troca de governo faria os preços dispararem.
“Um dano relevante à imagem do ministro eleva naturalmente o ex-presidente e todo o seu entorno, que sempre fez acusações a ele. É natural esperar que Flávio Bolsonaro ganhe momentum com a divulgação e que Lula perca, uma vez que sempre defendeu o Judiciário“, avalia Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa Investimentos.
Nem só o Supremo explica a alta
Há outros vetores em operação. Os juros locais vêm cedendo com força, o mercado passou a atribuir probabilidade maior a novos cortes e o capital estrangeiro voltou a entrar na Bolsa nos últimos dias. As pesquisas apontando eleição mais apertada já vinham desde a semana passada, antes das mensagens virem a público.
“É difícil cravar um motivo único para a alta de hoje, talvez seja o conjunto. Não sei se as notícias do Supremo vão respingar tão diretamente na eleição, porque também roubam a atenção das investigações sobre o Lulinha, o que, a meu ver, teria um impacto potencial até maior”, pondera João Neves, analista de ações da EQI Research.
(Foto: Carlos Moura/ Agência Senado)
Citi divide a carteira por cenário eleitoral
O Citi avalia que a eleição deve orientar a rotação de portfólios na B3 ($B3SA3), mas ressalta que a credibilidade do ajuste fiscal e a governabilidade em um Congresso fragmentado é que vão determinar o desempenho dos ativos em 2027.
Para o banco, o ajuste é inevitável nos dois desfechos, mudando apenas a forma de condução.
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante cerimônia de lançamento da Fragata “Cunha Moreira” (Foto: Ricardo Stuckert / PR)
Em caso de reeleição de Lula, a preferência recai sobre papéis resilientes a qualquer cenário, com balanços desalavancados, poder de repasse de preços e exposição a programas federais como o Minha Casa Minha Vida.
Numa vitória de Flávio Bolsonaro, a estratégia muda de eixo. O banco passa a favorecer ações de maior duration, mais sensíveis à queda dos juros longos, além de modelos cíclicos e companhias seletivamente alavancadas.
JPMorgan vê desconto em saúde, indústria e telecomunicações
O JPMorgan diz que a Bolsa brasileira parece barata em várias métricas, mas alerta que os juros elevados e os lucros excepcionalmente fortes de commodities distorcem a leitura. Pela média de cinco anos, que o banco considera mais adequada, o mercado negocia a 8,3 vezes o lucro projetado, contra média histórica de 7,7 vezes.
Saúde, telecomunicações, indústria e consumo discricionário negociam com desconto ante as próprias médias de cinco anos.
Somando as perspectivas de lucro para 2027, o banco enxerga as oportunidades mais atrativas em financeiras, telecomunicações, saúde e indústria.
Entre as maiores ações do Ibovespa, os destaques de valuation são Embraer (EMBJ3), Axia Energia (AXIA3), Eneva (ENEV3), WEG (WEGE3) e Localiza (RENT3). O banco também vê desconto relevante em BTG Pactual (BPAC11), B3 ($B3SA3), Suzano (SUZB3), RD Saúde (RADL3) e Rede D’Or (RDOR3).