Um dólar mais forte representa um dos principais riscos para os mercados emergentes em 2026 — mas o Brasil está relativamente mais protegido do que seus pares, graças aos juros elevados e a setores que já operam em níveis deprimidos.
É o que avalia o Bank of America em relatório de estratégia para a América Latina, que aponta para riscos crescentes de reprecificação das taxas americanas e de valorização do dólar.
O banco espera 75 pontos-base de alta de juros nos Estados Unidos em 2026, acima do que o mercado precifica — menos de 50 pontos-base. Um Federal Reserve mais hawkish poderia neutralizar os benefícios de um eventual acordo com o Irã para os ativos emergentes e manter o dólar forte por mais tempo.
Historicamente, o MSCI de mercados emergentes recua cerca de 9% em períodos de apreciação do DXY (índice do dólar), enquanto a América Latina cai em média 10%.

JBS, Vale e Gerdau entre as beneficiadas
Apesar do cenário adverso para emergentes, algumas ações brasileiras tendem a se beneficiar de um dólar mais forte.
O BofA destaca exportadoras como JBS (JBSS3), Vale (VALE3), Gerdau (GGBR4), Bradespar (BRAP4), Metalúrgica Gerdau (GOAU4), CSN (CSNA3), Usiminas (USIM5), CSN Mineração (CMIN3) e SLC Agrícola (SLCE3) como os papéis mais bem posicionados nesse cenário, já que suas receitas são atreladas ao câmbio e se valorizam com a depreciação do real.
Contudo, o banco alerta que um dólar forte historicamente pressiona os preços de commodities como petróleo, cobre, minério de ferro e ouro — o que pode limitar parte dos ganhos dessas exportadoras.
O atual choque no preço do petróleo, entretanto, pode funcionar como um amortecedor para economias exportadoras de energia como o Brasil.
Selic alta protege o real e as expectativas de inflação
O spread entre a Selic e a taxa do Fed está próximo da máxima dos últimos 20 anos, em cerca de 11%. O BofA avalia que esse diferencial pode oferecer proteção ao real em caso de fortalecimento do dólar, reduzindo a pressão sobre as expectativas de inflação.
No México, o diferencial entre Banxico e Fed está em apenas 3% — o nível mais estreito desde 2016 —, deixando o país mais vulnerável a um ambiente de dólar forte.
Historicamente, as expectativas de inflação brasileiras se deterioraram em quatro dos últimos sete episódios de fortalecimento do dólar. Entretanto, as exceções coincidiram com períodos de real forte e de descompressão significativa dos prêmios de risco — cenário que pode se repetir caso o carry elevado sustente a moeda brasileira.
Dívida em moeda local isola o Brasil do impacto fiscal
Outro fator de proteção para o Brasil é a composição de sua dívida pública. Cerca de 87% do endividamento público brasileiro é denominado em moeda local, o que isola o país de boa parte dos impactos fiscais típicos de um dólar forte sobre economias emergentes com dívida dolarizada.
Entretanto, o banco destaca que a participação estrangeira no mercado de dívida local brasileira tem caído nos últimos anos.
O BofA mantém postura cautelosa para os ativos emergentes até o quarto trimestre, avaliando que os ventos contrários de inflação global e juros mais altos devem persistir.
Para o Brasil especificamente, o banco projeta Selic em 14,25% ao fim de 2026 e 13,25% ao fim de 2027, com o diferencial de juros continuando a ser o principal escudo do país contra os efeitos de um dólar mais forte no cenário externo.
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