Já começo avisando: este texto é longo. Mais longo do que o habitual por aqui.
Se você estiver com pressa, salve para depois — sob risco de perder uma oportunidade concreta de fazer dinheiro. Azar o seu.
Se estiver disposto a continuar, prometo que vai valer a pena. Não porque eu tenha poderes sobrenaturais, mas porque tenho 20 anos de bagagem e passei muitas horas sem dormir num escritório no interior de São Paulo juntando peças que, separadas, parecem notícias comuns. Juntas, formam um quadro que a imprensa financeira ainda não descreveu com clareza.
Não sou médium. Não estou prevendo o futuro. Tudo que segue é análise, inferência e opinião de um cara com acesso aos mesmos fatos que qualquer um. A diferença é que eu não tenho chefe, não tenho cliente de banco de investimento sentado na minha frente, e não preciso ser convidado de volta para a próxima teleconferência de resultados.
Por fim, uma confissão: o processo criativo deste artigo foi caótico. E o caos foi amplificado pelo surgimento contínuo de fatos novos enquanto eu tentava escrever sobre os anteriores. Eu me sinto trocando o pneu com o carro andando. Mas azar: na hora em que der para contar essa história de forma bonitinha e linear, tudo isso já vai ser fato consumado e vai estar minuciosamente apurado no Valor Econômico. E aí não vai ter dinheiro na mesa.
Com isso dito, vamos ao que importa.
Semanas atrás, escrevi que a Raízen tinha dois pais e nenhum disposto a pagar pensão. O texto original está aqui.
O que eu não imaginava é que os dois genitores iriam se demitir ao mesmo tempo, em 48 horas, diante das câmeras.
Terça-feira, 3 de março. O presidente da Shell Brasil anuncia publicamente que a empresa está “comprometida” a injetar R$ 3,5 bilhões na Raízen. E que “espera paridade” da Cosan.
Quarta-feira, 4 de março. As negociações colapsam. Cosan sai. BTG sai.
“Comprometida” não é “aportou”. “Espera” não é “acordou”. E “paridade”, no vocabulário de quem já está planejando a saída, significa: você paga primeiro, depois eu vejo o que faço.
Antes de continuar, uma nota sobre a língua portuguesa corporativa, que merece sua própria cátedra.
O fato relevante publicado pela Raízen na quarta-feira dizia que a companhia pretende(ia?) “assegurar um ambiente protegido e ordenado para conduzir discussões com seus credores financeiros e buscar uma solução consensual, que poderá ser implementada por meio de Recuperação Extrajudicial, se necessária.”
Vou traduzir frase por frase.
“Ambiente protegido e ordenado” significa: ninguém pede dinheiro por enquanto. “Solução consensual” significa que ninguém concordou com nada ainda. “Se necessária” é o tipo de condicional que aparece quando a necessidade já é certa, mas o advogado pediu para não assinar embaixo.
Essa é a língua que as empresas falam quando já tomaram a decisão, mas ainda não contrataram o assessor de imprensa para anunciá-la.
O detalhe mais constrangedor, porém, não está no comunicado. Está nos bastidores das negociações.
O plano original previa R$ 3,5 bilhões da Shell, R$ 1 bilhão da Cosan e R$ 500 milhões do próprio Rubens Ometto, via holding pessoal. A Cosan e o BTG saíram. E a contribuição pessoal de Ometto, segundo fontes que acompanham as negociações, pode depender de ele conseguir um empréstimo.
O dono da empresa precisa pedir emprestado para salvar a própria empresa.
Isso não é um detalhe menor. Rubens Ometto construiu um dos maiores impérios industriais do Brasil. Transformou usinas familiares de Piracicaba numa holding com R$ 45 bilhões em faturamento. Comprou a Esso, fez a JV com a Shell, criou a Rumo, a Compass, a Moove. É genuinamente um dos maiores empreendedores da história econômica brasileira.
E chegou ao ponto em que, para colocar R$ 500 milhões numa empresa da qual é controlador, pode precisar bater na porta do banco. O problema não é a falta de ativos. É que os ativos estão majoritariamente embaraçados, garantindo outras dívidas, dentro de estruturas que mal cabem numa planilha. É o lado sombrio do mesmo talento: cada aposta bem-sucedida financiou uma aposta maior.
Mas a crise da capitalização não é o fim da história. É o prólogo.
Porque, enquanto os pais brigavam pela conta, alguém estava sentado na sala esperando.
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