A Polícia Federal e o Ministério Público Federal deflagraram nesta quinta-feira (25) a segunda fase da Operação Disclosure, aprofundando as investigações sobre supostas fraudes contábeis na Americanas (AMER3) estimadas em aproximadamente R$ 54 bilhões.
As ações da Americanas acumulam desvalorização de 14,7% em 2026. Os acionistas de referência da empresa são os bilionários Jorge Paulo Lemann, Carlos Alberto Sicupira e Marcel Telles. Lemann e seu filho, e Sicupira, foram alvos da operação.
Nove mandados de busca e apreensão, incluindo buscas pessoais, estão sendo cumpridos nas cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo.
A 10ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro também determinou o sequestro de bens e valores em nome dos investigados até o limite de R$ 54 bilhões.
“Segundo as investigações, os suspeitos teriam conhecimento de supostas fraudes contábeis praticadas ao longo de anos, relacionadas a operações de risco sacado e a contratos de verba de propaganda cooperada supostamente contabilizados sem lastro econômico”, informou a Polícia Federal em nota.
(Imagem: Leonardo AI)
Crimes investigados e modus operandi
As apurações apontam indícios dos crimes de manipulação de mercado e associação criminosa. As fraudes investigadas envolvem dois mecanismos principais: as operações de risco sacado — nas quais a varejista antecipava o pagamento a fornecedores por meio de empréstimos junto aos bancos — e os contratos de verba de propaganda cooperada (VPC), incentivos comerciais do setor que, no caso da Americanas, eram contabilizados mesmo sem existir de fato.
“As apurações apontam indícios, em tese, dos crimes de manipulação de mercado e de associação criminosa”, confirmou a PF no release oficial da operação.
A sofisticação das fraudes, praticadas ao longo de anos com estrutura organizada para manipular dados contábeis, é um dos aspectos que mais chamam atenção dos investigadores.
A primeira fase da Operação Disclosure foi deflagrada em junho de 2024, quando a Polícia Federal cumpriu dois mandados de prisão preventiva e 15 de busca e apreensão contra ex-diretores da Americanas, além de determinar o sequestro de bens que somavam mais de R$ 500 milhões.
Na ocasião, as investigações contaram com a colaboração da atual diretoria da empresa, que havia assumido após a descoberta das inconsistências contábeis.
O caso Americanas expôs, segundo especialistas ouvidos à época, os limites da regulamentação do mercado financeiro no Brasil. Entre os aspectos apontados estavam a necessidade de equilíbrio entre regulamentação estatal e de mercado, conflitos de interesse que minam a autorregulação, sofisticação crescente das fraudes empresariais e orçamento inadequado do órgão regulador.
A segunda fase da operação marca uma nova etapa no esforço para responsabilizar todos os envolvidos no escândalo contábil que abalou o mercado de capitais brasileiro e levou a Americanas a pedir recuperação judicial em janeiro de 2023, com um rombo que surpreendeu investidores, credores e reguladores.
As investigações seguem em andamento com a colaboração do MPF.
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