A Ambev (ABEV3) vive um momento de recuperação operacional, com crescimento de volume e avanço da receita por hectolitro no mercado brasileiro. Apesar dos indicadores positivos, as ações acumulam valorização de 22,8% em 12 meses, movimento que elevou a avaliação dos papéis em relação às principais cervejarias globais.
Em relatório de início de cobertura, a Genial Investimentos classificou a ação como “neutro” e estabeleceu preço-alvo de R$ 14,50 para os próximos 12 meses. Considerando o preço de R$ 15,30 registrado em 23 de setembro e um dividend yield estimado em 6%, o retorno total projetado pela casa é de apenas 0,8%, o que corresponde a uma queda potencial de 5,2% no preço do papel.
A principal melhora está na operação de Cerveja Brasil, que responde por 51% do EBITDA estimado para 2026. No primeiro semestre, a receita por hectolitro avançou 6,2%, acima do IPCA de 4,4%, enquanto o volume cresceu 2,9%. No segundo trimestre, o volume orgânico aumentou 5%, enquanto a produção de bebidas alcoólicas medida pelo IBGE recuou 2%, uma diferença de sete pontos percentuais.
Segundo a Genial, os dados indicam ganhos de participação da Ambev no mercado. O spread unitário ex-marketplace chegou a R$ 259,70 por hectolitro no segundo trimestre, ante R$ 194,90 no primeiro trimestre de 2022. A combinação de maior volume e aumento da receita por hectolitro levou a instituição a projetar expansão da margem EBITDA, de 33,4% em 2025 para 34,4% em 2029.
Valorização das ações supera evolução das estimativas
O ponto de atenção apontado pela Genial é que o mercado já teria precificado boa parte da recuperação operacional. Em agosto de 2024, a Ambev negociava com desconto de 14,6% em relação à mediana do múltiplo P/L de cinco cervejarias globais. Em 18 de setembro de 2026, o papel apresentava prêmio de 15,8%.
A mudança ocorreu mesmo sem uma revisão expressiva das estimativas de resultados. Para a Genial, as projeções de EBITDA da Ambev entre 2026 e 2029 estão entre 1,2% abaixo e 1,5% acima do consenso. Nesse período, as ações subiram 22,8% em 12 meses, indicando que a valorização foi acompanhada principalmente por uma expansão dos múltiplos.
A casa também está abaixo do preço-alvo mediano do mercado, de R$ 16,50. Entre 18 instituições acompanhadas, 11 têm recomendação neutra e cinco indicam venda. A Genial atribui parte da diferença a escolhas de modelagem, como a avaliação das participações minoritárias e o tratamento da subvenção de ICMS.
Outro elemento determinante para o valuation é a taxa de desconto. A Genial utiliza uma taxa terminal de 11%, enquanto a avaliação mediana do mercado implica uma taxa de 9,84%. Segundo o relatório, cada ponto percentual adicional na taxa terminal reduz em aproximadamente R$ 0,96 o valor estimado por ação. A instituição considera a expectativa de juros de longo prazo do Focus, acrescida de um prêmio de prazo, como referência para sua projeção.
A análise também chama atenção para os efeitos da operação na Bolívia. O ganho cambial após impostos provocado pela desvalorização de 43% da moeda boliviana no fim de junho respondeu por R$ 309 milhões do aumento de R$ 660 milhões no lucro normalizado do segundo trimestre, segundo os cálculos da Genial. A companhia tinha R$ 1,56 bilhão em caixa no país, sem livre remessa, e o câmbio deve continuar influenciando o lucro reportado nos próximos períodos.
Para a Genial, os principais riscos para a tese estão concentrados nos juros e na tributação. No cenário positivo, com taxa terminal de 10,5%, capex de 5,2% da receita e crescimento anual de 6,5% da receita entre 2032 e 2035, o valor estimado chega a R$ 15,44. No cenário negativo, que combina taxa terminal de 12%, capex de 7,7%, ausência de repasse de benefícios fiscais e maior impacto do Imposto Seletivo, a estimativa cai para R$ 12.
A Genial afirma que passaria a considerar uma posição compradora caso a expectativa para a Selic de longo prazo no Focus caísse abaixo de 8,2%, elevando o preço-alvo para R$ 17 e o retorno total estimado para 17,1%. Por outro lado, um custo de caixa por hectolitro da Cerveja Brasil acima do teto de 7,5% previsto no guidance ou um Imposto Seletivo superior a um ponto percentual da receita poderia levar a uma avaliação mais negativa. O próximo teste para a tese será a divulgação dos resultados do terceiro trimestre, prevista para 29 de outubro.
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