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Ações de bancos despencam após resultado eleitoral

Ações de bancos despencam após resultado eleitoral

Juros futuros em alta e aversão ao risco pressionam papéis na B3, com Banco do Brasil e BTG entre as maiores perdas

As ações dos principais bancos brasileiros registravam fortes perdas na Bolsa de Valores (B3) na manhã desta segunda-feira (26), em meio à intensificação da aversão ao risco após o resultado do segundo turno das eleições presidenciais.

Às 11h02, pelo horário de Brasília, o Banco do Brasil (BBAS3) recuava 31,35%, cotado a R$ 16,97, enquanto o BTG Pactual (BPAC11) registrava queda de 34,16%, negociado a R$ 52,55.

O movimento atingia também Bradesco (BBDC4), cujas ações preferenciais caíam 24,55%, a R$ 15,28, e Itaú Unibanco (ITUB4), com desvalorização de 16,87%, a R$ 40,15. Já as units do Santander Brasil (SANB11) apresentavam recuo de 4,50%, cotadas a R$ 26,29.

A turbulência no mercado financeiro levou a B3 a acionar o mecanismo de circuit breaker, que interrompe temporariamente as negociações quando o Ibovespa atinge uma queda de 10% em relação ao fechamento anterior. A medida evidenciou a intensidade da reação dos investidores diante das incertezas sobre os rumos da política econômica e fiscal do país.

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Juros elevados e risco fiscal pressionam os bancos

A queda das ações bancárias reflete a combinação de incertezas fiscais, alta dos juros futuros e redução da exposição de investidores ao mercado brasileiro. A perspectiva de taxas elevadas por mais tempo tende a encarecer a captação de recursos pelas instituições financeiras, além de aumentar o risco de inadimplência e limitar a expansão do crédito.

Para Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, a intensidade das perdas está relacionada à revisão das expectativas que haviam sustentado parte dos investimentos em ações brasileiras após o primeiro turno das eleições. A mudança de cenário levou investidores a desmontar posições que consideravam uma trajetória de juros menores e maior disciplina fiscal.

O analista destaca que os efeitos podem ultrapassar o desempenho das ações no pregão e atingir os resultados das instituições financeiras.

“A preocupação é que juros elevados por mais tempo aumentem o custo de captação, pressionem a inadimplência e reduzam as perspectivas de crescimento do crédito”, afirma.

Com financiamentos mais caros, famílias e empresas podem reduzir a demanda por empréstimos ou enfrentar dificuldades para honrar compromissos. Para os bancos, isso representa o risco de crescimento mais lento das carteiras e de maiores despesas com provisões para perdas.

Investidores estrangeiros ampliam a pressão vendedora

Além da revisão das expectativas econômicas, a saída de investidores estrangeiros contribui para intensificar a queda. Ações de bancos costumam concentrar parte relevante das negociações na Bolsa e, por sua liquidez, podem ser vendidas rapidamente quando gestores decidem reduzir a exposição a determinado mercado.

Segundo Maria Carolina Luchesi, analista de investimentos da Hike Capital, o setor bancário foi particularmente afetado porque havia concentrado apostas de investidores após o primeiro turno. Com a mudança de percepção sobre o cenário político e econômico, essas posições passaram a ser desfeitas.

O movimento, de acordo com a analista, já era observado no exterior antes da abertura da B3. O fundo de índice EWZ, que acompanha ações brasileiras negociadas nos Estados Unidos, recuava 27% no pré-mercado de Nova York, enquanto os recibos de ações (ADRs) de Itaú e Bradesco registravam perdas superiores a 20%.

A dimensão das quedas também sugere uma revisão generalizada dos preços dos ativos brasileiros, e não apenas uma avaliação negativa sobre os resultados ou as perspectivas individuais de cada banco.

Disparada dos juros futuros amplia as perdas

A pressão sobre as ações também foi acompanhada pela forte alta dos juros futuros. Segundo os dados apresentados por Luchesi, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2033 subiu cerca de 1,9 ponto percentual, aproximando-se de 14,6%.

A alta das taxas de longo prazo afeta as instituições financeiras tanto pelo custo de financiamento quanto pela avaliação de seus ativos. Dependendo da composição e da classificação contábil das carteiras, a elevação dos juros pode provocar perdas na marcação a mercado de títulos. Ao mesmo tempo, o crédito mais caro e uma eventual desaceleração econômica podem comprometer a capacidade de pagamento dos clientes.

A diferença entre as perdas registradas pelos bancos também reflete particularidades de cada instituição. No caso do Banco do Brasil, o controle estatal acrescenta uma dimensão política à avaliação dos investidores, uma vez que as decisões do governo federal podem influenciar a estratégia de crédito, a governança e a distribuição de dividendos.

Para Luchesi, esse fator ajuda a explicar por que os papéis do Banco do Brasil apresentavam desvalorização superior à de outras instituições. A incerteza sobre as diretrizes do acionista controlador aumenta a sensibilidade da ação às expectativas sobre a condução da política econômica.

Recuperação depende de maior previsibilidade econômica

Apesar da intensidade do movimento, Sidney Lima avalia que parte das perdas pode representar uma reação exagerada no curto prazo. Uma recuperação mais consistente, porém, dependeria de sinais que reduzam as incertezas sobre a trajetória fiscal e monetária do país.

“Considero que parte dessas quedas já reflete uma reação excessiva no curto prazo, mas não vejo espaço para uma recuperação consistente enquanto o governo não apresentar sinais concretos de compromisso fiscal”, afirma.

Nos próximos pregões, a trajetória das ações bancárias deverá continuar sensível às mudanças nas expectativas para as contas públicas, aos juros futuros e ao fluxo de capital estrangeiro. A evolução desses fatores será importante para determinar se as perdas representam principalmente um ajuste de preços diante de novas informações ou se antecipam uma deterioração mais persistente das condições de crédito e rentabilidade.