Com a decisão do ministro Luiz Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), de anular as condenações do ex-presidente Lula na Lava Jato, o mundo político entrou em ebulição e antecipou-se o debate sobre as eleições presidenciais de 2022.
De imediato, a derrubada das restrições afetou negativamente a Bolsa de Valores, disparou o dólar e trouxe novamente à tona o velho sentimento de amor e ódio de Lula e o mercado financeiro – que remonta ao ano de 1989, época das eleições presidenciais que disputou com Fernando Collor de Mello e perdeu nas urnas.
Da mesma forma, foi assim nas eleições seguintes, em 1994 e 1998, quando foi eleito Fernando Henrique Cardoso.
A história mudou em 2002, quando afinal Lula foi eleito presidente da República.
Entretanto, na ocasião Lula fez um aceno ao mercado já na escolha de seu vice-presidente: o empresário José Alencar, então dono da Coteminas, do setor têxtil. Outro sinal que mudou a relação com o mercado foi a escolha de Henrique Meirelles para a presidência do Banco Central (BC).
Mas como o mercado leu essa possibilidade de retorno de Lula?
Apesar de bons momentos para economia nos primeiros anos do mandato de Lula, ainda há ressalvas do mercado com o nome do ex-presidente.
Lula: primeiro mandato com conquistas mantidas
Ao assumir o primeiro mandato, em janeiro de 2003, a decisão de Lula foi de manter conquistas dos governos anteriores de FHC: o controle da inflação e a garantia de estabilidade do real. Estes eram dois pontos de maior temor do mercado financeiro de que o governo petista não conseguisse manter.
Com relação à inflação, o início do mandato de Lula registrou uma inflação de 12,53%. Esse índice posteriormente caiu para 3,14%, em 2006. No fim do primeiro mandato, chegou a 5,90%.
Bancos têm lucros exponenciais
Aproveitando o bom momento econômico, os bancos surfaram a onda. Matéria da revista Veja mostra que os instituições bancárias lucraram oito vezes mais em comparação com a era Fernando Henrique Cardoso.
Nos oito anos de Lula, o lucro total dos bancos foi de aproximadamente R$ 280 bilhões. Ao passo que nos dois mandatos de FHC, chegou a cerca de R$ 34 bilhões.
China: parceiro comercial
O grande passo do governo Lula foi o estabelecimento de uma parceria comercial com países como a China. Os chineses se tornaram um dos maiores consumidores de minério de ferro brasileiro, valorizando empresas como a Vale. E se tornou a maior parceria econômica do Brasil.
Naquele período, a China comprou 78,97% de todas soja exportada pelo Brasil; levou 54,13% de todas as vendas externas de minério de ferro; e ainda comprou 44,22% do petróleo exportado pelo país, de acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento Indústria e Comércio (MDIC).
Crise e classe C
Durante a era Lula também foi o momento de o governo levar adiante políticas de distribuição de renda. A mais famosa delas foi o Bolsa Família. Mas a melhor conjuntura econômica fez com que a classe C aumentasse de tamanho. Isso foi fruto do crescimento estimado de 60% do salário mínimo na época e a fatura de crédito.
Tal cenário ajudou o Brasil a atravessar de forma consistente a crise econômica de 2008, iniciada nos Estados Unidos, por conta da fraude no crédito habitacional que levou à quebra do Banco Lehman Brothers, seguido por um escândalo financeiro de graves proporções.
Estímulos ao consumo de forma massiva fez com que o Produto Interno Bruto do país não sofresse tanto os impactos como em outros países. Dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) mostram que, ao passo que nos Estados Unidos, em 2008, houve um decréscimo de quase 1% no PIB, o Brasil cresceu perto de 5%.
No ano seguinte, o quadro foi ainda pior para os norte-americanos, que enfrentara um tombo de quase 3%. No Brasil, chegou a uma variação negativa, mas de 0,13%. Em 2010, no auge do desempenho econômico nacional, o PIB brasileiro cresceu 7,5%.
Por outro lado, o estímulo ao crédito levou ao endividamento das famílias.
Parte do mercado lê que Lula deu prioridade a questões sociais e deixou de lado a boa relação com o mercado e empresários, algo que se agravou nos anos seguintes.
Encolhimento
O ano de 2010, quando terminou o mandato de Lula, de fato, o Brasil surfava uma boa onda econômica. O quadro mudou a partir de 2011, quando Dilma Rousseff, também do PT, promoveu mudanças. Os gastos público aumentaram quando era hora de reduzir. Com isso, a dívida pública só cresceu. Em 2008, representava 56% do PIB. No ano seguinte, avançou para 59,2%.
Os piores anos foram 2015 e 2016, quando o PIB encolheu 7%, queda significativamente pior do que no período da crise de 2008/2009, de acordo com matéria do UOL. Outro problema teria sido a manutenção do corte das taxas de juros, quando o cenário apontava para um aumento de forma a conter o desequilíbrio fiscal. Em 2011, a taxa de juros estava em 12,5% ao ano.

Fim e desmonte de políticas
Esse quadro levou a um rápido desgaste da gestão da presidente Dilma Rousseff, aliado ao início das denúncias e prisões promovidas pela Operação Lava Jato. A prisão de peças chaves do comando da Petrobras, como o então diretor de Abastecimento, Paulo Roberto Costa, e outros da alta cúpula da empresa, como Renato Duque, desgastaram a imagem da presidente da gestão PT.
Com o impeachment de Dilma Rousseff, o então vice-presidente Michel Temer assume e a Petrobras dá início a um plano agressivo de desinvestimentos, incluindo participações em campos de exploração de petróleo e gás e de empresas como a Transportadora Associada de Gás (TAG).
A situação econômica se agravou rapidamente. A ponto da dívida pública atingir 77% do PIB, em 2018. Apenas uma década após a crise de 2008.
A “herança maldita” deixada pelos governos do PT será um grande desafio para Lula tentar voltar à disputa eleitoral. Aguardemos os próximos capítulos da novela política.






