A deflação de 0,32% registrada pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em agosto trouxe uma leitura melhor do que a esperada, mas não alterou de forma significativa o cenário traçado pelo mercado para a inflação e os juros.
O ponto comum entre as avaliações é que houve uma melhora em componentes como serviços, núcleos, alimentos e combustíveis. O número cheio, entretanto, foi beneficiado principalmente pelo desconto temporário concedido nas contas de energia elétrica por meio do Bônus de Itaipu.
Por isso, economistas veem espaço para a continuidade gradual dos cortes da Selic, mas não para uma aceleração do ciclo. A inflação acumulada em 12 meses caiu de 4,44% para 4,22% e voltou ao intervalo de tolerância da meta, cujo teto é de 4,5%. Para o fim de 2026, porém, as projeções permanecem acima desse limite.
O resultado divulgado pelo IBGE nesta sexta-feira (11) ficou abaixo da queda de 0,28% esperada pelo mercado. A EQI Investimentos projetava recuo de 0,30%.
EQI vê melhora na composição, mas mantém IPCA de 5,1%
A análise da EQI mostra que o resultado não foi positivo somente por causa da energia elétrica. Os preços livres variaram apenas 0,02%, enquanto os serviços avançaram 0,03%. A média dos núcleos ficou em 0,23%, e os componentes subjacentes de bens industriais e serviços apresentaram altas de 0,10% e 0,40%, respectivamente.
Na média móvel de três meses, dessazonalizada e anualizada, esses indicadores atravessam o melhor período desde o fim de 2025. Ainda assim, a média dos núcleos acumulada em 12 meses permanece próxima de 4,4%, acima do centro da meta.
Igor Cadilhac, economista da EQI Investimentos, e Stephan Kautz, economista-chefe, avaliam que as pressões inflacionárias devem voltar a ganhar peso nos próximos meses. A casa manteve a projeção de IPCA de 5,1% para 2026.
“A foto é positiva, mas a história segue preocupante. O resultado de agosto veio abaixo do esperado e com composição qualitativa marginalmente mais favorável, mas as pressões relevantes devem começar a pesar daqui em diante, com desancoragem adicional das expectativas”, afirmam Cadilhac e Kautz.
A diferença entre o dado corrente e a projeção para dezembro ajuda a explicar a cautela. Embora o IPCA em 12 meses esteja 0,28 ponto percentual abaixo do teto da meta, a expectativa é de que esse espaço seja consumido nos próximos meses, quando fatores que ajudaram em agosto deixarem de atuar.
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Energia exagera melhora, mas alimentos também ajudam
A energia elétrica residencial caiu 7,63% e retirou 0,33 ponto percentual do IPCA. Sozinho, o item teve impacto superior à deflação de 0,32% do índice. O recuo decorreu do Bônus de Itaipu creditado nas faturas emitidas em agosto e deverá ser parcialmente devolvido a partir de setembro.
Isso não significa que toda a melhora tenha sido artificial. Os Transportes recuaram 0,86%, com quedas nas passagens aéreas e nos combustíveis. Alimentação e bebidas caiu 0,34%, enquanto a alimentação no domicílio apresentou redução de 0,61%.
A alimentação fora de casa, um componente mais ligado ao setor de serviços, desacelerou de 0,55% para 0,36%. Esses resultados mostram uma inflação menos disseminada, ainda que insuficiente para caracterizar uma trajetória consolidada.
“A deflação veio principalmente do Bônus de Itaipu creditado nas contas de luz de agosto, que é um desconto pontual, não uma mudança de preço. Quando ele sair da conta, e isso já acontece a partir de setembro, a energia volta ao normal e o índice sobe de novo. Ou seja, a foto de agosto é melhor do que o filme”, afirma André Matos, CEO da MA7 Capital.
Além da recomposição da energia, o mercado acompanha a alta do petróleo, o câmbio e o comportamento dos alimentos. Esses fatores podem elevar os índices nos próximos meses e afastar novamente a inflação do intervalo da meta.
As expectativas também limitam uma reação mais agressiva do Banco Central. A projeção do boletim Focus para o IPCA de 2026 está em 5%, enquanto a EQI trabalha com 5,1%. Dessa forma, a deflação mensal melhora o ponto de partida, mas ainda não garante o cumprimento da meta no encerramento do ano.
“Com a Selic em 14%, o resultado abre espaço para a continuidade gradual dos cortes, mas não justifica uma aceleração do ciclo enquanto as expectativas para o fim do ano permanecerem acima da meta e houver risco de recomposição da energia, do petróleo e dos alimentos”, avalia Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos.
A leitura do mercado, portanto, fica entre dois extremos. O IPCA de agosto não foi apenas produto de um desconto na energia, pois houve melhora em componentes relevantes. Ao mesmo tempo, a queda de 0,32% superestima a intensidade da desinflação.
Os dados de setembro deverão mostrar quanto do alívio permanece sem o Bônus de Itaipu. Serviços, núcleos e expectativas serão mais importantes para a trajetória da Selic do que a deflação isolada de agosto.


