O mercado de luxo no Brasil vive um momento de inflexão relevante. Em um cenário global marcado por desaceleração, especialmente em mercados maduros como China e Estados Unidos, o país apresenta um ritmo de crescimento que chama a atenção de marcas, investidores e analistas internacionais.
Para Carlos Ferreirinha, fundador e CEO da MCF e secretário executivo da ABRAEL, essa performance não é fruto do acaso, mas de uma combinação específica de fatores econômicos, culturais e comportamentais.
Ao falar sobre o conceito de luxo, Ferreirinha é categórico. “A obsessão total pela excelência, em ir além, no detalhes”, define. Para ele, luxo não se resume à exclusividade ou ao preço elevado, mas a uma lógica de gestão que exige rigor, profundidade e consistência.
Esse compromisso se manifesta em pilares claros. “O comprometimento imperativo com o extraordinário, com a curadoria, serviço memorável, estética consistente e acesso a repertório”, afirma. São esses elementos que diferenciam marcas de luxo de produtos apenas caros e sustentam o valor simbólico ao longo do tempo.
A discussão em torno do chamado “novo luxo”, frequentemente associada à migração do “eu tenho” para o “eu vivo”, é relativizada por Ferreirinha. Segundo ele, essa percepção sempre existiu, mas não representa uma ruptura estrutural. Trata-se de uma leitura comportamental que depende do amadurecimento do consumo em cada região.
“O Brasil não tem o amadurecimento de consumo que a Europa possui”, observa, lembrando que mesmo dentro do continente europeu há diferenças importantes entre mercados tradicionais como França, Itália e Inglaterra e regiões do chamado novo leste europeu. O luxo, portanto, se manifesta de formas distintas conforme o repertório cultural, as vivências e o estágio de desenvolvimento de cada sociedade.
A indústria do luxo como um ecossistema integrado
Ferreirinha também chama atenção para um erro conceitual recorrente ao se analisar o setor. “Luxo não é indústria”, afirma. Para ele, tratar o luxo como um segmento industrial convencional empobrece sua compreensão.
“A atividade de luxo é um ecossistema que integra produto, serviço e estilo de vida”, explica. Moda, acessórios, joias, relógios, beleza, hospitalidade, gastronomia, viagens, automóveis, arte, design e mercado imobiliário compõem esse universo de forma integrada.
Mais do que setores isolados, o luxo opera a partir de uma lógica de comportamentos, códigos culturais e experiências que se retroalimentam. O consumidor de luxo transita entre diferentes categorias, guiado por valores como excelência, coerência e serviço, e não apenas pelo tipo de produto.
Essa leitura ajuda a entender por que marcas de luxo investem cada vez mais em experiências, hospitalidade, conteúdo cultural e relacionamento. O produto continua sendo central, mas é apenas uma parte de uma narrativa maior.
Nesse contexto, marcas globais como Louis Vuitton exemplificam essa estratégia ao combinar herança, inovação e controle rigoroso de seus códigos, mantendo relevância mesmo em ciclos econômicos adversos.
Quanto o mercado de luxo movimenta e por que o Brasil se destaca?
Os números ajudam a dimensionar a relevância do setor. Os bens pessoais de luxo movimentam cerca de 360 bilhões de euros por ano no mercado global. Quando se amplia o olhar para todo o ecossistema, incluindo viagens e experiências, esse volume ultrapassa US$ 1,4 trilhão.
No Brasil, o mercado de luxo movimentou cerca de R$ 98 bilhões em 2024. Entre 2022 e 2024, o setor cresceu 26%, com média anual de 12%, enquanto o mercado global avançou apenas 3% no mesmo período, segundo pesquisa da Bain & Company em parceria com a Vogue Brasil e o jornal Valor Econômico.
Ferreirinha contextualiza esse desempenho superior: “O desempenho superior do Brasil se explica por uma base ainda em consolidação, interiorização do consumo e desaceleração de mercados maduros como China e Estados Unidos. O país vive um momento de afirmação cultural e consumo de identidade e crescimento exponencial de riqueza, que é um fator relevante para o consumo do luxo”.
Mesmo assim, ele pondera que o Brasil ainda tem participação pequena no cenário global. “Considerando as operações globais, o Brasil não representa nem 2% do faturamento global”, afirma. Além disso, o consumo de luxo, de forma geral, representa cerca de 2% da população de um país, reforçando o caráter seletivo desse mercado.
As projeções indicam que o mercado brasileiro pode alcançar entre R$ 135 bilhões e R$ 150 bilhões até 2030, com crescimento anual entre 6% e 8%, mantendo o país entre os mercados mais dinâmicos do mundo.
O que busca o consumidor de luxo?
Para além dos números, o entendimento do comportamento do consumidor é central. Segundo Ferreirinha, o luxo nasce da combinação entre raridade, excelência técnica e códigos culturais.
“O consumidor busca detalhes, histórias, códigos culturais, coerência, confiança, narrativas emocionais, serviço e proteção simbólica”, explica. Não se trata apenas de status, mas de significado e legitimidade.
“Quando o luxo tem alma, dialoga com o coração das pessoas”, resume. Essa conexão emocional é o que transforma marcas em referências duradouras e sustenta o desejo ao longo do tempo.
O consumidor de luxo brasileiro tornou-se mais letrado, exigente e crítico. Ele reconhece processos, valoriza herança cultural e percebe rapidamente quando uma marca perde coerência. Por isso, luxo é cada vez mais um exercício de consistência e verdade.
Geração, omnicanalidade e o toque humano
A transformação digital acelerou mudanças importantes no setor, mas não alterou um pilar essencial do luxo: o atendimento. No Brasil, essa relação assume contornos próprios.
“O Brasil é o país do WhatsApp, do serviço humanizado. Brasileiro demanda sinestesia, atenção, cuidado, carinho. Brasileiro é mimado”, afirma Ferreirinha. Segundo ele, ninguém no mundo utiliza o WhatsApp como o Brasil, e ganham espaço as marcas que conseguem garantir humanização mesmo nas esferas tecnológicas.
Ao falar sobre a chamada mudança geracional, Ferreirinha relativiza o discurso de ruptura. “O que acontece agora não é diferente do que sempre aconteceu geracionalmente. A revolução e a transformação digital acelera e potencializa. Mas mudanças sempre aconteceram”, diz, lembrando que muitas marcas de luxo possuem mais de um século de história.
Ele também questiona narrativas simplificadas sobre consumo consciente. “Quando se acredita que a ‘nova geração’ consome mais consciente, não faria sentido o crescimento explosivo da Shein, por exemplo”, observa.
Sobre o papel da inteligência artificial, a posição é clara: “A IA deve atuar nos bastidores, potencializando conhecimento do cliente, precisão e antecipação. O toque humano segue como assinatura inegociável do luxo”.
Crescer sem perder valor
O crescimento traz desafios específicos. Para Ferreirinha, expandir no luxo não significa apenas vender mais. “Crescer no luxo não é apenas vender mais unidades, é gerar densidade de valor”, afirma.
Esse caminho passa por serviço, relacionamento, experiências e curadoria rigorosa, sempre protegendo os códigos centrais da marca. A diluição de valor é um risco constante quando a expansão não é acompanhada de consistência.
Ele destaca ainda desafios estruturais recorrentes no Brasil: “Formação de equipes, segurança jurídica, tributação, consistência de marca e qualidade da experiência são pontos críticos para sustentar o crescimento projetado. Na verdade, os mesmos nos últimos 20 anos. Brasil sendo Brasil”.
Há também um desafio adicional: compreender a complexidade regional. “O Brasil é o país das tramas regionais. As marcas precisam aprender mais sobre o Brasil de forma geral”, alerta.
O futuro do luxo no Brasil
As perspectivas seguem positivas. O acúmulo de riqueza, a descentralização geográfica do consumo e o amadurecimento do consumidor criam um cenário favorável para o setor.
Ferreirinha resume o desafio central das marcas: “O que importa para as marcas é ter um propósito claro e buscar excelência sempre, criando experiências memoráveis, ampliando conexões, alavancando autoridades, explorando estratégias”.
Ao mesmo tempo, será necessário investir em governança, processos, visibilidade e adaptação às particularidades locais. O equilíbrio entre valor emocional, cultural e patrimonial torna-se essencial para a sustentabilidade do mercado.
O Brasil emerge, assim, não apenas como um mercado consumidor relevante, mas como um laboratório de inovação em experiência, relacionamento e humanização do luxo. Em um setor onde o extraordinário é obrigação, manter a obsessão pela excelência segue sendo o principal diferencial competitivo.
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